a polêmica saga do exoesqueleto que apareceu invisível

Junho 14, 2014 § 18 comentários

O tapete colorido que forrou o gramado durante a cerimônia de abertura da Copa do Mundo de 2014 foi enrolado fatia a fatia. Os jogadores entraram em campo para o aquecimento. Urros para os brasileiros, vaias para os croatas. Locutores se esgoelando em estatísticas, escalações, comparações e superstições. E eu ansiosa esperando falarem do exoesqueleto. O pontapé inicial da copa, que seria dado por um paraplégico equipado com uma veste robótica comandada por seu cérebro, estava prestes a acontecer e nada de comentarem o que seria isso, de explicarem como funcionaria. A ciência estava prestes a participar do show da copa, mas estava claro que divulgação científica não entraria em campo.

Às 16h47 o pontapé cientifico foi narrado retroativamente na SportTV. Um vídeo ridiculamente rápido foi mostrado. O exoesqueleto estava no canto do canto do canto do gramado. Deu um toque pífio numa bola colocada junto a seu pé. E foi tudo. Nem dava para saber em que momento da abertura o tal pontapé ocorreu. Soube depois que na transmissão da Globo o episódio tinha aparecido em tela dividida, com Galvão Bueno falando da chegada do ônibus da seleção brasileira (veja vídeo da própria emissora). No final desse vídeo dá para ver que o tal pontapé ocorreu ainda durante a cerimônia de abertura:

Ou seja, o exoesqueleto não decolou como planejado (embora Nicolelis tenha comemorado com um “We did it!!!!” logo na sequência do feito). A FIFA, dona do show, decidiu que esse número não faria parte do espetáculo. E colocou-o para escanteio. Mas por que o espaço cedido foi essa aparição relâmpago num cantinho do campo bem longe das câmeras?

Corta para o passado recente. No início do ano, o Portal da Copa, do governo federal, apresentou uma reportagem sobre o projeto encabeçado por Nicolelis em que ele explica os trabalhos que estavam em curso, ressaltando as inovações do mesmo, e como seria o pontapé inicial:

Pouco depois, foi elaborado esse outro material em que Nicolelis mostra o exoesqueleto já pronto, descreve o que seria apresentado na abertura do mundial e apresenta sua visão sobre o papel social da ciência:

A expectativa do pontapé científico, porém, não se restringiu aos veículos “oficiais” de divulgação. O exoesqueleto de Nicolelis pouco a pouco ganhou os holofotes (mix de exemplos em veículos nacionais e internacionais: BBC Brasil; Daily Mail; The Guardian; O Globo; revista Piauí; Discover Magazine; Portal G1; Folha de São Paulo). Até o grupo Teatro Oficina fez sua referência ao pontapé que estava prestes a ocorrer – vídeo.

Mas tanto quanto realizar conquistas em ciência de ponta, Nicolelis gosta de apresentar seus belos resultados de pesquisa de maneira espetacular. Foi assim, por exemplo, quando em 2008 decidiu encenar o que chamou de a little moon walk. Uma macaca previamente treinada corria em uma esteira elétrica em um laboratório na Duke University, nos EUA, enquanto os sinais elétricos captados de seus neurônios por meio de eletrodos conectados a um computador comandavam o movimento de um robô em esteira similar num laboratório na Kyoto University, no Japão. Imagens dos movimentos do robô eram projetadas para a macaca, que podia acompanhar em tempo real o desempenho de seu comandado. Num dado momento, a esteira da macaca foi desligada e os movimentos físicos dela pararam. Mas a macaca continuava a se mover em pensamento e a transmissão desses sinais neuronais para o robô fez com que esse seguisse o movimento.

