quem é “do mal”: biocombustível ou jornal?

Outubro 23, 2009 § 14 comentários

Brinque comigo! Faz de conta que você resolveu ler algumas das principais notícias das seções de ciências/tecnologia/saúde/vida/ambiente ou qualquer combinação entre essas (tanto faz, essas divisões não funcionam muito bem mesmo). Isso nos principais jornais do país.

Faz de conta que você começou com O Estado de São Paulo e se deparou com essa manchete: Cientistas alertam para perigo do uso de biocombustíveis. Daí você resolve ver do que se trata, afinal estamos às vésperas da COP-15;  mergulhados no hip-hip-hurra do pré-sal; recém recuperados da celeuma gasolina x álcool; imersos em propagandas, produtos e campanhas “verdes” etc.

E logo na primeira frase lê que:

Uma nova geração de biocombustíveis, que deveria representar uma alternativa de baixa emissão de carbono, irá, na média, emitir mais dióxido de carbono do que a queima da gasolina ao longo das próximas décadas, diz estudo publicado na revista Science.

Termina de ler o curto e não muito esclarecedor artigo um tanto preocupado e vai atrás de mais informações. NO Globo encontra a seguinte manchete: Cientistas alertam para emissões na produção de biocombustíveis. Aqui você já começa a achar que biocombustível é “do mal” mesmo, afinal um estudo que “mostra isso” saiu na Science e foi divulgado em dois dos maiores jornais do país.

Mas faz de conta que você não tem mais nada o que fazer da vida e resolveu brincar de rastrear essa notícia por aí. Já que o artigo dO Globo cita como referência a BBC Brasil, essa é a sua próxima parada no jogo. Lá você encontra o artigo Cientistas alertam para emissões na produção de biocombustíveis e constata que é, como esperado, igualzinho ao anterior, que começa da seguinte forma:

Cientistas americanos dizem ter identificado uma “falha” nos cálculos de emissões de gases que provocam o efeito estufa que poderia ameaçar a tentativa de reduzir as emissões e incentivar o desmatamento: os acordos internacionais sobre o tema não incluem os gases emitidos na produção e uso de biocombustíveis, apesar de o processo ser grande fonte de emissões.

Nessa rodada você ganha uma interrogação: o problema está no biocombustível, na produção deste, na queima deste, no desmatamento… no quê? Salte duas casas para descobrir.

Faz de conta que você chega no jornal Folha de São Paulo, mais especificamente na matéria que tem a seguinte manchete: Biocombustível será bom para o clima, indica simulação. Heim? Mas emissões de gases intensificadores do efeito estufa não podem ser maléficas? E aquele papo todo de aquecimento global? O jeito é continuar lendo:

O medo de que uma economia mundial baseada em biocombustíveis seja um tiro pela culatra no combate ao aquecimento global não tem muito fundamento, indica um novo estudo. Simulando um futuro em que os combustíveis fósseis seriam substituídos, pesquisadores concluíram que o cenário mais provável é um em que álcool e biodiesel possam mesmo ajudar a evitar emissões de gases do efeito estufa.

Você está na rodada decisiva. Pode decifrar o enigma e ganhar o jogo ou perder tudo. Decide tirar seu inglês do baú e ir às fontes. Afinal, se todos estão falando do mesmo estudo, como você pode ter chegado a uma leitura tão esquizofrênica? O jeito é ler o artigo diretamente na Science.

A Science não é open access, volte cinco casas. E agora? Você chegou em um ponto do jogo em que não há regras. E a bola está com você: quem é “do mal”, biocombustível ou a forma como a divulgação científica é feita na nossa “grande” imprensa?

Atualização em 01/11/09: Em tempo, aqui temos uma análise mais esclarecedora sobre o referido estudo: Biofuels Come With Their Own Emission Costs.

mudanças climáticas na mídia

Outubro 21, 2009 § 3 comentários

“Toda unanimidade é burra”. O jornalista Richard Jakubaszko repetiu a frase célebre  de Nelson Rodrigues em artigo no Observatório da Imprensa em que analisa o que chama de divulgação massiva e dogmática da mídia sobre o CO2 ser a principal causa do chamado aquecimento planetário.

Bem, concordo com o Nelsão. Já com Jakubaszko concordo parcialmente. A concordância está na opinião sobre o tão aclamado filme de Al Gore, Uma verdade Inconveniente – ô filme chato, heim! – e na observação de que o CO2 não é o único “vilão” da história como normalmente se pinta.

