a história que falta

Novembro 2, 2009 § 7 comentários

Como e por que a história da ciência deve estar presente no ensino de ciências? Esse é o tema de hoje, que não se dirige apenas a educadores. Se você acha que Lineu é o pai da classificação e propositor da nomenclatura binomial, então esse post também é para você!

O que queria compartilhar é um material muito bom que conheci durante o VI Encontro de História e Filosofia da Biologia (veja posts anteriores sobre o evento aqui). Trata-se do livro Utilização de História da Biologia no Ensino Médio, organizado pela Associação Brasileira de Filosofia e História da Biologia (ABFHiB).

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O livro traz uma reunião de reflexões sobre os equívocos da história da ciência abordados no ensino de biologia e proposições de alterações que podem ser feitas para que os livros didáticos cumpram sua função de transmitir o conhecimento científico.

Os textos abordam principalmente a história da biologia no ensino médio, mas a reflexão geral pode ser aplicada aos demais níveis de ensino e às outras disciplinas de ciências.

Por que é importante incluir a história da ciência no ensino de ciências? Há muitas razões.

A compreensão histórica do processo de construção do conhecimento científico facilita o entendimento dos conceitos e apropriação e aplicação desse conhecimento por parte do aluno. Também evita que se forme a noção de que ideias e teorias surgem repentinamente inteiras e prontas na mente dos cientistas. Bem como combate a ideia de uma origem pontual e pessoal para teorias, métodos, disciplinas etc.

Ideias do tipo “Joseph Priestley é o descobridor da fotossíntese” ou “Lineu é o pai da classificação” são equivocadas. Para que o aluno compreenda a natureza do conhecimento científico, é importante que conheça os pressupostos teóricos e as hipóteses de trabalho que nortearam determinado estudo, as dificuldades da pesquisa científica, a rede conceitual que conecta os conhecimentos de várias áreas científicas, os precedentes teóricos e experimentais.

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Encontro de História e Filosofia da Biologia 2009

Vamos tomar como exemplo a história da classificação das plantas, tema da palestra, durante o encontro, de Maria Elenice Brzezinski Prestes, do Instituto de Biociências da USP, e que está descrita em um dos capítulos do livro.

A proposta de Lineu (Carl von Linné) de classificação de plantas foi resultado de uma construção histórica gradativa. O próprio Lineu, em suas obras Fundamenta Botanica (1736) e Philosophia Botanica (1751), faz referência a 19 propostas de classificação em sistemas precedentes. É o caso, por exemplo, de Rivinus, que foi o propositor da nomenclatura binomial (sempre atribuída a Lineu nos livros didáticos!), e de Sebastian Vaillanta, que identificou a função sexual das flores e introduziu termos que são usados até hoje (estames, pistilos, ovários etc).

Ôpa, isso quer dizer então que Lineu não fez nada? Obviamente não. Dentre as contribuições de Lineu podemos destacar o estabelecimento de uma nomenclatura coerente, a promoção de uma terminologia descritiva e a utilização do número, proporção e posição de estames e pistilos como critério-base da classificação botânica. Mas, se conseguiu chegar a essa sistematização do conhecimento, é porque “estava debruçado sobre os ombros de gigantes”*.

Ainda, para que o aluno compreenda adequadamente a ciência, é importante mostrar nos livros didáticos que a controvérsia faz parte do processo de construção do conhecimento científico. Há muitos aprendizados em ciência a partir de grandes controvérsias. A esse respeito, há um livro ótimo de Hal Hellman, denominado Grandes debates da ciência: dez das maiores contendas de todos os tempos (Editora Unesp, 1999), que recomendo muito.

Isso nos leva ao último ponto: os cientistas são seres humanos. Isso quer dizer que a ciência, em princípio, é neutra e objetiva, mas a sua prática no cotidiano está sujeita a toda uma dimensão social, ética, histórica etc.  Uma primeira decorrência disso é que, para compreender o passado, temos que distinguir bem entre as ideias/teorias atuais e as que eram conhecidas e aceitas em determinada época.

