enfim, a resposta: a galinha veio antes do ovo

Julho 16, 2010 § 5 comentários

Começo confessando que roubei o título do post a partir de um tuíte do André Teixeira. Achei uma ótima síntese para uma notícia científica no mínimo interessante que circulou essa semana.

Ocorreu que cientistas britânicos identificaram que uma proteína encontrada apenas no ovário de galinhas é necessária para a formação da casca do ovo. A conclusão a que se chegou e se divulgou é que para que exista o ovo, é necessária a existência da galinha, o que poria fim na dúvida que atravessa séculos. [como exemplo, veja reportagem com vídeo no Jornal da Globo.]

[detalhe divertido, como já muito bem notado: essa proteína que forma o ovo é chamada de ovocleidina.]

Bem, como costuma acontecer nos casos de notícias cienciacionalistas, a história não é bem essa. Ressalte-se porém, que um dos cientistas responsáveis pela pesquisa tem grande contribuição nesse episódio, já que teria dito:

Há tempos se suspeita que o ovo veio primeiro, mas agora temos a prova científica que mostra que de fato a galinha veio primeiro.

Com esse “há tempos se suspeita que o ovo veio primeiro”, o cientista se refere ao raciocínio evolutivo que já se desenvolveu a partir de registros fósseis e outras evidências: as galinhas, como aves que são, têm forte parentesco evolutivo com os répteis, os quais também apresentam ovos. Assim, evolutivamente falando, os ovos vieram antes das galinhas.

É este raciocínio evolutivo que está sendo substituído por essa nova descoberta dos cientistas britânicos. Mas, como disse, a história não é bem assim. Para explicar o porquê, aproveito para reinaugurar a seção ciência traduzida aqui do blog e apresento a livre tradução de trecho de post no Pharyngula (famoso blog sobre ciência de autoria do biólogo PZ Myers):

[…] O que eles encontraram foi uma molécula específica chamada ovocleidina, que é membro da família do tipo C das proteínas similares a lectina. Essas moléculas estão por toda parte; elas são moléculas de adesão celular, algumas estão involvidas na sinalização celular, algumas agem modulando o sistema imunitário e vias de coagulação sanguínea. Também são encontradas em venenos de cobras. São ainda encontradas em diversos tipos de animais, do C. elegans aos mamíferos. Sua propriedade é ligar-se ao cálcio.

Em aves, essas proteínas estão relacionadas à regulação da formação da casca do ovo. Elas se ligam ao cálcio e podem promover a cristalização do carbonato de cálcio e também controlar a taxa de formação do cristal. As galinhas possuem ovocleidina, mas gansos apresentam  molécula similar, a ansocalcina, e avestruzes têm a estrutiocleidina. […]

Simplesmente não se pode chegar à conclusão apresentada na reportagem. A espécie ancestral do Gallus gallus colocava ovos, o último ancestral comum a todas as aves colocava ovos, os répteis que precederam as aves colocavam ovos… o surgimento da postura de ovos não foi coincidente com a evolução da ovocleidina. A primeira galinha que adquiriu a proteína que agora chamamos de ovocleidina o fez por mutação de uma proteína pré-existente também advinda de um ovo. […]

Atualização em 22/07/2010: Sobre essa pesquisa, leia excelente post no Ciensinando: Sobre galinhas e ovos (ou “Como espalhar um erro”).

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os cientistas incentivam uma cobertura enganosa na mídia?

Novembro 30, 2009 § 6 comentários

É coisa de final de campeonato mesmo: aos cinco minutos do segundo tempo, eis que finalmente consigo aprontar o “Ciência Traduzida” deste mês. E finalmente também mudando a fonte.

Dessa vez, o texto abaixo foi traduzido a partir do post Do scientists encourage misleading media coverage?, publicado mês passado no blog 2020 Science. O autor é Andrew Maynard, assessor para nanotecnologia e biologia sintética no Woodrow Wilson International Center for Scholars em Washington.

O post é um puxão de orelhas de cientista para cientista e gerou um bom debate no blog original. Vejamos o que vocês acham:

Os cientistas incentivam uma cobertura enganosa na mídia?

