noites galileanas

Outubro 22, 2009 § 1 Comentário

notcont5894Uma das razões por 2009 ter sido escolhido como ano internacional da astronomia é que há 400 anos Galileu Galilei apontou para o céu a luneta de fabricação própria e bisbilhotou as luas de Júpiter, as manchas solares, a constelação de Órion e outras tantas visões astronômicas.

Você também pode compartilhar das visões de Galileu entre  22 e 24 de outubro e ainda ganhar uma luneta automatizada! Veja o calendário de eventos das Noites Galileanas em sua cidade.

Se quiser aprender como construir sua própria luneta com materiais bem simples e espiar o céu em qualquer época do ano, o site Ciência à Mão dá todas as dicas.

Aproveite para conhecer mais sobre Galileu Galilei e sobre esta iniciativa internacional em breve artigo do astrônomo Augusto Damineli na revista Pesquisa Fapesp. Também interessante é o vídeo Pequena história das imagens astronômicas (Petite histoire d’images astronomiques, do Centre Nacional de Documentation PédagogiqueCNDP), assista abaixo:

a ciência no cotidiano – o cérebro de Nicolelis

Setembro 13, 2009 § 2 comentários

Vocês já viram a nova propaganda da Nextel com o Miguel Nicolelis? Eu ainda não vi na TV, mas já tá rodando na internet – melhor coisa! – como no blog da Neurocientista de Plantão.

Agora escolha uma das alternativas abaixo de acordo com sua opinião (o espaço de comentários é grátis!):

A – não entendi nada: o que o Santos Dumont tem a ver com o mal de Parkinson e quem era aquele cara?;

B – que absurdo! Os cientistas não se dão mais ao respeito não?

C – bonitinho o vídeo e a vó do Nicolelis deve ser muito legal.

D – coitados dos cientistas, precisam fazer cada coisa pra arrumar verba pras pesquisas…

E – eu também sou cientista e também quero aparecer na TV, alguém sabe o telefone da Nextel?

Eu assinalo a alternativa C e já-já justifico a escolha. Antes alguns esclarecimentos para aqueles que pensaram em assinalar a alternativa A.

O cientista e sua ciência

Miguel Nicolelis é um neurocientista brasileiro que desenvolve pesquisas na  Universidade de Duke, nos EUA (site do seu laboratório) e é mentor do Instituto Internacional de Neurociências de Natal.

Em linhas bem gerais, ele vem desenvolvendo diversos métodos para captar a informação motora deflagrada por disparos elétricos dos neurônios e então reproduzir os movimentos espaciais ditados por ela em artefatos robóticos.

Você já ouviu o termo brainstorm (brain = cérebro; storm = tempestade)? Os neurocientistas usam esse termo para se referir aos disparos elétricos dos neurônios durante o processo de comunicação no cérebro. É assim: se você pensa, anda, lembra de algo ou se coça, os seus neurônios passam informações uns aos outros, permitindo que você consiga executar essas tarefas. Se você conseguisse olhar para uma população específica dentre os diversos neurônios de um cérebro, veria que uma hora os neurônios dessa população disparam mais e hora disparam menos, dependendo do grau de participação na atividade que a pessoa está fazendo naquele momento.

Essa é a representação da atividade elétrica de uma população de neurônios na tela de um programa computacional. Clique na imagem para vê-la em tamanho maior (Fonte: Fesbe)

Essa é a representação de um brainstorm (atividade elétrica de uma população de neurônios) na tela de um programa computacional. Clique na imagem para vê-la em tamanho maior (Fonte: Fesbe)

Pois os neurocientistas conseguiram fazer isso usando eletrodos que captam a informação transmitida pelos neurônios durante a comunicação cerebral. Ou seja, os eletrodos leem o brainstorm. Isso é feito por implantes cerebrais, que são matrizes de  eletrodos implantados no cérebro, no caso, de macacos – mais especificamente no cortéx, a região mais externa do cérebro.

O grupo de Nicolelis começou com implantes capazes de registrar ao mesmo tempo a atividade elétrica de 100 neurônios localizados em cinco diferentes áreas corticais envolvidas na transformação de uma informação visual em uma ação motora.

Depois, no Centro de Neuroengenharia da Universidade Duke, eles foram desenvolvendo implantes cada vez melhores, no sentido de registrarem maior quantidade de neurônios por vez e ao longo de um período de tempo também maior. Essas informações são lidas em tempo real e decodificadas por computadores que, em processo de inteligência artificial, vão aprendendo a sequência de comandos digitais que correspondem a determinada ação motora do macaco.

Esses comandos digitais determinam a reprodução dos movimentos do macaco em um artefato robótico. O conjunto todo é denominado de interface cérebro-máquina.

O ciclo é fechado com o envio dos sinais sensoriais artificiais do artefato robótico para o cérebro do macaco o feedback do movimento do artefato robótico para o macaco. Assim, o macaco pode visualizar o movimento do artefato robótico e, depois de um tempo, aprender que este é devido ao planejamento do movimento realizado por seu cérebro.  [atualização em 15/09/09: corrigi a frase anterior – obrigada pelo toque, Barbareta!] Essa última etapa permite que o macaco nem execute um movimento propriamente dito no experimento, mas simplesmente imagine o movimento (os neurônios disparam a informação do planejamento do movimento) que, no final das contas, será executado pelo artefato robótico.

Fonte: G1

Clique na imagem para vê-la em tamanho maior. Fonte: G1

O primeiro artefato robótico usado foi um braço mecânico, que realizava os movimentos pensados por uma macaca (veja exemplo aqui).

Em seguida, Nicolelis ousou mais: conseguiu fazer com que um robô no Japão andasse a partir dos movimentos planejados pelo cérebro de uma macaca que estava nos EUA. Nicolelis brinca que essa é a primeira interface cérebro máquina transcontinental já posta em operação. Observe no infográfico acima o esquema do experimento.

Nesse artigo na revista Scientific American Brasil, Nicolelis e Chapin (cientista de seu grupo de pesquisa) explicam em mais detalhes esses e outros experimentos. Há também fotos e esquemas dos experimentos e apresentação das aplicações futuras como, por exemplo, a locomoção de pessoas com paralisia.

Fonte: revista Isto É

Clique na imagem para vê-la em tamanho maior. Fonte: revista Isto É

A pesquisa que abre uma porta para o tratamento do Mal de Parkinson  (mencionada na propaganda da Nextel e resumida no infográfico ao lado) é um dos últimos passos que Nicolelis deu até agora. Há uma ótima explicação sobre ela em 3 minutinhos aqui (em vídeo que foi finalista no The Scientist Video Awards) e aqui (em reportagem na revista Pesquisa Fapesp).

E aqui você encontra as entrevistas dadas por Nicolelis para diversos jornais e revistas explicando estes e outros experimentos, bem como falando de sua avó, de Carlos Chagas, de Santos Dumont, do Palmeiras (tem gosto pra tudo, fazer o quê…), do Instituto de Neurociências, dos projetos de educação científica de crianças e adolescentes e sobre formação dos professores.

Post scriptum

1- Sobre a enquete, a explicação para escolha da alternativa C estará no próximo post! Não percam!!!

2- Agradeço o @dougsd3, que trouxe a discussão à tona lá no Twitter e acabou me dando ideia para esse post.

Atualização 02/11/09: Vale muito a pena ver o post O que Bruce Willis têm em comum com um neurocientista brasileiro?, do cientista e diretor de pesquisa do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, Stevens Rehen, em seu blog. Ele explica a relação entre o filme Substitutos (Surrogates, Touchstone Pictures, 2009) e o trabalho de Miguel Nicolelis.

“funcionário do mês” – Johanna Döbereiner

Setembro 10, 2009 § 6 comentários

Fonte: Agência O Globo/ Cientistas do Brasil (no site http://www.canalciencia.ibict.br/notaveis)

Johanna Döbereiner. Fonte: Agência O Globo/ Cientistas do Brasil (clique na imagem para contexto original)

Johanna Döbereiner, brasileira naturalizada, está entre os cientistas brasileiros mais reconhecidos e citados no exterior. Trabalhou com microbiologia do solo, em especial a identificação e o estudo das bactérias fixadoras de nitrogênio em associação com raízes de plantas leguminosas e gramíneas.

O uso desses microorganismos para fixação biológica do nitrogênio no cultivo da cana de açúcar e da soja garantiram um enorme desenvolvimento econômico e biotecnológico para o país. No primeiro caso, foi fundamental na implementação do Programa Proalcool. No segundo, permitiu o cultivo de leguminosas sem uso de fertilizantes nitrogenados, o que significou grande economia por parte dos produtores, redução da poluição ambiental e alimentos mais saudáveis.

