ele se foi…

Agosto 30, 2015 § Deixe um comentário

Uma das minhas maiores fontes de inspiração…

Fantástico neurologista e escritor. Capaz, como poucos, de ressaltar a beleza da ciência. Publicou muitos inesquecíveis livros: das memórias de uma infância química a até mesmo uma inusitada paixão por samambaias. Sem falar nos maravilhosos relatos neurológicos que tanto lhe consagraram, como O homem que confundiu sua mulher com um chapéu e Um antropólogo em Marte.

Os dois textos (com vídeo) de hoje publicados no New York Times, jornal em que possuía uma coluna, revisam quem foi Oliver Sacks e suas belas contribuições de maneira muito melhor do que eu poderia tentar fazer por aqui: 1- Oliver Sacks Dies at 82. Neurologist and Author Explored the Brain’s Quirks 2- Oliver Sacks, Casting Light on the Interconnectedness of Life. Melhor ainda é o texto do próprio Sacks, nesse mesmo jornal, quando contou o que sentia sobre sua situação de câncer terminal.

Nos próximos dias provavelmente seremos bombardeados (tomara!) com textos e depoimentos e vídeos e tudo o mais com e sobre Oliver Sacks. Recomendo ver e ouvir tudo o que vier, duvido que não valha a pena. Mas lindo, lindo mesmo, e que dizem muito sobre essa incrível figura, são esses dois vídeos:

Rest in peace!

um cérebro famoso em fatias e ao vivo

Dezembro 4, 2009 § 6 comentários

(The Brain Observatory: exploring the brain of the most famous patient)

A novidade mais “quente” da neurociência no momento é que o cérebro de H.M. está sendo fatiado ao vivo no The Brain Observatory. No final do post há uma perguntinha sobre isso para você. Mas antes uma contextualização:

Quem é H.M?

Há algum tempo atrás, escrevi o post o inesquecível H.M.. Tiro de lá essa breve descrição:

Todo mundo que já fez alguma incursão nos estudos sobre memória ouviu falar de H.M. Acho que é o cérebro mais escarafunchado da história da neurociência: está nos livros didáticos de ensino superior, em artigos científicos da área, em slides de aulas de fisiologia do sistema nervoso. O estudo do cérebro de H.M., submetido em 1953 a uma secção bilateral do lobo temporal medial, incluíndo amígdala e 2/3 do hipocampo (à época, uma tentativa de cura para a epilepsia), permitiu muitos avanços no estudo da memória.

Após a cirurgia, H.M. perdeu a capacidade de formar novas memórias. Bastava interromper uma conversa por qualquer razão que ele já não se lembrava mais com quem falava, o que estava fazendo ali etc.

Henry Gustav Molaison. Fonte: The New York Times.

(leia mais aqui)

Como é o estudo e qual o seu propósito?

Acho que a melhor descrição está no e-mail enviado em 03/12/09 com o fim de divulgá-lo:

Dear NSBers,

If you haven’t already heard of patient H.M., he is the most famous patient in the history of neuroscience. From the age of 10 onward, he suffered from increasingly severe seizures that were being generated in the medial temporal lobe. The epilepsy became so severe that in 1953, when he was 27, he was operated on in Hartford CT by the famous neurosurgeon William Scofield, who removed large amounts of temporal lobe tissue (including most of the hippocampus) bilaterally. Before then, little was known about the function of this brain region. However, it soon became apparent that the surgery caused H.M. to develop severe anterograde amnesia (that is, he couldn’t remember new events in his life that occurred more than about 15 minutes earlier). Over the years, H.M. was studied extensively by neurologists, neuropsychiatrists, etc., and his personal tragedy became the inspiration for a new era of research on the neurobiological basis of memory.

H.M. passed away a year ago in a Connecticut nursing home. Having donated his brain for further study, the brain was preserved in formalin, transported to San Diego, and is now being sectioned by a team of neuroanatomists at the University of California San Diego. The sectioning began yesterday, and today (at 11:00AM EST) the team will resume cutting. They are entering the medial temporal lobe, which of course, is the key area of damage. If you would to witness this historic event in real time, you can go to

http://thebrainobservatory.ucsd.edu/hm_live.php.

I urge the students, in particular, to take advantage of this once-in-a-lifetime opportunity.