Como cientistas, gostamos de reclamar da incompetência da mídia. Como auto proclamados detentores da verdade, menosprezamos – geralmente em voz alta – a interpretação e o uso indevidos de nossos estudos preciosos. E como nós nos compadecemos unidos sobre as injustiças do mundo, é inevitável pensarmos que se os jornalistas pudessem ver o mundo como nós e registrassem isso por escrito (ou gravado), as coisas seriam muito melhores.

À exceção do fato de que nem sempre são os jornalistas os culpados pelo modo como a ciência é retratada nos meios de comunicação!

Pegue, por exemplo, este caso que chegou em meu escaninho metafórico esta manhã:

Ontem, a Universidade Texas A & M publicou uma notícia com o título “Technology may cool the laptop“. A notícia se inicia [assim]:

“O seu laptop às vezes fica tão quente que quase pode ser usado para fritar ovos? Uma nova tecnologia pode ajudar a esfriá-lo e dar à informação tecnológica uma reviravolta única”, diz Jairo Sinova, um professor de física da Texas A & M University.

Auxiliado por um pequeno vídeo, o professor Sinova, um co-autor da referida pesquisa, observa que:

Os laptops estão ficando cada vez mais potentes, mas como estão ficando mais reduzidos em tamanho, estão aquecendo muito; portanto, lidar com o aquecimento excessivo torna-se uma dor de cabeça … “Teoricamente, o calor excessivo pode derreter o laptop”, acrescenta. “Isso também desperdiça uma quantidade considerável de energia.”

Esta é uma questão importante, mas eu suspeito que a visão de laptops derretidos vai um pouco longe demais. Mas isso faz com que você fique se perguntando que incrível descoberta é esta que vai impedir os embaraçosos derretimentos de laptops […]. A resposta? O Spin Injection Hall Effect, ou SIHE – um fenômeno relativamente recém descoberto que resulta em elétrons com diferentes “spins” em um semicondutor levado a um campo magnético mensurável.

O artigo a que a notícia da Universidade Texas A & M se refere é “Spin-injection Hall effect in a planar photovoltaic cell”, [publicado] na revista Nature Physics. Ele aparece na edição de setembro da revista. É um artigo interessante e cientificamente preciso. Descreve [um] trabalho em que um dispositivo semicondutor experimental é utilizado para mostrar que o Spin Injection Hall Effect pode, em princípio, ser usado para codificar a informação no estado de spin dos elétrons e então “ler” as informações de volta.

É uma pesquisa que pode ser útil para novas formas de transmissão e armazenamento de informações no futuro.

Mas manter laptops refrigerados? Dificilmente! E certamente não é iminente.

Então o que está acontecendo aqui? Como passamos de uma bela pesquisa sobre spin de elétrons para prevenção de “queima de laptops”?

A explicação mais generosa é que, em um futuro possível, esta ciência pode apoiar tecnologias que levem a microprocessadores de baixa energia, e que isso é o que os pesquisadores ressaltaram em uma tentativa de tornar seu trabalho relevante para um público amplo. Mas isto é um salto incrivelmente enorme. É o equivalente científico de jogar na loteria – especulação ao extremo. Há uma pequena chance de que a ciência possa levar, por meio de uma longa cadeia de eventos, a microprocessadores de 12-50 anos abaixo da linha que sejam mais rápidos e mais eficientes. Mas fazer o seu MacBook Pro refrigerar? Me poupe!

Outra explicação é que a Texas A & M queria ressaltar a pesquisa – levantar seu perfil em detrimento da informação científica.

Ou talvez alguém apenas tenha segurado do lado errado do graveto – ou segurado o graveto totalmente errado.

Não tenho certeza de qual dessas possibilidades está mais perto da verdade. Mas o que está claro é que esse tipo de deturpação da ciência na fonte não é incomum, e é altamente prejudicial para a compreensão da ciência pela sociedade e para o engajamento desta para com a ciência.

Neste caso, as hipóteses e especulações por trás das reclamações sobre os laptops não foram esclarecidas, e pouco esforço foi feito para distinguir entre a ciência e as fantasias que inspirou. Como resultado, os meios de comunicação que se serviram da história simplesmente propagaram a desinformação – incluindo o Science Daily. E como muitos leitores não têm acesso ao artigo original, não têm os meios para avaliar as afirmações feitas.

Se as instituições de pesquisa deturpam a ciência em que estão envolvidas, que esperança existe para a cobertura informativa de ciência na mídia? E, mais importante, como as pessoas poderão desenvolver uma percepção bem informada da ciência e da tecnologia emergente e se engajarem em um diálogo significativo sobre o seu desenvolvimento e implementação?