O robô havia se tornado uma extensão do cérebro da macaca. O cérebro da macaca era capaz de controlar o movimento dos seus membros e também o “membro adicional” que havia incorporado a seus domínios. Foi um dos pontos altos da pesquisa na área de interfaces cérebro-máquina (mais sobre esse e outros trabalhos de Nicolelis aqui). E foi realmente sensacional! Lembro de uma palestra do neurocientista a que assisti em 2010 em uma escola de São Paulo em que ele, orgulhoso e divertido, contou o que respondeu quando perguntado porque tinha escolhido fazer o troço transcontinental, se a beleza e a importância do que ele conseguiu demonstrar com o experimento seriam as mesmas se robô e macaca estivessem na sala em frente à outra: “algumas coisas a gente faz… just for fun“.

Quem leu seu livro Muito além do nosso eu não se surpreende com essa atitude. Não se trata de um livro de divulgação científica, dada a densidade de muitos trechos mais acessíveis aos “iniciados”. Mas é um excelente livro para se compreender o processo de construção do conhecimento científico. Para tomar conhecimento de como uma descoberta leva a outra, como uma pergunta pode levar a outra descoberta, como a inovação tecnológica e a ousadia (“inovação mental”) são fundamentais para que novos passos sejam dados, como a comunicação científica especializada é imprescindível nesse processo de construção conjunta do conhecimento. No livro em que traça sua trajetória científica desde os tempos de estudante na Faculdade de Medicina da USP até o presente, Nicolelis acaba por contar muito da história da Neurociência.

Nesse processo, põe especial ênfase nos homens que foram particularmente ousados e/ou “espetaculosos”. É o caso do neurofisiologista, filósofo e escritor americano John Cunningham Lilly, decidido a criar um novo paradigma que permitisse unir a neurofisiologia com a psicologia experimental. Artistas do futebol, como Mané Garrincha, e Santos Dumont, “o homem cujo corpo era um avião” e nitidamente seu grande ídolo, merecem referências constantes nessa narração. À página 321, Nicolelis escreve aquilo que talvez gostaria que fosse escrito hoje sobre o pontapé inicial de seu exoesqueleto:

Naquela fria manhã de outono, Alberto Santos Dumont, um brasileiro baixinho e impecavelmente trajado, desafiou o protocolo das descobertas científicas ao realizar um feito tão contrário à ortodoxia acadêmica da época que mesmo hoje ele causaria espanto nesses mesmos restritos circuitos.

Desta feita, porém, o iminente espetáculo foi cercado de críticas. Alguns exemplos: matéria na revista Piauí e na revista Ciência Hoje. As críticas foram furiosamente rebatidas por Nicolelis em seu perfil no Twitter no esquema bate-boca de boteco. Só que as críticas não se restringiram aos “colonistas” da Falha de SP e do Estadinho, como foram ironizados por Nicolelis os jornalistas da Folha de São Paulo e do Estadão.  Vieram também de além-mar, lá do “primeiro mundo”, como nessa matéria do MIT Technology Review e nessa outra na Wired. O cerne da polêmica científica estava (está) em dois pontos principais: na inovação tecnológica do projeto Walk Again e na espetacularização de achados científicos antes de sua revisão e aprovação por pares. Vejamos cada ponto.

A interface cérebro-máquina-cérebro – No contexto da neuroengenharia como um dos principais desdobramentos tecnológicos da Neurociência, o exoesqueleto criado no Projeto Walk Again não é o único existente que é comandado pelo cérebro do usuário (um exemplo aqui, outro aqui – e há ainda esse do projeto europeu MindWalker, cuja dica veio nos comentários desse post). Então qual a inovação do exoesqueleto de Nicolelis, cientista pioneiro nessa área de pesquisa? O feedback sensorial. A ideia é a seguinte: depois de passarmos por um período de aprendizado, nosso cérebro armazena uma espécie de programa motor que dá conta de controlar esses movimentos já aprendidos realizando apenas pequenas correções. Assim, andar é um dos programas motores que temos, bem como correr, saltar e, no caso da Daiane dos Santos, executar um duplo carpado. O mesmo programa motor é acionado a cada vez que caminhamos, mas como às vezes caminhamos na calçada cheia de desníveis ou na areia ou em uma superfície com obstáculos diversos, nosso cérebro vai corrigindo os movimentos do programa básico a partir do retorno sensorial (principalmente visual e tátil) que recebe. Essa correção é feita durante a própria execução dos movimentos sem nem nos darmos conta (atualização em 18/06/2014: para saber mais sobre os chamados “circuitos cerebrais geradores de padrões rítmicos”, veja esse texto do neurocientista Roberto Lent).