Para a discordância passo a palavra a Roberto Takata, do Gene Repórter, que postou a íntegra do e-mail que enviou ao Observatório da Imprensa apontando alguns equívocos no texto do jornalista. E também a Reinaldo José Lopes, no blog da Folha de São Paulo, em post-resposta ao comentário do colunista da revista Veja Diogo Mainardi (O planeta que se dane).

iconeAo ler o conjunto, lembrei de imediato de uma das mesas redondas do X Congresso Brasileiro de Jornalismo Científico, que ocorreu em Belo Horizonte semana passada.

Achei excelente a iniciativa da ABJC de dar a palavra, especialmente em um congresso de jornalismo científico que tinha como tema principal o desenvolvimento sustentável, a um dos chamados “céticos do clima”. Mas muito mais produtivo para todos seria se a mesa redonda em que o convidado palestrou integrasse também um representante científico do “outro lado”. Isso sim atenderia ao que me pareceu ser a intenção da organização do evento: possibilitar um debate genuíno sobre o tema.

Mas vamos ao que foi dito. Luiz Carlos Molion, do Instituto de Ciências Atmosféricas da Universidade Federal de Alagoas e dono de um currículo invejável na área, não só protestou contra a tese de ação antrópica nas mudanças climáticas, como também contestou a relação entre gases intensificadores do efeito estufa e clima global. Mais que isso, procurou demonstrar que nos próximos 20-25 anos haverá, na verdade, um resfriamento global decorrente do ciclo natural de atividade solar. Segundo o pesquisador, a cada 90 anos o Sol entra num mínimo de atividade, evento que está prestes a se repetir.

Não entendo patavina de climatologia e estou sempre interessada em conhecer os diversos argumentos científicos sobre cada tema justamente por saber que o debate, a contra argumentação e a tentativa de refutar hipóteses estão na essência da prática científica. Mas, apesar de gostar de acompanhar teorias da conspiração por diversão pessoal, tenho claro que “uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa”.

Assim, fiquei bem inquieta com alguns “detalhes” da apresentação, como gráficos sem desvio padrão, referências a artigos científicos sempre da mesma fonte, um trocadilho óbvio que fez com o filme de Al Gore (um doce para quem adivinhar qual foi) e uma visão mais que antropocêntrica sobre a conservação ambiental. “A conservação ambiental é uma necessidade para sobrevivência da raça humana”, disse Molion explicando porque considera importante a conservação ambiental mesmo sem a tal “ameaça” do aquecimento global.

Preparava-me para colocar alguma pergunta quando o ecólogo Thomas Lewinsohn, remanescente na platéia após palestra anterior que proferiu  no evento (detalhes em breve no próximo post sobre o congresso), perguntou a que Molion atribuía o sucesso das ideias defendidas pelo IPCC: ignorância dos cientistas que compõem o painel ou teoria da conspiração? Na mosca.

A resposta? O palestrante disse que tem certeza que tudo não passa de uma conspiração do G7 para interferir no desenvolvimento de países emergentes, como é o caso do Brasil.

Depois dessa guardei meu bloquinho e comecei a planejar onde iria almoçar. Discutir o que com quem vem com uma crença e não argumentos? Como colocou Takata em resposta ao meu comentário em seu blog, “Conspiração do G7 é ótima. Os EUA conspiraram tão bem que se *recusavam* (e ainda se recusam, mesmo com Obama) a seguir Quioto.”

Enfim, acho saudável mais discussão sobre o assunto, mas Molion não conseguiu me convencer. E logicamente você, caro leitor, tem todo direito de tirar suas próprias conclusões. Se quiser conhecer alguns dos argumentos de Molion, pode assistir em vídeo  a um trecho do debate travado no programa Conversas Cruzadas, da gaúcha TV COM, postado no You Tube (Molion e a Histeria do Aquecimento Global).

Brasil propõe meta para Convenção do Clima da ONU

Outubro 14, 2009 § 10 comentários

Muito bom o programa Entre Aspas de ontem, que apresentou um debate sobre a meta de redução das emissões de gás carbônico por parte do Brasil recém divulgada pelo Ministério do Meio Ambiente com vistas à Conferência do Clima.

Leia mais sobre o encontro internacional que ocorrerá em dezembro em Copenhague aqui. Também,  Cláudio Ângelo, editor de ciência da Folha de São Paulo, está na reunião do clima de Bancoc (prévia para negociação do acordo que será firmado em dezembro em substituição ao Protocolo de Kyoto) e vem registrando o que rola no evento no blog Laboratório. Confira as últimas atualizações aqui.

Assista ao programa abaixo ou diretamente no site da emissora.

Vodpod videos no longer available.

pré-sal para comemorar a independência do Brasil?