Eu apóio a reflexão sobre os diferentes caminhos a que uma pesquisa pode levar. Mas fantasiar sobre suas futuras aplicações como se estivessem ali na esquina é ingenuidade, na melhor das hipóteses, e simplesmente cinismo, na pior. E o triste é que isto acaba desligando mais pessoas do processo de inovação, ciência e tecnologia – roubando-lhes a possibilidade de participar efetivamente de uma ciência e tecnologia orientadas à sociedade.

A cobertura efetiva da ciência na mídia está sob ameaça, e há muitos fatores em jogo aqui. Mas isso certamente faz com seja ainda mais importante que cientistas e instituições de pesquisa não aumentem o problema. Provavelmente estou sendo um pouco injusto ao mencionar a Texas A & M aqui – eles não são os únicos a alimentar a mídia com material questionável. Mas parece que se a comunidade científica leva a sério o bom reporte da ciência, precisa colocar sua própria casa em ordem antes de apontar muitos dedos a outros.

Afinal, jornalistas e divulgadores de ciência e tecnologia são tão bons quanto suas fontes. Lixo entra, lixo sai, não importa quão quente ou frio está funcionando o laptop!

oS efeitoS placebo

Outubro 31, 2009 § 2 comentários

Depois da minha fracassada tentativa de contar com as indicações dos leitores para emplacar aqui o “Ciência Traduzida” desse mês, recorri ao velho e bom NeuroLogica Blog, do qual me tornei leitora assídua.

O texto abaixo é, então, uma livre-tradução do post “The” Placebo Effect Proven?, publicado no referido blog em 26/10/09 por Steven Novella, neurologista da Universidade de Yale.

Você sabia que não há apenas um efeito placebo, mas sim vários? Tomou conhecimento de notícias recentes que incorretamente anunciaram que o efeito placebo foi provado cientificamente? Então conheça essa história e oS efeitoS placebo no texto do Dr. Novella.

“O” efeito placebo provado?

Um estudo recente, da forma como  noticiado na New Scientist, dá a entender que pegou o efeito placebo no flagra usando ressonância magnética funcional. É um estudo interessante, e pela primeira vez mostra uma correlação neuropsicológica a decréscimos do efeito placebo em relatos de dor.

Porém, a notícia do ponto alto do estudo, uma vez mais, difunde conceitos impróprios sobre a natureza do efeito placebo – especificamente o fato de que há muitos efeitos placebos e não um efeito placebo. Qualquer referência a “o” efeito placebo é, portanto, enganador – esse é um atalho conveniente, mas inoportuno dada a incorreção conceitual.

Quando se refere a “o” efeito placebo, o que a maior parte das pessoas quer falar é sobre um efeito psicológico real que deriva da crença nos efeitos de um tratamento – um efeito de natureza além da razão. Porém, o efeito placebo, como mensurado em ensaios de pesquisa clínica, tem uma definição operacional bem específica. É todo e qualquer efeito além da resposta psicológica ao tratamento em si.

Isso inclui qualquer resposta psicológica relacionada à crença no tratamento, mas também um grande número de fatores psicológicos, como viés de resposta, viés de confirmação, justificação de risco e viés de avaliação. Também inclui efeitos não específicos relacionados ao fato de se estar participando de um estudo de pesquisa clínica – as pessoas se tratam melhor quando estão sendo observadas, quando estão sendo relembradas de sua enfermidade devido à atenção freqüente a que estão submetidas e quando são encorajadas pela esperança do benefício. Tais fatores efetivamente afetam a aderência a outros tratamentos e estilos de vida mais saudáveis – em outras palavras, as pessoas demonstram maior aderência a outras medicações que estejam tomando e podem comer melhor, exercitar-se mais etc.

Essas variáveis e outras configuram a razão para estudos duplo-cegos. Se os estudos não são duplo-cegos, esses efeitos placebo irão se misturar com os efeitos psicológicos do tratamento, se houver algum.

Também, muitas pessoas incorretamente concluem que “o” efeito placebo não ocorre em crianças pequenas ou em animais, mas isso é totalmente incorreto. Os efeitos placebo resultam também do viés do observador, de quem quer que seja que esteja interpretando os efeitos do tratamento em um animal.