Assim, andar (de preferência sem tropeçar) envolve esse feedback sensorial para o cérebro, que não é contemplado pelas interfaces cérebro-máquina já desenvolvidas. Nicolelis tem o objetivo de desenvolver uma interface cérebro-maquina-cérebro. Para isso, o exoesqueleto do projeto Walk Again, que na verdade ainda é um protótipo disso, conta com sensores táteis nos pés do robô que encaminham essa informação para os braços do usuário do exoesqueleto (um resumo nesse infográfico). Porém, o retorno sensorial propiciado ainda precisa de muito aprimoramento para realmente ser caracterizado como feedback. Não permite correções de movimentos até porque o exoesqueleto ainda sequer é capaz de realizar muitos movimentos. Por enquanto está centrado em alguns programas básicos, como “comece a caminhar” e “pare de caminhar”. Nesse contexto, o que o feedback desse exoesqueleto proporciona ao usuário é a sensação de caminhada, a sensação de que é seu próprio pé que está tocando o chão e não o pé de um robô alheio a ele.

Isso não é pouca coisa, como podemos ver pela reação de uma moça paraplégica ao testar o exoesqueleto desenvolvido no projeto comandado por Nicolelis nesse vídeo divulgado por ele na página do projeto no Facebook. Mas ainda é algo distante de restabelecimento dos movimentos. Isso tudo é normal no processo de construção do conhecimento científico. Quer dizer que a pesquisa deu um passo e está caminhando para dar os demais.

Outro ponto: muito antes do feedback sensorial, importa como os sinais cerebrais são captados. Há duas formas principais: uma touca de eletrodos que cobre a cabeça do usuário e envia os sinais elétricos captados para o computador (ou seja, um registro eletroencefalográfico – EEG) ou um bloco de microeletrodos implantados diretamente no cérebro, como Nicolelis fez nos modelos animais com que vem trabalhando. Nicolelis, aliás, se especializou em desenvolver dispositivos desse tipo cada vez mais precisos, ou seja, que captam sinais concomitantes de números cada vez maiores de neurônios. O registro das tempestades cerebrais, como gosta de chamar, é um dos orgulhos de Nicolelis narrado em seu livro e em diversas palestras, como nessa TED-talk.

Além disso, sua equipe se destaca também no aprimoramento do sistema de leitura e interpretação desses sinais, conseguindo excluir cada vez mais ruídos ao mesmo tempo em que amplia o poder dos modelos matemáticos de analisar um número crescente de dados concomitantes. Mas ainda não está pronto para implantar em humanos, mais pesquisas são necessárias, como conta Nicolelis nessa entrevista à Scientific American pouco antes da abertura da Copa. Ou seja, a técnica escolhida para o pontapé inicial da copa tem a vantagem de ser não invasiva, mas a desvantagem de ser muito menos precisa, como já defendido pelo próprio Nicolelis.

Então, de novo: a pesquisa deu um passo e está caminhando para dar os demais. Mas será que esse primeiro passo era algo tão estonteante para ser alardeado da forma como Nicolelis vem fazendo? E, ainda que fosse, essa é uma boa forma de divulgar a ciência?

A ciência no palco – A postura de Nicolelis e de outros cientistas que flertam com a mídia é muito criticada por seus pares. O principal argumento contrário a isso é que a divulgação precoce de resultados científicos pode dar a impressão de “cura milagrosa” para muitos e até estimular absurdos como o “turismo de células tronco” que ocorre na China.  Mas é ruim que a ciência apareça para o público em grandes exibições? Essa matéria no The Atlantic faz uma boa ponderação a respeito, resgatando a relação mais próxima entre ciência e público que ocorria no início da Royal Society. Também já escrevi um pouco sobre isso na coluna de estreia na revista Quanta. Porém, uma coisa é aproximar a ciência do público, inclusive colocando-a num “palco” (um bom exemplo atual é o World Science Festival). Outra coisa é promover um espetáculo. Vide o exemplo vergonhoso da “bactéria do arsênio” que, como prematuramente alardeado pela Nasa, iria redefinir a química da vida (um apanhado dessa novela aqui e um resumo aqui).

