picaretagem científica II – o retorno

Há cinco meses publiquei aqui no blog o post picaretagem científica, em que discuti brevemente a questão das fraudes e plágios na academia por ocasião da publicação de uma metanálise de pesquisas sobre má conduta científica, a qual indicava que essa prática é mais frequente do que se imagina ou se veicula.

E cá estamos em situação de precisar repetir o título do post.  A alternativa seria algum título como “Vergonha na USP”. Mas esse seria um plágio, pois já foi aplicado por Marcelo Leite para se referir a um escândalo no Instituto de Física desta instituição há cerca de um ano. Melhor não cometer um plágio para falar de outro, certo? E que, vejam só que ironia, também tem a USP como cenário. Só que desta vez a protagonista da vergonha é ninguém menos que… a reitora!

Uma rápida retrospectiva do caso em hiperlinks: em 04/11/09, o jornalista Eduardo Gerarque publicou na Folha de São Paulo a matéria Reitora da USP é acusada de plágio em estudo sobre vírus, em que relatou que um grupo de pesquisadores publicou um trabalho em 2008 com três figuras idênticas a um outro estudo publicado em 2003 por um grupo da UFRJ.

Obviamente o caso repercutiu em diversos veículos de comunicação, em especial pelo fato de um dos 11 autores do trabalho acusado de plágio ser a atual reitora da USP, Suely Vilela. Um exemplo está no blog Ciência em Dia, do jornalista Marcelo Leite, que já publicou 3 posts sobre o caso desde então: A reitora e a ética acadêmica – 04/11/09,  Mais ética na academia – 06/11/09 e Mais do mesmo – ética na academia – 08/11/09.

Roberto Takata, do Gene Repórter, levantou ainda outro aspecto: não só houve plágio ao usar imagens de outra publicação, como ainda há uma informação falsa, já que as legendas usadas para identificação das imagens não correspondem às mesmas (veja detalhes no post Plágio?).

Enquanto a reitoria até agora foi capaz apenas de enviar uma patética nota em que termina por descarregar a responsabilidade pelo ato em uma então aluna de doutorado, discussões mais sérias sobre o modo de produção científico na academia vem sendo levantadas. O próprio Marcelo Leite começou com o pertinente questionamento sobre a autoria em trabalhos científicos e os “clubinhos” que se formam.

Explico: como o número de publicações é uma das principais formas de se mensurar a produção acadêmica, é prática mais do que comum o troca-troca de citações. Um pesquisador inclui outro em artigo resultante de pesquisa sob sua coordenação em troca de ser incluído da mesma forma em outro artigo deste e ambos saem ganhando com um trabalho só e dois artigos. Mas eleve isso à enésima potência, porque um pesquisador não faz troca-troca só com um, a promiscuidade é grande e qualquer pessoa que já tenha convivido minimante no meio sabe disso.

A inclusão do nome de um pesquisador externo ao grupo não é prática de todo “picareta”. É bastante comum que a pessoa incluída tenha participado minimamente do trabalho, como parece ter sido o caso de Suely, segundo seu próprio relato. A questão é: ter o nome lá como autor significa concordância com o que está publicado, não parece óbvio para vocês?

O tipo de argumentação da reitora, a meu ver, é a mesma coisa que dizer que Sarney não sabia dos R$4000,00 que estava recebendo de auxílio moradia. Não tenho dúvidas de que não sabia mesmo. O cara tem uma ilha (e trocentas otras cositas más), certamente não percebe esse “troquinho” no extrato bancário. Mas isso quer dizer que não tem responsabilidade sobre o fato? Que não deveria arrumar um mecanismo para estar a par daquilo que participa? Claro que não, né! Idem para o caso tema deste post.

Argumentações patéticas como essa usada pela reitoria, ou infantis do tipo “foi ele quem começou”, como vemos em muitos dos comentários nos posts citados, ou as do tipo “mania de perseguição”, que fazem referência ao fato de que amanhã haverá eleição para o novo reitor da USP e que “levantar essa lebre” tem razões políticas por trás, são pífias e não respondem de fato ao problema.