Ainda é preciso enfatizar que os efeitos placebo mensurados diferem muito a depender da enfermidade e dos resultados sendo estudados. O maior efeito placebo é para dor, tipicamente entre 25-35%. Isso faz sentido uma vez que a dor é uma experiência subjetiva e sujeita a uma ampla variedade de fatores modificadores, como humor e expectativa. Mas também conhece-se há um bom tempo a existência de opiódeis naturais no corpo, denominados endorfinas, que se ligam a receptores e inibem a dor, da mesma forma que os mais potentes analgésicos o fazem. Portanto, há um mecanismo psicológico conhecido por meio do qual os efeitos mentais podem inibir a dor.

Outra área em que ocorre um robusto efeito placebo é em qualquer doença que é agravada por estresse psicológico, como o risco de ataques cardíacos. Portanto, qualquer intervenção que possa reduzir o estresse, ou apenas o fato de estar sob tratamento, tem um conhecido mecanismo psicológico por meio do qual a enfermidade pode ser mitigada.

Mas para outras doenças, em que não há um mecanismo psicológico conhecido, os efeitos placebo mensurados são muito menores. Talvez o exemplo mais dramático seja o da sobrevida no câncer. Nesse caso, temos uma doença agressiva e um desfecho definitivo – morte ou sobrevida. O resultado é praticamente nenhum efeito placebo no caso de sobrevida no câncer.

E aqui está o problema em fundir todos os efeitos placebo como se fossem um único grande efeito além da razão: como há um amplo e provável efeito placebo para dor, as pessoas pensam que há um amplo e provável efeito placebo para tudo e que isto é evidência de algum efeito mental místico sobre o corpo (na ausência de mecanismos psicológicos conhecidos).

Isso nos traz ao estudo em questão. O que os pesquisadores fizeram foi olhar para um modelo experimental de dor – calor aplicado à pele. Então eles compararam [a ação de] um creme em relação a um creme placebo e os sujeitos [experimentais] reportaram cerca de 26% menos dor mesmo com o creme placebo (exatamente no meio da resposta placebo típica para dor). Isso não é nenhuma novidade; mas eles também avaliaram as medulas espinais dos sujeitos e observaram que os respondedores ao placebo apresentavam um decréscimo no sinal das vias de dor similar à resposta aos analgésicos de fato.

A notícia está fazendo isso parecer como se “o” efeito placebo tivesse sido finalmente provado – tipicamente passando por cima de todas as nuances dessa questão. Porém, embora interessante, esse estudo não adiciona muita novidade à nossa compreensão [do fenômeno]. Nós já temos conhecimento sobre o efeito placebo para dor, e a hipótese mais aceita é de que este é devido às endorfinas e, portanto, esperaríamos um decréscimo nos sinais de dor na medula espinal. Esse estudo confirma isso – mas não muda nosso conhecimento sobre isso. Ainda, o estudo não investiga o mecanismo de decréscimo. Nós assumimos que é devido às endorfinas, mas é só.

A intenção não é criticar o estudo de forma alguma – é apenas um reporte. Trata-se de uma boa prova de conceito e abre o caminho para futuros estudos que venham a averiguar quais áreas cerebrais estão envolvidas nos efeitos placebo para dor. Também seria interessante verificar se há alguma diferença na atividade cerebral entre respondedores e não respondedores ao placebo. Isso pode inclusive levar a formas futuras de otimização dos efeitos placebo para dor ou de deflagração destes não farmacologicamente.

Eu considero importante fazer essas observações com relação ao efeito placebo porque [este conceito] é amplamente mal compreendido e essa confusão é explorada para embasar todo tipo modalidades e intervenções médicas não científicas ou mesmo danosas.

participe e ganhe!

Outubro 26, 2009 § Deixe um comentário

Quando o blog completou um aninho, inaugurei a seção “Ciência Traduzida” em resposta ao requerimento de alguns leitores (clique no link para ver mais detalhes). Prometi ao menos um “Ciência Traduzida” ao mês e consegui cumprir a meta em agosto (Virtual You) e em setembro (A vacina para o H1N1 e a GBS).

Mas outubro já está chegando ao fim e até agora não apareceu nenhum “Ciência Traduzida” por aqui… A correria está grande e, confesso, essa brincadeira da tradução toma um tempo danado. Assim, resolvi pedir socorro aos leitores para ao menos me ajudarem a selecionar um texto para a tradução.

