ciência na academia

Senti nesses últimos dias uma certa onda de reflexão sobre os meandros da ciência na academia. Talvez tenha a ver com o suposto caso de plágio envolvendo a (agora) ex-reitora da USP ou com o fato de o governador ter furado a tradição e escolhido o para reitor o segundo indicado da lista tríplice. Ou talvez até mesmo com a revelação da Bruna Surfistinha da ciência. Estou falando dessas ótimas reflexões:

E ainda tem a (divertida) cerejinha no bolo:

Deixe um comentário

animando a citologia

Essa semana está bem pesada de trabalho e não tenho conseguido atualizar o blog. Seria mais um dia sem nem uma pingadinha por aqui quando enfim pensei o óbvio: se passei o dia todo escrevendo materiais didáticos de ciências e, por conseguinte, assistindo diversos vídeos e animações, identificando bons textos de divulgação científica que possa recomendar como leitura complementar para o professor e o aluno etc, por que não compartilhá-los no blog?

O tema do dia foi citologia. Deixo vocês com os “top 4″ [agora "top 6" - veja atualização do post após vídeo] dos materiais que pesquisei:

  • Animações em Biologia Celular: ferramenta online elaborada por John Kirk que contém diversas animações interativas. A que se refere à membrana celular, por exemplo, mostra sua estrutura e simula sua permeabilidade seletiva mostrando os diversos tipos de transporte de substâncias;
  • Cell size and scale: ferramenta on-line que permite a visualização em escala de diversas estruturas celulares. A escala começa com a ilustração de um grão de café de 1.2 cm e vai até a ilustração de um átomo de carbono, passando por células procarióticas e eucarióticas, organelas de células eucarióticas, vírus, moléculas e átomos;
  • Membrane awakening: texto de divulgação científica do boletim do Howard Hughes Medical Institute que percorre um pouco do histórico dos modelos sobre estrutura e funcionalidade da membrana celular apresentando suas limitações e novos caminhos de investigação;
  • The Plasma Membrane: vídeo elaborado pelo Science Education Group que mostra a membrana plasmática de forma animada e permite o entendimento do modelo do mosaico fluido. Segue abaixo a versão do vídeo com as legendas em português (o título foi inserido pelo autor das legendas):

Atualização em 18/11/09: Ontem já estava com sono e acabei deixando de fora da listinha um outro material bastante interessante também. Trata-se do Inside a Cell, uma ferramenta online que permite a navegação pelo interior da célula e, quando uma organela citoplasmática é detectada, é possível ampliá-la e obter mais informações sobre sua estrutura e função. Também é possível tornar a membrana celular transparente e observar seu conteúdo, bem como observar todas essas estruturas em células animais e vegetais. Vale o clique!

E o Carlos, um dos co-autores do livro didático para o ensino médio do qual também participo (novidades em breve!), me mandou a dica de uma animação que ilustra e explica o funcionamento da bomba de sódio-potássio: How the sodium-potassium pump works. No site há diversas outras animações e materiais sobre fisiologia humana e biologia celular. Também vale o clique!

Deixe um comentário

“funcionário do mês” – César Lattes

lattes2

César Lattes (Fonte: Texas A&M University)

O curitibano Césare Mansueto Giulio Lattes, mais conhecido como César Lattes, foi um notável físico brasileiro cujo trabalho teve importantes repercussões internacionais. Fundador do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), Lattes foi o responsável pela comprovação da existência  da partícula subatômica méson pi.

A descoberta desta partícula rendeu um prêmio Nobel ao japonês Hideki Yukawa, mas foram as experiências realizadas por Lattes na década de 1940 que comprovaram sua existência e provocaram uma revisão dos conceitos físicos sobre a estrutura da matéria.  A revisão do conceito de partícula elementar como algo indivisível levou, mais tarde, ao estudo da estrutura dos prótons, mésons e outras partículas. Assim,  o desenvolvimento da teoria dos quarks tem relação direta com os estudos de Lattes.