Outra, é que aquilo que um experimento “diz” depende também do que o cientista pensa e acredita. Os mesmos fatos e/ou resultados podem ser interpretados de diferentes formas por diferentes pessoas e em diferentes épocas. É por isso também que a descrição da metodologia e dos resultados em um artigo científico são mais importantes do que interpretação desses resultados por parte dos pesquisadores.

Os resultados são os dados de fato, que podem ser interpretados de outra forma por outro grupo de cientistas, mesmo contemporâneos. E a indicação minuciosa da metodologia utilizada permite que o experimento seja refeito, retestado etc, prática comum e mais do que desejada em ciência. Assim, o livro didático de ciências (e a divulgação científica idem!) precisa enfocar também esse aspecto, humanizar a figura do cientista.

Mas você está se perguntando como é possível encaixar tudo isso no espaço de um livro didático e/ou nas aulas de ciências? Hum, parece que o livro da ABFHiB veio bem a calhar para você, não?

* Referência à famosa frase de Sir Isaac Newton: “Se vi mais longe foi por estar sobre os ombros de gigantes.”

Atualização em 12/11/09: Há uma ótima matéria sobre história da ciência na seção “Alô Professor” da nova Ciência Hoje Online – vale a pena conferir! Contadores de história (da ciência)

Atualização em 21/11/09: O @rmtakata compartilhou no Twitter um artigo bem interessante sobre história da ciência no ensino de ciências. A autora do artigo é uma das autoras do livro mencionado acima. O artigo é essa aqui: A história da ciência e o ensino da biologia. Valeu, Roberto!

a ciência operativa de Francis Bacon

Agosto 21, 2009 § Deixe um comentário

Encontro de História e Filosofia da Biologia 2009

Encontro de História e Filosofia da Biologia 2009

Neste terceiro post da série “cobertura informal do Encontro de História e Filosofia da Biologia” (veja o contexto aqui e post anterior aqui), apresento um resumão de uma palestra proferida dentro da seção ” Concepções de vida e suas alterações”.

A longevidade segundo a concepção de vida de Francis Bacon. Palestrante: Luciana Zaterka (Depto. de Filosofia Universidade São Judas e GTHC da Unicamp)

Francis Bacon estabelecia uma distinção entre a palavra de Deus e a obra de Deus. Na sua visão, esta última, nada menos que a natureza, estava ao alcande da razão humana. Ressalte-se, contudo, que seu pensamento, à semelhança do que ocorria com a maioria dos homens de sua época, inseria-se num âmbito teológico. Acreditava, portanto, que Deus criou os homens sem imperfeições e que a doença, o envelhecimento e a morte foram adquiridos após o pecado original.

Em sua obra Instauratio Magna, aponta a necessidade de restauração do conhecimento humano que, segundo o filósofo, foi interrompido com o pecado original. Para isto, propõe uma nova concepção de ciência que restabeleça o conhecimento e a imortalidade perdidos. Trata-se, portanto, de uma concepção operativa de ciência, segundo a qual a filosofia natural deve beneficiar a humanidade.

No segundo volume desta obra, denominado Historia Vitae e Mortis, ele deixa clara a sua concepção de história natural: uma investigação exaustiva de tudo que se possa classificar e investigar sobre os fenômenos da natureza e dos corpos. Lança as bases, então, de uma história natural não descritiva, mas ativa, fundamentada no método experimental.

Para Bacon, o bom experimento deve atingir os “segredos da natureza” e isso só é possível se esta for “atormentada, dissecada, alterada”. Esta constituiria, inclusive, uma das categorias da natureza segundo a divisão de Bacon, que reparte a natureza em: (a) natureza em curso (gerações), (b) maravilhas ou aberrações da natureza (pretergeração) e (c) natureza modificada pelo homem (Arts).

Nesse contexto de experimentação e compreensão da natureza, o objetivo de prolongar a vida constitui uma das principais finalidades do programa baconiano de reforma do conhecimento. Como o filósofo acreditava que os corpos são compostos por espíritos, sendo estes partículas ativas da matéria, a investigação sobre a longevidade humana deveria começar, portanto, por uma investigação sobre os próprios espíritos.