Seus trabalhos lhe renderam assento na Academia de Ciências do Vaticano desde 1978 e indicação para o Prêmio Nobel da Paz em 1997. Em 2001, cientistas mexicanos e alemães homenagearam a pesquisadora ao nomear duas novas espécies de bactérias fixadoras de nitrogênio, a Gluconacetobacter johannae sp e a Azospirillum doebereinerae sp.

A pesquisadora faleceu em 2000 com o Mal de Azheimer e no ano seguinte foi criado o evento anual Semana Científica Johanna Döbereiner pela Embrapa Agrobiologia. Veja aqui as informações para a IX edição do evento que ocorre no próximo mês, de 19 a 23/10/09.

Boas fontes de informação sobre Johanna Döbereiner e sua pesquisa:

  • página de notáveis do Canal Ciência (do IBICT – Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia): com entrevista concedida a Carlos Chagas Filho, que integra o livro Cientistas do Brasil da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), e link para os arquivos históricos da Embrapa;
  • arquivo da revista Veja Online:  com biografia da pesquisadora, descrição dos trabalhos realizados, galeria de fotos, animação que ilustra o processo de fixação de nitrogênio pelas bactérias nitrificantes introduzidas nas sementes de soja e uma série de depoimentos em áudio e vídeo sobre a cientista feitos por pesquisadores, agricultores e políticos;
  • artigo da revista Pesquisa Fapesp que mostra um dos desdobramentos mais recentes da pesquisa de Johanna;
  • vídeo do programa Globo Ciência sobre a vida e o trabalho de Johanna Döbereiner (assista abaixo, dividido em dois blocos). Esse programa integrou uma série exibida no primeiro semestre deste ano sobre grandes cientistas que atuaram no Brasil nos últimos dois séculos.

Conheça outros cientistas e/ou divulgadores de ciência na página Funcionário do Mês, aqui no Ciência na Mídia.

gripe suína: uma nova fase?

Agosto 23, 2009 § 4 comentários

Ouvi ontem no Jornal da Cultura uma explicação sobre as diferentes fases que uma pandemia normalmente tem e fiquei feliz em constatar que essa informação e reflexão sobre os dados que carrega finalmente começa a circular na “mídia convencional”.

Mas o título do post faz referência a esse assunto em citação ao texto de Gabriel Cunha no RNAm, que proporciona uma ótima explicação sobre as possíveis duas “ondas” de surtos epidêmicos do A H1N1 a exemplo do que já ocorreu no caso da gripe espanhola. O texto está muito interessante e dificilmente veremos coisa igual por aí, então vale a pena aprender lá! Nesse sentido, vale também destacar duas ótimas entrevistas com especialistas recém publicadas:

=> a com o infectologista Edison Luiz Durigon, professor titular e chefe do Laboratório de Virologia do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, publicada na edição desse mês da revista Pesquisa Fapesp;

=> a com o médico sanitarista Gonçalo Vecina Neto, ex-diretor-presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigiância Sanitária) e atualmente superintendente do Hospital Sírio-Libanês em São Paulo, publicada no Estadão de domingo passado.

Perguntas e respostas para o encaminhamento dado à gripe suína no Brasil

Em post recente que escrevi sobre a gripe suína procurei chamar a atenção para algumas questões que acredito relevantes de serem respondidas (ou ao menos perguntadas) na veiculação jornalística sobre esta pandemia.

Logo em seguida me deparei com algumas “respostas” a algumas destas questões. Uma está no Semciência, no post O otimista Temporão, em que Osame Kinoushi faz uma avaliação sobre as colocações do ministro da saúde na audiência pública ocorrida no plenário da Câmara semana retrasada e calcula que o estoque de tamiflu que temos no Brasil não é suficiente coisa nenhuma.

Outras estão no especial do “Entre Aspas”, o ótimo programa televisivo da Globo News comandado por Mônica Waldvogel, que foi ao ar em 11/08/09. Realmente vale a pena ver o vídeo do programa (acesse aqui) em que foram entrevistados a virologista da Unifesp Nancy Bellei e o infectologista André Lomar dos hospitais Emílio Ribas e Albert Einstein. Na entrevista, eles falam da dificuldade enfrentada pelos médicos em identificar quais são os casos que podem ou não se agravar, descartam a idéia de “população em pânico” levantada por muitos meios de comunicação e fazem críticas ao rigor imposto pelo Ministério da Saúde no controle ao estoque do antiviral.