O link para os textos podem ser indicados abaixo nos comentários e o texto escolhido será traduzido e postado aqui no blog. O leitor responsável por essa indicação irá ganhar um livro à sua escolha dentre as quatro opções abaixo:

  • Poesia Observada: ensaios sobre a criação poética e matérias afins. Lêdo Ivo. Livraria Duas Cidades.
  • Território de Epidauro. Pedro Nava. Ateliê Editorial.
  • Os Lusíadas: antologia. Evanildo Bechara e Segismundo Spina. Ateliê Editorial.
  • Vinho sem segredos. Patricio Tapia. Planeta.

[Observação pertinente: não recebi patrocínio de nenhuma das editoras acima para tal e não estou fazendo propaganda desses livros. Nada contra atitudes do gênero, apenas não foi o caso aqui.]

Agora as regras:

  • o texto tem que ser razoavelmente curto, afinal será convertido em um post. Tome por referência o tamanho dos textos já traduzidos (que, por sinal, estão até grandinhos; esse seria o tamanho máximo);
  • o texto tem que se encaixar na temática abordada no blog;
  • o texto deve estar em inglês ou espanhol;
  • o texto pode ser um post de outro blog, uma notícia de jornal ou revista, um artigo etc. Mas é necessário que seja minimamente informativo (considere que muitas notícias simplesmente jogam um tema ou estudo sem contextualizá-los). Não serão aceitos press releases;
  • o link para o texto deve levar a um veículo de acesso gratuito, senão não terei como acessá-lo;
  • a atualidade do texto também é importante. Ou seja, deve ser uma publicação recente ou, no mínimo, atemporal;
  • serão consideradas sugestões enviadas até 30/10/09 às 17hs;
  • a escolha do texto dependerá do cumprimento às regras acima e também haverá um certo critério pessoal (afinal, é mais fácil traduzir textos de temas com os quais eu tenha maior familiaridade…);
  • o texto escolhido será traduzido e publicado aqui no blog no dia 31/10/09, juntamente com a indicação do “ganhador”;
  • o contemplado será contatado por e-mail para apresentar a escolha do livro e informar o endereço de envio. O livro será enviado apenas para endereço coberto pelos Correios em território nacional e a modalidade de envio será o impresso registrado módico.

Valendo!

Atualização 30/10/09: Bem, chegamos ao final do período com ZERO sugestões… Que fiasco! :(

a polêmica em torno da vacina para a gripe suína

Agosto 31, 2009 § 44 comentários

Estamos na reta final para produção e distribuição da vacina contra a gripe suína. Até que sua aplicação seja efetivada, os alarmistas de plantão têm tempo de sobra para espalhar suas teorias da conspiração e incitar o pânico sobre os “grandes riscos” inerentes à vacina.

Assim, achei bem interessante e oportuno o post que o neurologista Steven Novella publicou em seu blog NeuroLogica uns dias atrás (H1N1 vaccine and GBS) e resolvi dar sequência à série “ciência traduzida” deste blog (veja mais aqui) apresentando uma versão em português desse texto.

Aproveito a ocasião para divulgar também uma sequência de infográficos publicada no Estadão e que explica como se forma uma nova cepa do vírus da influenza e como o vírus infecta a célula humana. Está bem interessante, vale a pena conferir! Abaixo, segue a tradução do texto do Dr. Steven Novella:

A vacina para o H1N1 e a GBS

Como a maioria das pessoas já deve saber, estamos no meio de uma pandemia – a gripe suína ou H1N1. Trata-se de uma cepa do vírus Influenza A, que causa uma infecção respiratória severa. O vírus evolui rapidamente e novas cepas aparecem a cada ano, provocando a gripe sazonal que causa 30.000 mortes nos EUA e 500.000 ao longo do mundo. (O H e o N referem-se às duas proteínas principais usadas para classificar diferentes cepas do vírus – Há um resumo mais detalhado aqui.)