Setembro 7, 2009 § 7 comentários

Lula diz que pré-sal é a nova independência do Brasil – O Globo, 06/07/09

Pré-sal: patrimômio da União, riqueza do povo e futuro do Brasil – Blog do Planalto, 30/08/09

Fonte: Folha de São Paulo

Fonte: Folha de São Paulo

Como todos já devem ter percebido, o pré-sal é o novo vinagre de maçã (aqui tem um exemplo, dentre zilhões, que apresentam o vinagre de maçã como um “bálsamo dos deuses” capaz de curar e/ou prevenir todos os males).

Aliás, essa é a única coisa que falta dizer na nova propaganda da Petrobrás que tá rodando na TV. O pré-sal é a solução de todos os males. Agora que descobrimos o pré-sal, nossa, agora tudo será lindo! Afinal, a exploração da camada pré-sal pode colocar o Brasil entre as 10 maiores reservas de petróleo do mundo, u-lá-lá!!!

Isso posto, vamos então discutir a partilha dos bens. Quem tem o direito de lucrar com o pré-sal? A quem pertencem os royalties? Como dividí-los entre os estados e municípios? O pré-sal pode ser usado pra financiar a virada na educação e cultura nesse país? A verba do pré-sal deve ser investida prioritariamente em infra-estrutura?

É só o que estamos ouvindo agora. E ainda virá muito mais. Mas sempre nessa linha: partindo do pressuposto de que – agora sim! – temos uma verdadeira riqueza em mãos e só falta definir como explorar esse recurso, como ficarmos ricos e fortes, como nos prepararmos para um futuro lindo que se aproxima.

Não, gente!!! Encontramos um montão de petróleo na camada pré-sal. A pergunta que deveríamos fazer é: por quê? Ora, só encontramos porque estávamos procurando, certo? Mas porque estávamos procurando esse tipo de coisa a essa altura do campeonato? Será que não deveríamos estar investindo mais esforços humanos, econômicos e tecnológicos em outra direção?

Ontem senti uma espécie de alento ao assistir à reprise do último Globo News Painel, programa de debates comandado por William Waack todo sábado às 23h. Finalmente encontrei ideia-irmã nas palavras do economista e ambientalista Sérgio Besserman Vianna, da PUC-RJ e ex diretor do IBGE. Além dele, estavam participando do debate o economista Luiz Gonzaga Beluzzo, da Unicamp, e o cientista político Carlos Mello, professor do Insper. Recomendo muito que todos interessados em política científica, em sustentabilidade ambiental e/ou nos debates sobre o pré-sal assistam ao vídeo do programa exibido em 05/09/09 (acesse aqui). Lá estão ideias sobre a epopéia do pré-sal que não vemos circulando por aí.

Vejam, não quero ir só pro lado “ecológico” não. Ok, a relação direta entre a exploração e queima de combustíveis fósseis com a emissão de gases intensificadores do efeito estufa já foi mais do que estabelecida. Com base nisso, ambientalistas vêm bradando aos quatro ventos que petróleo polui e que com a exploração do pré-sal vamos sujar o ambiente, o país, a atmosfera etc, em lugar de procurarmos investir em energia limpas e energias renováveis, como biocombustíveis, energia hidroelétrica, solar, eólica e cia. Mas não acho que seja uma simples questão de pensarmos que a exploração do pré-sal poderia “sujar” nossa matriz energética. Em primeiro lugar porque ninguém sujaria a matriz energética se essa não se mostrasse uma alternativa economicamente mais viável.

Ocorre que, por uma coincidência muito feliz, o mundo todo está se movimentando em uma direção: a da busca das chamadas “fontes alternativas”. Isso vem ocorrendo por razões econômicas e ambientais (mais o primeiro fator que o segundo, sejamos realistas. Aliás, veja aqui um bom exemplo disso). Ocorre que, por uma coincidência mais feliz ainda, essa é justamente a direção que tormamos há um par de anos e da qual agora estamos começando a sentir seus muitos benefícios. Ambientais e econômicos. Ou seja, tudo de muito bom.

E aí, que fazemos? Mil passos pra trás… O pré-sal não é o futuro porcaria nenhuma. Há poucas coisas tão retrô quanto explorar petróleo. Só que a gente encontrou esse recurso hoje, que fazer: ignorar?, desprezar?, doar?, jogar fora? N.D.A., vamos explorá-lo, claro. Obviamente é fundamental considerar a necessidade de reinjetar o gás carbônico que é liberado no processo de extração etc etc. Mas o ponto principal é: não vamos fazer do pré–sal o nosso vinagre de maçã. Deixa ele aí de plano B. Apenas! Os esforços científicos e tecnológicos, no que diz respeito ao setor energético, têm que estar centradas em outro lado! Isso se quisermos falar em futuro, claro. Se não vamos ficar com o passado mesmo, simples questão de escolha. Qual é a sua?