Em 1997, Gilberto Gil lançou o disco Quanta. A música que dá nome ao álbum foi uma homenagem a Lattes, ao méson pi e à física. Leia aqui a carta enviada a Gil por Lattes após ter recebido o K7 com a gravação da música. E veja aqui a letra completa da música (com cifras).

César Lattes faleceu em março de 2005 aos 80 anos. A famosa Plataforma Lattes, sistema de informações organizado pelo CNPq para integrar bases de dados de currículos e de instituições da área de ciência e tecnologia, recebe este nome em homenagem ao cientista.

Boas fontes de informação sobre César Lattes e sua pesquisa:

  • documentário Cientistas Brasileiros: César Lattes & José Leite Lopes, dirigido por José Mariani (Riofilme Documenta, 2003): com narração de Arnaldo Antunes entrecortando os depoimentos, o filme aborda a trajetória pessoal e profissional dos dois físicos brasileiros. Trata-se uma iniciativa ímpar e muito bem realizada que, infelizmente, não teve muita repercussão e distribuição. Algumas informações sobre o filme podem ser lidas aqui [para quem ficou curioso, eu tenho o DVD];
  • livro Descobrindo a estrutura do Universo (Editora Unesp, 2001): entrevista com César Lattes acompanhada de iconografia, cronologia e bibliografia, além da tradução do artigo de sua autoria – Meu trabalho em física de méson com emulsões nucleares – originalmente publicado em 1960;
  • página do Grupo de História e Teoria da Ciência da Unicamp sobre César Lattes e os 50 anos do méson pi, com acesso ao primeiro artigo de Lattes sobre mésons;
  • página do Arquivo Central do Sistema de Arquivos da Unicamp, com breve história da vida e obra de Lattes, depoimentos de diversos cientistas, fotos e arquivo de notícias;
  • entrevista com César Lattes que integra o livro Cientistas do Brasil da SBPC;
  • artigo Uma descoberta inesperada, publicado na revista Ciência Hoje, sobre a descoberta do méson pi;
  • artigo de Cássio Vieira Leite na revista Física na EscolaLattes: nosso herói da era nuclear;
  • cartaz da exposição comemorativa dos 80 anos de César Lattes organizada pelo Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas em 2004, com linha do tempo da trajetória de Lattes e da descoberta do méson pi.

[A coluna mensal "Funcionário do Mês" é postada todo dia 10 aqui no blog. Excepcionalmente esse mês a postagem atrasou um pouco. Veja as colunas anteriores sobre a vida e trabalho de importantes cientistas aqui.]

Comentários (2)

picaretagem científica II – o retorno

Há cinco meses publiquei aqui no blog o post picaretagem científica, em que discuti brevemente a questão das fraudes e plágios na academia por ocasião da publicação de uma metanálise de pesquisas sobre má conduta científica, a qual indicava que essa prática é mais frequente do que se imagina ou se veicula.

E cá estamos em situação de precisar repetir o título do post.  A alternativa seria algum título como “Vergonha na USP”. Mas esse seria um plágio, pois já foi aplicado por Marcelo Leite para se referir a um escândalo no Instituto de Física desta instituição há cerca de um ano. Melhor não cometer um plágio para falar de outro, certo? E que, vejam só que ironia, também tem a USP como cenário. Só que desta vez a protagonista da vergonha é ninguém menos que… a reitora!

Uma rápida retrospectiva do caso em hiperlinks: em 04/11/09, o jornalista Eduardo Gerarque publicou na Folha de São Paulo a matéria Reitora da USP é acusada de plágio em estudo sobre vírus, em que relatou que um grupo de pesquisadores publicou um trabalho em 2008 com três figuras idênticas a um outro estudo publicado em 2003 por um grupo da UFRJ.

Obviamente o caso repercutiu em diversos veículos de comunicação, em especial pelo fato de um dos 11 autores do trabalho acusado de plágio ser a atual reitora da USP, Suely Vilela. Um exemplo está no blog Ciência em Dia, do jornalista Marcelo Leite, que já publicou 3 posts sobre o caso desde então: A reitora e a ética acadêmica – 04/11/09,  Mais ética na academia – 06/11/09 e Mais do mesmo – ética na academia – 08/11/09.