Devido ao fato de a pandemia em curso ser causada por uma cepa do H1N1, a mesma que causou a pandemia de 1918-1919 que matou milhões, as organizações de saúde pelo mundo estão compreensivelmente preocupadas e estão monitorando a pandemia cautelosamente. Há também esforços em curso para desenvolver uma vacina. Isso traz preocupação adicional por causa da pandemia de 1976 provocada pelo H1N1: a vacina dada para combater aquela cepa foi relacionada a casos da Síndrome de Guillain-Barré (GBS). Infelizmente, embora o risco provável da GBS seja muito menor do que o risco da gripe em si, esse risco inflou os ânimos dos espalhadores de pânico sobre vacina. Esse artigo de certa forma irresponsável do Daily Mail é um bom exemplo.

GBS

A GBS é uma desordem neurológica autoimune. É uma enfermidade pós infecciosa monofásica (processo de uma via que se torna pior e depois melhora). Em essência, uma infecção por um vírus ou bactéria deflagra uma resposta inflamatória secundária por parte do sistema imunitário contra as proteínas mielínicas. A [bainha de] mielina constitui uma camada em volta dos nervos – a inflamação inibe a condução nervosa, danifica a [bainha de] mielina e, quando severa, pode danificar a própria fibra nervosa abaixo dela. Isso resulta em fraqueza, entorpecimento e disfunção autonômica. A fraqueza, quando muito severa, pode inibir a respiração, resultando em necessidade de ventilação mecânica. [Do que se sabe] até agora, o maior risco da doença é a disfunção autonômica, que pode provocar uma queda severa na pressão sanguínea, dentre outros sintomas.

Se identificada no início e tratada adequadamente, a maioria dos pacientes com GBS são afetados por um período curto – dias a semanas – e se recuperam quase completamente. Porém, casos severos ou não tratados podem resultar em paralisia permanente e há uma taxa de mortalidade de 3 a 4%. (Embora eu tenha tratado muitos casos, eu nunca vi uma morte por GBS – nem mesmo próximo disso. Suspeito que esses casos resultem de uma demora importante para [início do] tratamento ou de tratamento inadequado).

A GBS pode ser deflagrada não apenas pela gripe ou outras infecções, mas também por vacinas usadas para prevenir infecções. Isso ocorre porque as vacinas são desenhadas para estimular o sistema imunitário, para provocar uma resposta imune – que é o que causa a GBS. O risco de adquirir GBS a partir da vacina antigripal é de 1 em 1 milhão. Esse é um dado bastante confiável, já que estamos usando a mesma tecnologia básica para produção de vacinas antigripais por décadas e temos estatísticas confiáveis sobre a GBS uma vez que a doença requer hospitalização. Alguns casos podem passar despercebidos se forem muito leves (provavelmente raros, mas também se um caso for tão leve ao ponto de passar despercebido, então quem se importa?) ou se forem mal diagnosticados (também provavelmente raros, já que é razoavelmente fácil eventualmente confirmar o diagnóstico, mesmo se for difícil identificar no início).

Destaque-se que a GBS não afeta o cérebro (como o Daily Mail incorretamente noticiou), mas apenas os nervos periféricos. Ocasionalmente a medula espinal pode também ser afetada, mas de maneira geral a GBS é uma doença periférica.

Vacina antigripal para o H1N1

À medida que nos preparamos para a vacina antigripal para o H1N1, há muita difusão de pânico pelos “antivacinistas”, os conspiracionistas e os críticos (geralmente competidores) da medicina baseada em ciência. A matéria do Daily Mail, infelizmente, joga esse jogo de disseminação do pânico ao mesmo tempo que omite qualquer resposta razoável de cientistas no artigo. A preocupação com a GBS foi levantada porque em 1976 a vacina para o H1N1 ou gripe suína deflagrou um surto de GBS e estima-se que cerca de 10 em cada milhão de vacinados apresentaram a GBS. Também ocorreu que a pandemia de 1976 acabou se mostrando muito leve.

A vacina antigripal usa a mesma tecnologia que vem sendo usada por décadas e, portanto, é bastante confiável e os riscos são razoavelmente bem conhecidos. A cada ano a vacina precisa ser ajustada para combater as possíveis cepas de Influenza A que serão proeminentes naquele ano. Então os riscos de uma vacina podem variar ligeiramente conforme novas cepas tornam-se os alvos, mas ao longo dos últimos 30 anos desde o episódio de 1976 o risco de GBS tem se mantido em torno de 1 em 1 milhão – muito menor que o risco da gripe em si.