Acho que ninguém tem dúvidas que a avaliação da produção acadêmica possui falhas e precisa melhorar. Uma falha grande que vejo foi muito bem expressa pelo pesquisador Charbel El-Hani em debate pós apresentação na SBPC de 2008: as atividades de divulgação científica que um pesquisador realiza deveriam também ser contabilizadas como produtividade acadêmica tanto quanto as demais produções. Isso no CV Lattes, por exemplo. Só assim a “tríplice aliança” ensino-pesquisa-extensão se cumpriria.

Mas a ideia é melhorar o que está, não usar falhas do modo vigente como desculpa para esculhambar a casa de vez… Menos ainda reforçar a impunidade e o oba-oba geral de um sistema de picaretagem que obviamente extrapola a academia: se der algum pepino, aponta-se para aquele do grupo com menor chance de punição (a aluna de doutorado, o caseiro etc). Mas se der tudo certo… aí quem vai apresentar o trabalho em congresso, digamos, na Holanda é o orientador, não o doutorando, né!

phd110609s[tradução da HQ: "você quer que eu supervisione alguns dos alunos de pós graduação?"; "Sim"; "A ideia é me separar dos detalhes mundanos do seu cotidiano de pesquisa."; "Se houver um problema, eu não quero ouvir falar dele"; "Mas você deveria ser o 'orientador'."; "O que eu acabei de dizer?"]

Além dos posts e matérias supra referidos, leia mais sobre o caso em:

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a ciência percorre o Brasil, mas não “dá manchete”

A cobertura da mídia regional, em estados e municípios, tanto na TV como em jornais, tem sido grande, embora os jornais de amplitude nacional não dêem cobertura significativa.

A frase acima consta da avaliação de Ildeu de Castro Moreira, diretor do Departamento de Popularização e Difusão da Ciência do Ministério da Ciência e Tecnologia e coordenador da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, em artigo escrito para o Jornal da Ciência.

O artigo faz um balanço da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, que promoveu mês passado diversos eventos de popularização da ciência em todo o país. Os resultados são muito positivos e vêm melhorando a cada ano. Mas faço coro aqui ao puxão de orelhas de Ildeu na “grande imprensa”, que ainda não acordou para a importância deste evento anual. Quem sabe em 2010…

Leia aqui a íntegra do artigo publicado no Jornal da Ciência.

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vem aí o Dia Mundial da Ciência

imagemEventoA UNESCO elegeu o 10 de novembro como Dia Mundial da Ciência pela Paz e pelo Desenvolvimento desde 2001.  A ideia é oferecer

oportunidade para que se reflita sobre a função que a ciência desempenha na construção de um mundo melhor.

A partir de 2005, a data começou a ser celebrada no Brasil (veja histórico). A versão brasileira da comemoração tem os seguintes objetivos:

* Incentivar a discussão acerca dos impactos da pesquisa e dos avanços da ciência e da tecnologia para o desenvolvimento e a sustentabilidade do planeta.

* Contribuir para o fortalecimento da iniciação científica e tecnológica entre os estudantes do ensino médio do Brasil.

* Reconhecer e premiar os melhores trabalhos escritos e os melhores desenhos que demonstrem o real entendimento da importância do desenvolvimento científico e tecnológico.

O tema do evento este ano é Nossa presença no cosmos, em consonância com o Ano Internacional da Astronomia. Estudantes do ensino médio de todo o Brasil foram convidados a participar de um concurso por meio de trabalhos escritos e/ou desenhos. Os trabalhos enviados e também os dez selecionados em cada categoria estão disponíveis aqui.

Estão programadas ainda palestras e contação de histórias em São Paulo (veja aqui), audiência pública no senado federal (veja aqui) e oficinas, workshops e show de rap em Brasília (veja aqui). Mais informações no site da Unesco no Brasil.

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a história que falta

Como e por que a história da ciência deve estar presente no ensino de ciências? Esse é o tema de hoje, que não se dirige apenas a educadores. Se você acha que Lineu é o pai da classificação e propositor da nomenclatura binomial, então esse post também é para você!

O que queria compartilhar é um material muito bom que conheci durante o VI Encontro de História e Filosofia da Biologia (veja posts anteriores sobre o evento aqui). Trata-se do livro Utilização de História da Biologia no Ensino Médio, organizado pela Associação Brasileira de Filosofia e História da Biologia (ABFHiB).

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O livro traz uma reunião de reflexões sobre os equívocos da história da ciência abordados no ensino de biologia e proposições de alterações que podem ser feitas para que os livros didáticos cumpram sua função de transmitir o conhecimento científico.