Atualização em 14/09/09:

Que o pré-sal não sirva de desculpa para não avançarmos no uso de biocombustíveis renováveis. Temos o maior potencial de energia eólica do mundo, mas ainda atuamos de forma tímida,

disse Carlos Nobre, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que participou, em 08/09/09, de audiência pública da Comissão Mista Permanente sobre Mudanças Climáticas como representante do Ministério da Ciência e Tecnologia. Leia mais aqui.

Atualização em 21/09/09:

Uma euforia exagerada em relação à descoberta de mais petróleo tem de ser evitada, a fim de não levar o país a abandonar recursos e tecnologias que sejam sustentáveis a longo prazo e que não se vão exaurir como o petróleo ou gás,

disse José Goldemberg (dispensa apresentações, não?),  em artigo publicado no Estado de São Paulo em 21/09/09. Leia a íntegra aqui.

Ainda bem que tem gente séria, tecnicamente competente e minimamente influente raciocinando devidamente (gostaram das rimas?) sobre o tema!

o que você procurou sobre a gripe suína e não conseguiu encontrar no mar de tranqueiras da www

Setembro 5, 2009 § Deixe um comentário

O interesse pelas notícias e informações sobre a gripe suína tem sido um dos principais motores deste blog ultimamente  – como, imagino, deve estar sendo de muitos outros blogs científicos e/ou sobre ciência. A cada vez que olho as estatísticas do WordPress para este blog me deparo com motores de busca do tipo “a gripe suína opiniões criticas”, “o que a ciência fala sobre a gripe suína”, “texto sobre gripe suína” etc.

Enquanto o governo esquizofrenicamente alterna proibições e liberações da comercialização do Tamiflu e outras medidas que estão provocando discussão e críticas entre os especialistas em infectologia e vigilância sanitária, é nítido que as pessoas estão buscando informações confiáveis que realmente possam… informá-las! Os resultados indicados acima para este blog são um reflexo disto.

Por sorte, finalmente agora podemos dizer que contamos com um bom leque de opções de informações confiáveis, em português e em linguagem acessível para o leigo. Acho que frente a tantas trapalhadas e informações desencontradas, algumas instituições de pesquisa, alguns pesquisadores e – que boa notícia! – alguns veículos de comunicação mais sérios fizeram um esforço conjunto para abordar o tema.

Para você que ainda não conseguiu se deparar com tais materiais no mar de tranqueiras da www, segue uma seleção para facilitar o caminho das pedras:

=> Influenza A (H1N1) Blog: excelente inicitativa da Biblioteca Virtual em Saúde (Bireme), em parceria com a Organização Panamericana de Saúde (OPAS) e a Organização Mundial de Saúde (OMS), que traz ótimos e esclarecedores textos de Átila Iamarino sobre o vírus, a enfermidade, o histórico do estudo sobre eles, o desenho da vacina para a gripe suína etc;

=> A vacina para o H1N1 e a GBS: tradução para o português do texto do neurologista da Universidade de Stanford, Steven Novella, sobre a doença neurológica Síndrome de Guillain-Barré (GBS) e os riscos associados tanto à influenza quanto à vacina para combatê-la (se preferir ler o original em inglês, vá direto pra cá);

=> Boletim da Gripe: iniciativa da TV Cultura, em parceria com o canal de televisão do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCTV), que traz uma reunião de vídeos informativos e respostas a perguntas mais frequentes sobre os sintomas, como se prevenir etc;

=> A lebre, a tartaruga e a gripe suína: um apanhado de publicações que desmistificam muitos dos spams, notícias mentirosas e teorias da conspiração sobre a gripe suína que vêm circularando pela www.

Para o público infanto-juvenil

As crianças e adolescentes configuram um dos grupos mais atingidos por essa pandemia, mesmo que não diretamente. É que em muitas cidades brasileiras o início das aulas foi adiado por semanas como forma de reduzir a proliferação do vírus. Mas poucos se preocuparam em explicar especificamente às crianças e adolescentes o que é essa gripe, quais os riscos, como combatê-la, qual a importância de medidas simples de higiene, qual o objetivo da medida de adiar o início das aulas etc.

Nesse sentido, há dois textos publicados na revista Ciência Hoje das Crianças que são um bom um material informativo e divertido para as crianças. São eles: A mais nova gripe e Dor, febre, tosse e espirro: é gripe ou resfriado?.

Também voltado ao público infanto-juvenil, há alguns vídeos da turma do “Cocoricó” e do programa “Cambalhota”, ambos da programação da TV Cultura. Assista a dois desses vídeos aqui, em matéria da Folha de São Paulo. O primeiro é mais aplicável às crianças e o segundo aos adolescentes, e podem ser uma boa forma de introduzir o assunto em sala de aula.

Where Am I?

You are currently browsing entries tagged with Folha de São Paulo at ciência na mídia.

%d bloggers like this: