histórias da Genética no Brasil

Setembro 8, 2015 § 6 comentários

Uma câmera amadora, um pano preto de fundo, super boa vontade por parte das maravilhosas figuras que procuramos retratar e muita paixão. Foi assim que sete biólogos procuraram unir as narrativas de cientistas que compuseram a primeira e a segunda geração de geneticistas brasileiros, todos personagens que foram testemunhas ou atores importantes da história da Genética no Brasil e cientistas influentes em suas linhas de pesquisa: Antonio Brito da Cunha, Bernardo Beiguelman, Crodowaldo Pavan, Darcy Fontoura de Almeida, Francisco J.S. Lara, Francisco Salzano, João Lúcio de Azevedo, João S. Morgante, Oswaldo Frota-Pessoa, Roland Vencovsky e Warwick Kerr.

As gravações têm vários problemas técnicos, que vocês logo vão perceber. Anos se passaram, nos envolvemos em outras atividades e sempre tentávamos encontrar alguém que pudesse nos ajudar com algumas pendências e nada. Não fazia sentido algum ter esse material tão rico engavetado. Certamente não é um primor técnico, mas é um documento valioso, especialmente num país que não costuma valorizar a cultura e a história.

Com pesar, acompanhamos ao longo desse período as notícias de óbito de alguns dos entrevistados. Sobre dois deles cheguei a escrever aqui no blog: a partida de Crodowaldo Pavan foi que primeiro me motivou a iniciar uma seção de divulgação do trabalho de cientistas fundamentais para o desenvolvimento da pesquisa científica no Brasil. Após a partida de Bernardo Beiguelman, fiz o último registro.

Recentemente, decidimos fechar o documentário como estava mesmo. Estamos muito felizes que enfim, quase 10 anos depois de tudo iniciado, vamos veicular isso. Está bem longe do que planejamos, do que gostaríamos que ficasse. Mas vai mesmo como um registro dessa história. Quem sabe anime outros com melhor conhecimento de linguagem audiovisual e mais condições técnicas de registrar histórias assim. Sabemos que hoje praticamente qualquer pessoa com um bom smartphone poderia captar melhor as imagens que o que conseguimos, meus alunos de ensino médio que o digam. Que os programas de edição de que dispõem resolvem melhor ruídos de fundo etc. Mas as histórias estão lá. E são lindas e importantes e divertidas – abafam os ruídos!

O vídeo está dividido em cinco capítulos temáticos: “Os fundadores” (9’50”), “Dreyfus” (8’25”), “Dobzhansky” (14’45”), “Genética Humana” (9’20”) e “Pavan” (8’20”). Aprecie e ajude-nos a divulgar importante esse material!

divulgação científica em dose dupla!

Setembro 8, 2015 § Deixe um comentário

O Congresso Brasileiro de Genética começou hoje em Águas de Lindóia, SP. Já é o sexagésimo primeiro encontro científico da Sociedade Brasileira de Genética (SBG). Anualmente, diversos pesquisadores “de peso”, brasileiros e estrangeiros, reunem-se e debatem os avanços científicos da área. O tema deste ano é “Pós-Genômica”, que deve enfatizar “as diferentes áreas, abordagens e ferramentas de pesquisa que surgiram com a genômica do final do século XX e as tendências para o futuro da Genética“.

A SBG se notabiliza também pelo apoio à divulgação científica de qualidade e ligada aos centros de produção científica, além da preocupação com o ensino de ciências. Um exemplo é a Genética na Escola, publicação semestral que se propõe a difundir experiências educativas na área de genética, sejam elas práticas inovadoras ou enfoques metodológicos, a proporcionar reflexões sobre conceitos de genética e a discutir os desdobramentos na tecnologia na qualidade de vida das populações e a divulgar materiais destinados ao trabalho em sala de aula.

Este ano, o Congresso começa com divulgação científica em sua abertura solene (mais sobre o processo de produção do documentário Histórias da Genética no Brasil no próximo post!):

sbg_2015

Na quinta-feira, haverá a já tradicional “Genética na Praça“, com exposição de trabalhos de divulgação científica e de ensino de ciências. E, no último dia, uma mesa-redonda todinha voltada pra divulgação científica, “Ações de popularização da Genética”, que apresentará “Do resultado da pesquisa para a população: um documentário sobre genética médica – por Lavínia Schüler-Faccini, UFRGS”, além de um belo projeto de divulgação mineiro, o  “Ciência para todos: genética nas ondas do rádio e nas viagens de ônibus – por Adlane Vilas-Boas, ICB/UFMG (informações aqui), e do “Semear Ciência: a circulação de ideias científicas pelos trens do metrô – por Rodrigo Venturoso Mendes da Silveira, CEGH-Cel da USP” (já contei um pouco sobre a primeira versão desse projeto neste post, que inclui entrevista com o Rodrigo, e escrevi este material de divulgação para a segunda versão do projeto atualmente em curso). Ao final da mesa, mais uma exibição do documentário “Histórias da Genética no Brasil“! (programação completa do congresso aqui)

Enfim , o Congresso Basileiro de Genética tem divulgação científica na abertura e entre as demais atividades. Se outros congressos científicos também dessem esse espaço para a divulgação científica, o que não poderíamos produzir!?! Uma vez palestrei no evento satélite do Congresso Brasileiro de Biossegurança – era quase uma estranha no ninho, uma palestra sobre divulgação científica da Biotecnologia no meio de palestras estritamente científicas. Mas funcionou super bem!

É preciso mais disso. Até o CNPq, enfim, começou a valorizar a divulgação científica ao ter editais específicos pra esse fim e espaço para registros no CV Lattes. Mais ainda está muito incipiente e muito do que pode ainda virar depende de posicionamento da própria comunidade científica. Os congressos, como o da SBG, são um ótimo espaço pra isso!

Termino a noite feliz, apesar de não ter podido acompanhar a apresentação do documentário ao vivo e a cores, pois a tecnologia está aí pra isso (aliás, nesse ponto a SBG falhou um pouquinho; afinal, um streamingzinho caía bem…) e dois amigos dos grupo de produtores, o Felipe e a Ana Elisa, lá estão e mandam notícias fresquinhas via Whatsapp dizendo que saiu tudo bem! Abaixo, o Felipe está com o Prof. João Stenghel Morgante, peça-chave no processo de produção do documentário e um dos geneticistas entrevistados, e a Ana Elisa está com a Prof. Eliana Dessen, também geneticista, editora da Genética na Escola e principal responsável por termos desengavetado o documentário. na-sbg_2015

diferentes, mas semelhantes

Julho 8, 2014 § 1 Comentário

O Centro de Pesquisa sobre o Genoma Humano e Células-Tronco (CPGH-Cel) é um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Como tal, incorpora ações de divulgação científica, sejam direcionadas ao público em geral, sejam direcionadas ao ensino de ciências. O último trabalho realizado pelo projeto “Semear Ciência”, que visa divulgar temas importantes da Genética, atua nessas duas esferas. Os usuários do metrô de São Paulo já podem se deparar com os cartazes abaixo, espalhados em diversas estações, e via QR Code acessar o site do projeto, onde poderão saber como foram realizados os estudos que levaram aos dados apresentados nos cartazes e quais os impactos desse conhecimento no tratamento de doenças.

O biólogo Rodrigo Mendes é um dos educadores do CPGH-Cel, responsável por esse projeto em curso. Conversei com ele para saber um pouco mais sobre a concepção do projeto, sobre como a divulgação científica se associa à ciência de ponta realizada em centros de pesquisa e sobre a relação entre divulgação científica e ensino de ciências. Clique em cada soundtrack a seguir para ouvir a resposta a uma pergunta específica ou, se preferir, ouça as respostas compiladas nessa playlist.

1- Conte um pouco sobre como foi a criação desse projeto, ou seja, como foi selecionado esse tema, por que a opção pelos cartazes no metrô, que tipo de público pretendem atingir no projeto como um todo etc. 

2- Como se chega a esses números para expressar as semelhanças apresentados nos cartazes? Por exemplo, para o caso da semelhança entre chimpanzés e humanos, há estudos que apontam para 99%, mas vocês apresentaram o dado de 96% de semelhança.

3- Há algum desdobramento pensado para esse projeto para além das informações contidas nos textos disponibilizados no site?

4- Como as ações de divulgação científica do CPGH-Cel se vinculam com as pesquisas científicas desenvolvidas por lá?

5- Além do trabalho na área de divulgação científica, você também atua no ensino de biologia há muitos anos. Você diria que o slogan dessa campanha – “Diferentes, mas semelhantes” – se aplica também à relação entre ensino de ciências e divulgação científica?

6- E o que mais vem por aí? Já há alguma outra campanha de divulgação da pesquisa genética em desenvolvimento no CPGH-Cel?

quatro heranças

Maio 26, 2013 § Deixe um comentário

É sempre difícil encontrar, ainda mais em português, um filme sobre pesquisas científicas que apresente as informações conceituais de maneira correta e contextualizada e utilizando uma linguagem acessível (mas sem alguns dos vícios da divulgação mais “preguiçosa”, como a eterna comparação de tamanho de qualquer coisa grande com X campos de futebol…). Assim, é um prazer contar com vídeos como o “Quatro heranças”, sobre genética médica populacional.

Além de explicar os princípios básicos desse campo de estudos, parte para a prática com quatro exemplos brasileiros de pesquisa na área em partes diferentes do país, abordando e conceituando diferentes condições genéticas, como gemelaridade e doenças de transmissão hereditária, e também os processos de pesquisa médica e científica. Mais que um excelente material para uso em aula para aprendizado a respeito dos diferentes mecanismos de herança, é um belo exemplo de divulgação científica de qualidade!

Emendando com a história da “terra dos gêmeos” no final do filme, que explica o conceito genético de “efeito fundador”, vale a pena ver também, da mesma produtora, o filme “Efeito Fundador”, que conta a história da formação do Departamento de Genética da UFRGS, que percorre a história da genética no Rio Grande do Sul e no Brasil.

mais biologia sintética

Dezembro 5, 2011 § 7 comentários

No post anterior, mencionei meu entusiasmo recente pela biologia sintética, provocado principalmente por uma conferência incrível a que tive oportunidade de assistir em setembro durante a abertura do Congresso Brasileiro de Biossegurança. O palestrante era Andrew Hessel, da Singularity University, uma instituição localizada no centro de pesquisa da Nasa no Vale do Silício.  Criada há 3 anos com o objetivo de treinar pessoas em fast moving technology, tem a engenharia genética como uma das principais áreas de investigação e, claro, a biologia sintética como o mais recente e promissor desdobramento.

O esquema abaixo, apresentado por Hessel em sua conferência, mostra uma possível equivalência entre a hierarquia observada na engenharia computacional e uma para a biologia sintética. E resume bem a ideia de manipulações moleculares, que interferem no metabolismo celular, a partir de intervenções diretas no “código-fonte” da vida, o DNA.

Andrianantoandro, E.; Basu S.; Karig D.K.; Weir R. Synthetic biology: new engineering rules for an emerging discipline. Molecular Systems Biology, 2, 2006. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16738572

A partir do uso de “peças Lego da biologia sintética”, disponíveis em bancos como o da Do-It-Yourself Biologist e da BioBricks Foundation, novas estruturas celulares e mesmo organismos inteiros podem ser sintetizados. De acordo com Hessel, tudo que hoje é feito quimicamente, como combustível, plástico e fertilizantes, poderá ser feito bioquimicamente.

E muito já se tem feito. O próprio Hessel, por exemplo, esta à frente de uma cooperativa open source com objetivo de mudar o paradigma biotecnológico do tratamento do câncer por meio da biologia sintética (Pinky Army Cooperative). Outra iniciativa interessante é a competição em biologia sintética voltada a estudantes (International Genetically Engineered Machine CompetitioniGEM), patrocinada por importantes instituições de desenvolvimento científico e tecnológico, como o MIT, a Nasa, a National Science Foundation e a Biobricks Foundation.

Um grupo de estudantes da USP, candidato à próxima versão da competição iGEM, vem escrevendo um blog que se converteu rapidamente em uma excelente fonte sobre biologia sintética em língua portuguesa. Com informação qualificada e acessível para não especialistas, o SynbioBrasil é um ótimo ponto de partida para conhecer o básico sobre biologia sintética e se manter atualizado a respeito dos avanços da área.

Este infográfico elaborado pela revista Seed Magazine também é um bom ponto de partida, assim como o vídeo abaixo, realizado pela Universidade de Bristol.

Frente ao magnífico avanço dessa nova vertente da biotecnologia, o que ainda esta incipiente é o debate ético e o relacionado à biossegurança, como bem colocou Paul Roote Wolpe na Ted Talk que já virou post aqui no blog. O recém criado Virtual Biossecurity Center é uma importante iniciativa no sentido de estabelecer uma rede entre cientistas, educadores e governantes que podem colaborar para o desenvolvimento de uma “biotecnologia responsável”. Quanto a isso, assino embaixo da frase de Hessel no encerramento de sua conferência: Training young people is the best security system.

Where Am I?

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