Roberto Takata, do Gene Repórter, levantou ainda outro aspecto: não só houve plágio ao usar imagens de outra publicação, como ainda há uma informação falsa, já que as legendas usadas para identificação das imagens não correspondem às mesmas (veja detalhes no post Plágio?).

Enquanto a reitoria até agora foi capaz apenas de enviar uma patética nota em que termina por descarregar a responsabilidade pelo ato em uma então aluna de doutorado, discussões mais sérias sobre o modo de produção científico na academia vem sendo levantadas. O próprio Marcelo Leite começou com o pertinente questionamento sobre a autoria em trabalhos científicos e os “clubinhos” que se formam.

Explico: como o número de publicações é uma das principais formas de se mensurar a produção acadêmica, é prática mais do que comum o troca-troca de citações. Um pesquisador inclui outro em artigo resultante de pesquisa sob sua coordenação em troca de ser incluído da mesma forma em outro artigo deste e ambos saem ganhando com um trabalho só e dois artigos. Mas eleve isso à enésima potência, porque um pesquisador não faz troca-troca só com um, a promiscuidade é grande e qualquer pessoa que já tenha convivido minimante no meio sabe disso.

A inclusão do nome de um pesquisador externo ao grupo não é prática de todo “picareta”. É bastante comum que a pessoa incluída tenha participado minimamente do trabalho, como parece ter sido o caso de Suely, segundo seu próprio relato. A questão é: ter o nome lá como autor significa concordância com o que está publicado, não parece óbvio para vocês?

O tipo de argumentação da reitora, a meu ver, é a mesma coisa que dizer que Sarney não sabia dos R$4000,00 que estava recebendo de auxílio moradia. Não tenho dúvidas de que não sabia mesmo. O cara tem uma ilha (e trocentas otras cositas más), certamente não percebe esse “troquinho” no extrato bancário. Mas isso quer dizer que não tem responsabilidade sobre o fato? Que não deveria arrumar um mecanismo para estar a par daquilo que participa? Claro que não, né! Idem para o caso tema deste post.

Argumentações patéticas como essa usada pela reitoria, ou infantis do tipo “foi ele quem começou”, como vemos em muitos dos comentários nos posts citados, ou as do tipo “mania de perseguição”, que fazem referência ao fato de que amanhã haverá eleição para o novo reitor da USP e que “levantar essa lebre” tem razões políticas por trás, são pífias e não respondem de fato ao problema.

Acho que ninguém tem dúvidas que a avaliação da produção acadêmica possui falhas e precisa melhorar. Uma falha grande que vejo foi muito bem expressa pelo pesquisador Charbel El-Hani em debate pós apresentação na SBPC de 2008: as atividades de divulgação científica que um pesquisador realiza deveriam também ser contabilizadas como produtividade acadêmica tanto quanto as demais produções. Isso no CV Lattes, por exemplo. Só assim a “tríplice aliança” ensino-pesquisa-extensão se cumpriria.

Mas a ideia é melhorar o que está, não usar falhas do modo vigente como desculpa para esculhambar a casa de vez… Menos ainda reforçar a impunidade e o oba-oba geral de um sistema de picaretagem que obviamente extrapola a academia: se der algum pepino, aponta-se para aquele do grupo com menor chance de punição (a aluna de doutorado, o caseiro etc). Mas se der tudo certo… aí quem vai apresentar o trabalho em congresso, digamos, na Holanda é o orientador, não o doutorando, né!

phd110609s[tradução da HQ: "você quer que eu supervisione alguns dos alunos de pós graduação?"; "Sim"; "A ideia é me separar dos detalhes mundanos do seu cotidiano de pesquisa."; "Se houver um problema, eu não quero ouvir falar dele"; "Mas você deveria ser o 'orientador'."; "O que eu acabei de dizer?"]

Além dos posts e matérias supra referidos, leia mais sobre o caso em:

Comentários (22)

Posts Mais Antigos »