Também, explicam falhas importantes na (falta de) agilidade  do gerenciamento de uma pandemia demonstrada pelo governo federal. Isso porque essa é uma situação em que “o vírus não perde o fôlego” e não estão sendo coletados dados fundamentais para avaliação do estoque frente à taxa de ataque (número de pessoas que estão sendo infectadas) e para correção de curso em uma pandemia. Em suma, a entrevista está bastante informativa, vale a pena conferir!

Últimas sobre a gripe suína

Em consonância com o discurso do Ministério da Saúde sobre a restrição de distribuição do Tamiflu, a Anvisa suspendeu em 14/08/09 a propaganda de antigripais no país. A medida é válida para todos os meios de comunicação, incluindo a comunicação nas farmácias. A multa para o laboratório que descumprir a resolução varia entre R$2 mil e R$1,5 milhão. A justificativa apresentada é que o uso de antigripais deve ser muito criterioso, já que pode mascarar sintomas para o diagnóstico da gripe suína (como se isso não fosse verdade para uma infinidade de outros medicamentos, ainda mais em situação de automedicação!!!).

Paralelamente, o Instituto Butantan, em São Paulo, anunciou que começará a produzir a vacina contra a gripe suína em outubro e os primeiros lotes devem estar prontos em janeiro de 2010. Aqueles que estão pensando “olha só que beleza: vamos iniciar o ano eleitoral vacinados!” devem conter um pouco os ânimos, pois ainda não se sabe se a produção será suficiente para atender a demanda nacional e está sendo desenhada uma ordem de prioridade para aplicação das doses de acordo com o grau de risco de contágio e transmissão da doença. O G1 fez um infográfico bem interessante que ilustra toda a sequência de produção da vacina brasileira, desde a chegada da matéria prima até a formulação da vacina.

Mais sobre a gripe suína aqui no Ciência na Mídia

Pesquisa Fapesp

Julho 17, 2009 § Deixe um comentário

Alguns leitores me perguntaram o que eu penso sobre a revista Pesquisa Fapesp. Quando respondi que acho que é excelente,  um dos melhores exemplos de divulgação científica feita com competência e respeito pelo público leitor, reclamaram então que nunca falei dela por aqui.

Bem, posso não ter falado especificamente da revista, mas já coloquei diversos links para artigos dos mais variados temas nela publicados. Acho que é um bom indício de que a tenho sempre como referência e leitura obrigatória.

capa da edição impressa de julho de 2009 da revista Pesquisa Fapesp

capa da edição impressa de julho de 2009 da revista Pesquisa Fapesp

Mas, como o “freguês sempre está com a razão”, dedico agora esse post à Pesquisa Fapesp e começo chamando a atenção para a reportagem de capa da edição deste mês (Afiado até o fim), que traz uma síntese de diversos estudos sobre cérebro e envelhecimento.

Mas o que é exatamente que me cativa na revista? Bom, talvez possa começar pela diversidade de temas, afinal esse é um dos poucos veículos especializados em divulgação científica (na verdade, o único dos que conheço) que abarca também as pesquisas em ciências humanas, que discute política científica, que valoriza a história da ciência e que nos deixa bem a par da ciência brasileira (ainda que a maior parte do conteúdo seja referente a pesquisas realizadas especificamente no estado de São Paulo).

Outro ponto é a combinação balanceada entre rigor conceitual e atitude jornalística na apresentação das matérias, ou seja, as pesquisas são descritas e também contextualizadas, analisadas, são apontadas algumas perspectivas, algumas aplicações, os tais “dois lados da moeda” quando aplicável etc.

E me agrada sobremaneira a parte visual, as imagens que ilustram as matérias. Acho que as fotos e ilustrações são muito bem escolhidas e, no caso particular de entrevistas, contribuem muito para uma humanização da figura do cientista. Sei lá, aquela coisa de muitas vezes pegar um detalhe das mãos, ou deixar o estilo do entrevistado transparecer na arrumação (ou muito pelo contrário) da mesa de trabalho, a canequinha que o cidadão usa junto do porta-retrato com a foto de um ente querido, enfim…

Isso tudo dentro de uma boa diversidade de formatos, que inclui entrevistas, reportagens, resenhas de livros, notas curtas, artigos mais elaborados sobre diversas pesquisas científicas etc.

No contexto da atual discussão sobre desaparecimento ou não das seções de ciência na grande mídia por falta de verba ou o que quer que seja (leia mais sobre essa discussão aqui, aqui ou aqui), a Pesquisa Fapesp dá um bom exemplo de que se pode fazer um ótimo jornalismo científico quando se está empenhado para tal.

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