Assim, na obra Novum Organum, Bacon propõe sua Teoria dos Espíritos, em que distingue matéria tangível de espíritos (compostos voláteis). Para ele, ambos são constituintes da matéria, mas os espíritos são os constitutivos ativos da matéria. Estes são, então, dotados de volição (apetites, desejos, impulsos), em oposição à matéria tangível que é passiva, fria e inerte.

É, então, sobre os espíritos que deve operar a reforma do conhecimento em busca da longevidade.

Darwin, os pombos e as seleções

Agosto 20, 2009 § 10 comentários

Encontro de História e Filosofia da Biologia 2009

Encontro de História e Filosofia da Biologia 2009

Neste segundo post da série “cobertura informal do Encontro de História e Filosofia da Biologia” (veja o contexto aqui), apresentarei um resumão da conferência de abertura do encontro.

A origem dos pombos domésticos: a estratégia argumentativa de Darwin. Conferencista: Roberto de Andrade Martins (Grupo de História e Teoria da Ciência da Unicamp)

No primeiro capítulo de A origem das espécies… (1859) e em dois capítulos de outra obra sua menos celebrada, Variation of animals and plantas under domestication (1868), Darwin discute a origem dos pombos domésticos. Especialmente na segunda obra, ele utiliza seus achados sobre a seleção artificial das raças do pombo doméstico como estratégia argumentativa em favor da descrição da ação da seleção natural.

Tudo começa em 1842, quando um Darwin já casado com sua prima Emma muda-se com a família para uma casa de campo, em cujo jardim começou a criar pombos domésticos. Totalmente imerso na nova vida, Darwin passou também a frequentar exposições em que se exibiam diferentes raças do animal e a participar de sociedades de criadores de pombos.

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(clique na imagem para vê-la em tamanho maior e em seu contexto original)

O resultado dessa imersão toda foi a identificação de que há mais de 150 tipos de raças de pombos domésticos e que estas diferem em tamanho, estrutura óssea, coloração, postura, forma corporal, distribuição da plumagem, capacidade de vôo etc. E as diferenças podem ser realmente de grande monta, como mostra a ilustração ao lado.

Darwin analisou as raças todas de que conseguiu tomar conhecimento, mediu e pesou os bichos e analisou até mesmo seus esqueletos, tendo identificado diferenças osteológicas no maxilar, fúrcula, crânio, número de vértebras, conexões entre vértebras e costelas e por aí vai.

A primeira providência foi classificá-los em 4 grandes grupos: os pombos de papo, os pombos carúncula (com um asqueroso tecido proeminente em volta do bico e dos olhos), pombos de bico curto e pombos peculiares. Acho que com peculiares ele quis dizer bizarro, pois colocou aqui todas as demais raças com alguma característica muito peculiar. Um exemplo é o pombo correio, cuja peculiaridade é sua habilidade de regressar à casa a partir de distâncias de centenas de kilômetros.

[embora peculiar mesmo seja o pombo-cambalhota, que acabou classificado no terceiro grupo por conta do seu bico curto. Por que cambalhota? Bem, os pombos dessa raça dão bizarras cambalhotas enquanto caminham ou mesmo no meio de um voo. E, claro, muitas vezes despencam que nem jaca. Eu vi o filminho; deprê! Mais deprê ainda é a razão das cambalhotas: eles sofrem de um distúrbio neurológico… Quer dizer, em ambiente natural eles não teriam durado muito, mas vamos lembrar que estamos falando de pombos domésticos, selecionados artificialmente pelo homem, porque alguém algum dia achou legal ter pombos que dão cambalhotas para mostrar em alguma exibição.]

A segunda providência foi refletir sobre sua história evolutiva. E ele pensou que as diferenças entre as raças de pombos domésticos eram tão grandes que se fossem encontrados em estado selvagem poderiam ser classificados como espécies, ou até mesmo gêneros, diferentes. Exatamente como ocorreu com os diversos exemplares de tentilhões que havia coletado nas Ilhas Galápagos em uma das paradas do Beagle, que acabaram classficados em 13 espécies de 5 diferentes gêneros.

Mas Darwin não era adepto da chamada “hipótese da origem múltipla” dos pombos domésticos, ou seja, não achava que as diferentes raças de pombos domésticos haviam surgido a partir de cruzamentos entre diversas espécies selvagens. Argumentava que os pombos domésticos não fazem ninhos em árvores ou no chão, como a maioria dos pombos selvagens.