Os textos abordam principalmente a história da biologia no ensino médio, mas a reflexão geral pode ser aplicada aos demais níveis de ensino e às outras disciplinas de ciências.

Por que é importante incluir a história da ciência no ensino de ciências? Há muitas razões.

A compreensão histórica do processo de construção do conhecimento científico facilita o entendimento dos conceitos e apropriação e aplicação desse conhecimento por parte do aluno. Também evita que se forme a noção de que ideias e teorias surgem repentinamente inteiras e prontas na mente dos cientistas. Bem como combate a ideia de uma origem pontual e pessoal para teorias, métodos, disciplinas etc.

Ideias do tipo “Joseph Priestley é o descobridor da fotossíntese” ou “Lineu é o pai da classificação” são equivocadas. Para que o aluno compreenda a natureza do conhecimento científico, é importante que conheça os pressupostos teóricos e as hipóteses de trabalho que nortearam determinado estudo, as dificuldades da pesquisa científica, a rede conceitual que conecta os conhecimentos de várias áreas científicas, os precedentes teóricos e experimentais.

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Encontro de História e Filosofia da Biologia 2009

Vamos tomar como exemplo a história da classificação das plantas, tema da palestra, durante o encontro, de Maria Elenice Brzezinski Prestes, do Instituto de Biociências da USP, e que está descrita em um dos capítulos do livro.

A proposta de Lineu (Carl von Linné) de classificação de plantas foi resultado de uma construção histórica gradativa. O próprio Lineu, em suas obras Fundamenta Botanica (1736) e Philosophia Botanica (1751), faz referência a 19 propostas de classificação em sistemas precedentes. É o caso, por exemplo, de Rivinus, que foi o propositor da nomenclatura binomial (sempre atribuída a Lineu nos livros didáticos!), e de Sebastian Vaillanta, que identificou a função sexual das flores e introduziu termos que são usados até hoje (estames, pistilos, ovários etc).

Ôpa, isso quer dizer então que Lineu não fez nada? Obviamente não. Dentre as contribuições de Lineu podemos destacar o estabelecimento de uma nomenclatura coerente, a promoção de uma terminologia descritiva e a utilização do número, proporção e posição de estames e pistilos como critério-base da classificação botânica. Mas, se conseguiu chegar a essa sistematização do conhecimento, é porque “estava debruçado sobre os ombros de gigantes”*.

Ainda, para que o aluno compreenda adequadamente a ciência, é importante mostrar nos livros didáticos que a controvérsia faz parte do processo de construção do conhecimento científico. Há muitos aprendizados em ciência a partir de grandes controvérsias. A esse respeito, há um livro ótimo de Hal Hellman, denominado Grandes debates da ciência: dez das maiores contendas de todos os tempos (Editora Unesp, 1999), que recomendo muito.

Isso nos leva ao último ponto: os cientistas são seres humanos. Isso quer dizer que a ciência, em princípio, é neutra e objetiva, mas a sua prática no cotidiano está sujeita a toda uma dimensão social, ética, histórica etc.  Uma primeira decorrência disso é que, para compreender o passado, temos que distinguir bem entre as ideias/teorias atuais e as que eram conhecidas e aceitas em determinada época.

Outra, é que aquilo que um experimento “diz” depende também do que o cientista pensa e acredita. Os mesmos fatos e/ou resultados podem ser interpretados de diferentes formas por diferentes pessoas e em diferentes épocas. É por isso também que a descrição da metodologia e dos resultados em um artigo científico são mais importantes do que interpretação desses resultados por parte dos pesquisadores.

Os resultados são os dados de fato, que podem ser interpretados de outra forma por outro grupo de cientistas, mesmo contemporâneos. E a indicação minuciosa da metodologia utilizada permite que o experimento seja refeito, retestado etc, prática comum e mais do que desejada em ciência. Assim, o livro didático de ciências (e a divulgação científica idem!) precisa enfocar também esse aspecto, humanizar a figura do cientista.

Mas você está se perguntando como é possível encaixar tudo isso no espaço de um livro didático e/ou nas aulas de ciências? Hum, parece que o livro da ABFHiB veio bem a calhar para você, não?

* Referência à famosa frase de Sir Isaac Newton: “Se vi mais longe foi por estar sobre os ombros de gigantes.”

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