Portanto, a acusação de que a vacina antigripal em desenvolvimento para o H1N1 não foi testada não é uma afirmação razoável ou precisa. A vacina foi extensivamente testada. Mas é verdade que as cepas-alvo serão novas. Alguns argumentam que a vacinação da população irá somar-se a um grande “experimento suíno”. Porém, essa é uma afirmação ingênua e incorreta. O fato é que qualquer intervenção médica e qualquer novo medicamento à venda estão na mesma situação. Mesmo que testemos extensivamente um novo medicamento em milhares de pacientes, este pode ser vendido para milhões. Podemos não saber os efeitos estatísticos em milhões de pessoas até que isto ocorra. Portanto, não há nada diferente [com o caso da] vacina para o H1N1 em relação a qualquer outra intervenção médica em massa.

Se houver alguma [diferença, será a favor, já que] nossa experiência é muito maior por termos décadas de experiência vacinando milhões de pessoas com vacinas muito similares.

Ainda assim, faz sentido monitorar novas intervenções – a fim de obter dados sobre o que acontece quando milhões são tratados. É aparentemente por esta razão que o serviço nacional de saúde inglês (British National Health Service) solicitou que os neurologistas reportem novos casos de GBS começando neste verão [inverno aqui no hemisfério sul]. Eles querem estabelecer uma linha de base da taxa de GBS usando esse sistema de relatos de forma que, se houver um pico de GBS após a vacinação para o H1N1, eles irão detectá-lo rapidamente e poderão fazer recomendações sobre continuar a vacinação ou abortar o processo. Isso faz sentido.

Mas o Daily Mail está usando essa medida de precaução para espalhar rumores alarmistas sobre a segurança da vacina. Isso é o mesmo que usar a presença de cintos de segurança nos carros para alardear sobre a segurança dos mesmos.

Conclusão

A vacina antigripal em desenvolvimento para o H1N1 é somente a vacina antigripal comum direcionada contra as proteínas do H1N1 para combater a cepa da pandemia em curso. Uma vez que a pandemia deve vir em ondas, e estamos entre elas exatamente agora, isso nos dá a oportunidade de criar uma vacina específica para a cepa pandêmica – em vez de “procurar adivinhar”, como fazemos a cada ano para a gripe sazonal. Temos uma grande quantidade de informação sobre a segurança dessa vacina, mas é sempre razoável monitorar a segurança indo além. Também temos bastante informação sobre a efetividade da vacina antigripal – ela é muito eficaz. A vacina em si é muito eficaz, mas a eficácia real a cada ano varia entre 60 e 80%, dependendo do quanto as cepas apropriadas foram ou não consideradas como alvo.

O risco de contrair GBS a partir da vacina antigripal tem estado em torno de 1 em 1 milhão – uma complicação muito rara. O risco não deve ser maior que esse no caso da vacina para o H1N1. Ainda não se sabe porque a vacina de 1976 levou a um aumento na taxa de GBS, mas isso não se repetiu nos últimos 30 anos. Talvez haja algo no H1N1 que aumente o risco de GBS e, por essa razão, monitorar [a taxa de] GBS quando a vacina for administrada é razoável. Até agora, em testes preliminares de milhares de indivíduos com a nova vacina não houve um aumento no risco de GBS, mas esse processo está em andamento.

Não há garantias absolutas em medicina – mas a melhor evidência que temos até o momento sugere fortemente que o risco da gripe pelo H1N1 é muito maior que o risco da vacina em si. E as medidas usuais de segurança e teste estão sendo tomadas – de fato, o monitoramento de segurança foi aumentado. A medicina é uma avaliação entre o risco e o benefício. Mas é fácil disseminar o pânico focando apenas no risco.

[aproveito o ensejo para pedir que, se houver algum interessado em contribuir para a elaboração da versão em português do blog NeuroLogica (sem compromisso de quantidade, periodicidade etc), que por favor entre em contato com o Dr. Steven Novella no email SNovella@theness.com]

Mais informações sobre a gripe suína:

=> gripe suína: uma nova fase? – apanhado geral sobre “as últimas” relacionadas à gripe suína;

=> Influenza A (H1N1) blog – iniciativa da Bireme (Biblioteca Virtual em Saúde) inaugurada com um post do Átila Iamarino sobre o design dos antivirais.

Atualização em 23/09/09: recomendo também a leitura do post More evidency for vaccine safety, também do Dr. Steven Novella no blog NeuroLogica.

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