Sobrou então para a espécie selvagem Columbia livia, o pombo de rocha, que ficou como suspeito de ser o “pai” de todas as raças de pombos domésticos. afinal este é um pombo selvagem que não faz ninho no chão ou em árvores. Não havendo a possibilidade de realizar um teste de paternidade à época, Darwin vestiu o jaleco de experimentador e mandou ver num cover de Mendel (cuja figura e cujos experimentos ainda estavam por “nascer”) e resolveu realizar cruzamentos entre os pombos domésticos.

O engraçado é o Darwin experimentador: realizou os cruzamentos e nem anotou as características dos descendentes, só falou se “dava” branco, cinza, malhado… Até aí, vá lá. Mas a parte que certamente faria Mendel enfartar é que Darwin achava que deveria ser possível obter algum pombo com a aparência do pombo de rocha cruzando entre si raças muito diferentes de pombos domésticos. Ele achava que esses cruzamentos poderiam reverter as características que haviam sido selecionadas artificialmente pelos criadores quando do surgimento espontâneo de algumas delas e que isso levaria a um indivíduo com o “fundo comum do original”.

Cruza daqui, cruza dali… eis que apareceu um cara e bico do pombo de rocha.

Moral da história: Darwin se pegou com a variabilidade para traçar a analogia com a seleção natural. Quer dizer, só foi possível realizar a seleção artificial porque havia variabilidade. E se o homem tinha sido capaz de produzir tantas raças de pombos domésticos em uma curta escala de tempo, a natureza poderia perfeitamente ter produzido modificações muito maiores ao longo milhões de anos, gerando continuamente diversas espécies. [c.q.d, diria Darwin]

sobre o Encontro de História e Filosofia da Biologia

Agosto 19, 2009 § Deixe um comentário

Essa é a imagem escolhida como símbolo para o evento e vou usar aqui para identificar os posts sobre esse encontro. Trata-se de "Duria Antiquior - a more ancient Dorsetshire" (1830), aquarela do geólogo Henry Thomas de la Beche (1796-1855) representando a vida pré-histórica em Dorset, baseada em fósseis encontrados por Mary Anning. Clique na imagem para vê-la em tamanho maior e para acessar o site do evento.

Essa é a imagem escolhida como símbolo para o evento e vou usar aqui para identificar os posts sobre esse encontro. Trata-se de "Duria Antiquior - a more ancient Dorsetshire" (1830), aquarela do geólogo Henry Thomas de la Beche (1796-1855) representando a vida pré-histórica em Dorset, baseada em fósseis encontrados por Mary Anning. (clique na imagem para vê-la em tamanho maior e para acessar o site do evento)

Entre hoje e sexta feira, está acontecendo no Instituto de Biociências da USP o VI Encontro de História e Filosofia da Biologia. Vou ficar meio internada lá (estou, aliás) curtindo um pouco das palestras e vez em quando postarei alguma coisa sobre elas por aqui. Uma espécie de cobertura informal do evento, a quem interessar possa.

Hoje pela manhã teve um pouco daquele tradicional blá-blá-blá de abertura de evento: fala de boas vindas do diretor do Instituto, da comissão organizadora do evento, do chefe do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva etc.

Em seguida, uma conferência deveras interessante sobre o trabalho (experimental inclusive) de Darwin com pombos domésticos, mais tratado em sua obra de 1868 (Variation of animals and plants under domestication). Mais detalhes no post da madrugada.

[Tenho que dizer que é bom estar de volta à casinha e novamente “assistir aula no AG da Zoo”, agora todo reformadinho. Senti falta apenas dos gatos que observavam atentamente todos os slides (na “minha época” não tinha ppt não…) sentados nos colos escolhidos arbitrariamente por eles mesmos. Com o detalhe sórdido de que era bem frequente que os bichanos sem cerimônia alguma resolvessem afiar suas unhas em nossas calças jeans.

No mais, agrada ver que o IB-USP finalmente acordou, primeiro para a importância do ensino de ciências, e agora também para importância da história e filosofia da biologia.]

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