homo sapiens 1900

Dezembro 9, 2009 § 9 comentários

Capa da versão em DVD do documentário de Peter Cohen.

Ontem finalmente assisti Homo sapiens 1900. O documentário é de 1998 e foi lançado em DVD há quase 2 anos, mas a minha listinha de filmes tem caminhado muito pouco ultimamente…

O documentário é simplesmente fantástico! O melhor filme de, sobre e com ciência que já vi, sem dúvida.

Imperdível é o mínimo que se pode dizer. E uma verdadeira aula de história da ciência como ela é, ou seja, entremeada na história da humanidade e interagente com suas questões políticas, sociais, ideológicas etc.

Na web, achei duas versões na íntegra, mas eu realmente recomendo assistir no DVD para aproveitar melhor as imagens maravilhosas! A seguir, umas breves considerações sobre o filme só para deixar registrada minha reverência. Aqui tem uma resenha mais completa.

O sueco Peter Cohen destacou-se no mundo cinematográfico com o também fantástico documentário Arquitetura da destruição – a filosofia nazista da beleza por meio da destruição. Mas eu achei Homo sapiens 1900 ainda melhor!

Grande parte da beleza e “eficiência” do filme está na forma com que Cohen estrutura a narrativa. É difícil não cair no lugar comum da analogia com a teia, porque é exatamente isso que ele faz com tanta maestria: ligar ponto a ponto os acontecimentos em diversas partes do mundo, conferindo-lhes o contexto histórico cabível. E assim narra a saga da busca de aperfeiçoamento do homem por meio da eugenia.

Um dos principais méritos do documentário é desmistificar a eugenia como movimento exclusivo de uma Alemanha nazista ou das irmãs fascistas. Antes, Cohen faz um amplo apanhado do movimento eugenista desde sua concepção e traça o percurso de sua aplicação e/ou debate até culminar em sua expressão máxima no regime nazista alemão.

Esse percurso começa já no título, com a referência à redescoberta das leis genéticas do padre austríaco Gregor Mendel em 1900. O inglês Francis Galton está entre as próximas personagens em cena, apresentado como um  entusiasta da teoria de seleção natural de Darwin. Galton foi dos primeiros a defender a utilização de cruzamentos seletivos já aplicados à agropecuária para promover a melhoria da espécie humana. Uma “justificada” seleção artificial.

Era o nascimento de uma ciência obcecada com o aprimoramento da espécie humana, tanto por meio da reprodução das características “boas” (eugenia positiva – transmissão das características “desejáveis” às novas gerações), quanto pela eliminação das “más” (eugenia negativa – esterilização e extermínio de portadores de características que “sujariam” a espécie humana).

O fortalecimento da eugenia não aconteceu sem controvérsias. A principal contenda retratada no documentário foi entre os lamarckistas e os mendelianos. Cada corrente teve mais ou menos força dependendo do lugar e da época. Na então URSS, nos EUA e na Suécia, a eugenia ganhou força até mesmo sob a forma de política de estado, bem antes da estruturação do nazismo na Alemanha.

Na Suécia, por exemplo, houve a fundação do Instituto de Biologia Racial em 1922. Nos EUA, a lei de esterilização forçada implantada em 1907 em um dos estados estendeu-se posteriormente para outros 20 estados.

Logo do Segundo Congresso Internacional de Eugenia, realizado em 1921.

O logo acima dá bem a ideia da proposta eugênica: “Eugenia é o auto direcionamento da evolução humana. Como uma árvore, a eugenia constrói sua substância a partir de múltiplas fontes e os organiza em uma entidade harmônica.”

E hoje? Será que a eugenia é apenas um dos passos mais deploráveis que a humanidade já deu ou ainda há resquícios de ideais eugenistas com chances de vir à tona com alguma força?

Atualização em 03/08/2010: E eis que alguns meses depois deste post o Kentaro Mori escreve uma belíssima reflexão sobre a “eugenia atual” a partir do caso do chinês jogador de basquete Yao Ming – imperdível!

Darwin, os pombos e as seleções

Agosto 20, 2009 § 10 comentários

Encontro de História e Filosofia da Biologia 2009

Encontro de História e Filosofia da Biologia 2009

Neste segundo post da série “cobertura informal do Encontro de História e Filosofia da Biologia” (veja o contexto aqui), apresentarei um resumão da conferência de abertura do encontro.

A origem dos pombos domésticos: a estratégia argumentativa de Darwin. Conferencista: Roberto de Andrade Martins (Grupo de História e Teoria da Ciência da Unicamp)

No primeiro capítulo de A origem das espécies… (1859) e em dois capítulos de outra obra sua menos celebrada, Variation of animals and plantas under domestication (1868), Darwin discute a origem dos pombos domésticos. Especialmente na segunda obra, ele utiliza seus achados sobre a seleção artificial das raças do pombo doméstico como estratégia argumentativa em favor da descrição da ação da seleção natural.