Jerry

Jerrold S. Meyer, Ph.D.
Professor, Department of Psychology
Director, Neuroscience and Behavior Program
University of Massachusetts

O projeto:

Veja informações aqui: http://neurosciences.ucsd.edu/

À esq.: micrótomo fatiando o cérebro de H.M.; à dir: em cima, painel do micrótomo, e abaixo, vista geral do laboratório.

A pergunta:

São duas, na verdade. Foram colocadas lá no Neurotopia e repito-as também aqui para os caros leitores:

Você doaria seu cérebro à ciência? Por que sim ou porque não?

E, caso doasse, você se importaria que ele fosse fatiado ao vivo após sua morte? Por que sim ou porque não?

Atualização em 15/12/09: Há uma ótima descrição desse projeto e dos históricos dos estudos de memória com H.M. no blog Neurophylosophy: aqui (em inglês).

o inesquecível H.M.

Junho 16, 2009 § Deixe um comentário

Ao ler a última edição da revista Science in School fiquei conhecendo um pouco do trabalho da science writter Rebecca Skloot. Dentre diversas histórias interessantes que conta e escreve, chamou minha atenção o livro que publicará em breve – HeLa: The Immortal Life of Henrietta Lacks – sobre a linhagem de células cancerosas HeLa.

Rebecca conta que estava com 16 anos em sua primeira aula de biologia quando a professora mencionou que a linhagem celular HeLa, muito usada em pesquisas sobre câncer, provinha de uma mulher negra chamada Henrietta Lacks que falecera em 1951 devido a um câncer cervical e que isto era tudo o que se sabia sobre ela. Rebecca assustou-se com o fato das células estarem sendo usadas por mais de 30 anos e pouco se saber sobre Henrietta. Foi o início de uma obsessão que deve em breve transformar-se em um livro de história da medicina.

A obsessão de Rebecca lembrou-me um incômodo antigo que carreguei durante os anos de pesquisa acadêmica em neurociências. No lugar de HeLa eu tinha H.M.

Todo mundo que já fez alguma incursão nos estudos sobre memória ouviu falar de H.M. Acho que é o cérebro mais escarafunchado da história da neurociência: está nos livros didáticos de ensino superior, em artigos científicos da área, em slides de aulas de fisiologia do sistema nervoso. O estudo do cérebro de H.M., submetido em 1953 a uma secção bilateral do lobo temporal medial, incluíndo amígdala e 2/3 do hipocampo (à época, uma tentativa de cura para a epilepsia), permitiu muitos avanços no estudo da memória.

Após a cirurgia, H.M. perdeu a capacidade de formar novas memórias. Bastava interromper uma conversa por qualquer razão que ele já não se lembrava mais com quem falava, o que estava fazendo ali etc. Isso sempre me impressionou muito. Claro que depois vem aquele foco no objeto de estudo, nos dados advindos dos inúmeros testes aplicados em H.M. que ajudaram os neurocientistas a diferenciar as memórias retrógrada e anterógrada, declarativa e procedimental e compreender um pouco melhor a neurobiologia da aprendizagem e memória. [Clique aqui e aqui para conhecer um pouco mais sobre os tipos de memória e o histórico de seu estudo]

Fui mergulhando nos estudos e esquecendo H.M., ou ao menos o fato incômodo de não saber nada sobre a pessoa, só sobre seu “objeto cerebral”. Mas eis que H.M. faleceu no último dezembro. Ao ler no New York Times a notícia de sua morte e a ótima revisão sobre os estudos por que passou  (clique aqui para acessar a reportagem), tudo voltou. H.M. agora era Henry Gustav Molaison, filho de uma irlandesa e um estado-unidense, nascido em 26/02/1926. E tinha um rosto, bastante sorridente por sinal.

Foi bom vê-lo assim. Guardei a reportagem nos arquivos pessoais desde então, sem muitas pretensões de fazer algo com isso. Até que… Obrigada Rebecca, pela lembrança prazeirosa que me trouxe. Obrigada H.M., pela constante parceria no Laboratório de Neurociência e Comportamento do IB/USP.

Atualização em 07/09/09: A edição de agosto de 2009 da revista Cérebro & Mente trouxe uma matéria bem ampla sobre H. M. Confira aqui: Henry Gustav Molaison: o homem sem lembranças.

Atualização em 24/09/09: Para conhecer mais sobre Henrietta Lacks e o cultivo de suas células, veja Henrietta Lacks, imortal.

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