Tudo começa em 1842, quando um Darwin já casado com sua prima Emma muda-se com a família para uma casa de campo, em cujo jardim começou a criar pombos domésticos. Totalmente imerso na nova vida, Darwin passou também a frequentar exposições em que se exibiam diferentes raças do animal e a participar de sociedades de criadores de pombos.

pombos

(clique na imagem para vê-la em tamanho maior e em seu contexto original)

O resultado dessa imersão toda foi a identificação de que há mais de 150 tipos de raças de pombos domésticos e que estas diferem em tamanho, estrutura óssea, coloração, postura, forma corporal, distribuição da plumagem, capacidade de vôo etc. E as diferenças podem ser realmente de grande monta, como mostra a ilustração ao lado.

Darwin analisou as raças todas de que conseguiu tomar conhecimento, mediu e pesou os bichos e analisou até mesmo seus esqueletos, tendo identificado diferenças osteológicas no maxilar, fúrcula, crânio, número de vértebras, conexões entre vértebras e costelas e por aí vai.

A primeira providência foi classificá-los em 4 grandes grupos: os pombos de papo, os pombos carúncula (com um asqueroso tecido proeminente em volta do bico e dos olhos), pombos de bico curto e pombos peculiares. Acho que com peculiares ele quis dizer bizarro, pois colocou aqui todas as demais raças com alguma característica muito peculiar. Um exemplo é o pombo correio, cuja peculiaridade é sua habilidade de regressar à casa a partir de distâncias de centenas de kilômetros.

[embora peculiar mesmo seja o pombo-cambalhota, que acabou classificado no terceiro grupo por conta do seu bico curto. Por que cambalhota? Bem, os pombos dessa raça dão bizarras cambalhotas enquanto caminham ou mesmo no meio de um voo. E, claro, muitas vezes despencam que nem jaca. Eu vi o filminho; deprê! Mais deprê ainda é a razão das cambalhotas: eles sofrem de um distúrbio neurológico… Quer dizer, em ambiente natural eles não teriam durado muito, mas vamos lembrar que estamos falando de pombos domésticos, selecionados artificialmente pelo homem, porque alguém algum dia achou legal ter pombos que dão cambalhotas para mostrar em alguma exibição.]

A segunda providência foi refletir sobre sua história evolutiva. E ele pensou que as diferenças entre as raças de pombos domésticos eram tão grandes que se fossem encontrados em estado selvagem poderiam ser classificados como espécies, ou até mesmo gêneros, diferentes. Exatamente como ocorreu com os diversos exemplares de tentilhões que havia coletado nas Ilhas Galápagos em uma das paradas do Beagle, que acabaram classficados em 13 espécies de 5 diferentes gêneros.

Mas Darwin não era adepto da chamada “hipótese da origem múltipla” dos pombos domésticos, ou seja, não achava que as diferentes raças de pombos domésticos haviam surgido a partir de cruzamentos entre diversas espécies selvagens. Argumentava que os pombos domésticos não fazem ninhos em árvores ou no chão, como a maioria dos pombos selvagens.

Sobrou então para a espécie selvagem Columbia livia, o pombo de rocha, que ficou como suspeito de ser o “pai” de todas as raças de pombos domésticos. afinal este é um pombo selvagem que não faz ninho no chão ou em árvores. Não havendo a possibilidade de realizar um teste de paternidade à época, Darwin vestiu o jaleco de experimentador e mandou ver num cover de Mendel (cuja figura e cujos experimentos ainda estavam por “nascer”) e resolveu realizar cruzamentos entre os pombos domésticos.

O engraçado é o Darwin experimentador: realizou os cruzamentos e nem anotou as características dos descendentes, só falou se “dava” branco, cinza, malhado… Até aí, vá lá. Mas a parte que certamente faria Mendel enfartar é que Darwin achava que deveria ser possível obter algum pombo com a aparência do pombo de rocha cruzando entre si raças muito diferentes de pombos domésticos. Ele achava que esses cruzamentos poderiam reverter as características que haviam sido selecionadas artificialmente pelos criadores quando do surgimento espontâneo de algumas delas e que isso levaria a um indivíduo com o “fundo comum do original”.

Cruza daqui, cruza dali… eis que apareceu um cara e bico do pombo de rocha.

Moral da história: Darwin se pegou com a variabilidade para traçar a analogia com a seleção natural. Quer dizer, só foi possível realizar a seleção artificial porque havia variabilidade. E se o homem tinha sido capaz de produzir tantas raças de pombos domésticos em uma curta escala de tempo, a natureza poderia perfeitamente ter produzido modificações muito maiores ao longo milhões de anos, gerando continuamente diversas espécies. [c.q.d, diria Darwin]

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