Corta para hoje. O prometido espetáculo não foi muito espetacular. Após o chute tímido, muitas matérias vêm divulgando os passos do projeto Walk Again (um exemplo na mídia nacional  e outro na internacional). Ontem Nicolelis comemorou no Twitter que os vídeos do projeto passaram dos 2 milhões de visitas, sendo uma vitória o Brasil estar debatendo neurociência durante a Copa. E é mesmo. O que mais me alegrou ontem quando entrei na sala de aula foi encontrar os alunos comentando a abertura da Copa e o jogo do Brasil e muitos falando do paraplégico que tinha dado um pontapé usando um robô controlado pelo cérebro e querendo saber como aquilo funcionava.

Mas muitas interrogações continuam sendo lançadas, especialmente contrastando o que foi atingido até agora com o tanto que custou para os cofres públicos num país que não valoriza a ciência como deveria e, portanto, deixa uma fatia estreita do orçamento para a pesquisa:

O valor investido na construção do protótipo chama a atenção pela grandiosidade. É de três a dez vezes maior do que o valor que qualquer um dos 37 Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs) da área de saúde recebeu do CNPq nos últimos cinco anos, por exemplo. E R$ 13 milhões maior do que o valor total do último edital lançado pela Finep para o desenvolvimento de tecnologias de auxílio a deficientes (de R$ 20 milhões), que deverá beneficiar dezenas de projetos em todo o País. (texto do jornalista Herton Escobar no Estadão)

A Finep, agência de financiamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, colocou R$ 33 milhões no exoesqueleto. Nada errado nisso: trata-se de uma agência de inovação, cuja missão é justamente investir em projetos ousados, assumindo os riscos, que de resto são inerentes a todos os projetos científicos. Mas é inevitável comparar: o edital recentemente lançado por outras agências do mesmo ministério para a criação de Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia anunciou que proverá no máximo R$ 10 milhões para cada um dos grupos que vencerem uma acirrada concorrência. Como esses R$ 10 milhões se destinam a grupos que associam vários pesquisadores independentes, cada pesquisador contará com algo em torno de R$ 1 milhão para o seu projeto. Três a um foi a vitória da seleção brasileira; 33 a 1 foi a vitória de Nicolelis sobre a comunidade científica brasileira. (texto do neurocientista Roberto Lent no Globo)

acho que a impressão final é que os 33 milhões de reais da Finep aprovados pela Dilma para o Andar De Novo compraram, até agora, apenas 3 segundos de televisão. Espero que, no final, seja bem mais do que isso, claro. Mas devo dizer que o guindaste que, sustentado por dois ajudantes, possibilitou ao rapaz dar um toque na bola colocada aos seus pés de fato ficou muuuuuito aquém da expectativa tão alardeada. Por outro lado, que fique claro: tenho PLENA confiança no que Miguel é capaz de fazer. Isso ele já demonstrou em seus artigos científicos. No que isso dá quando aplicado às pressas para fazer propaganda para o governo, aí são outros quinhentos. (texto da neurocientista Suzana Herculano-Houzel em sua página no Facebook)

Paralelamente, Nicolelis começou um embate com a FIFA, que retrucou. No meio do bate-boca, um pouco do foco no ideal científico da coisa toda vem se perdendo.

Andar de novo. E também correr e dançar e escalar e recobrar o controle da bexiga urinária – Há muitas formas de reabilitação sendo pesquisadas. Algumas enfocam exoesqueletos, como é o caso de Nicolelis e outros exemplos linkados acima. Mas há ainda outras estratégias, como essa desenvolvida na Universidade de Berkley que propicia que o paraplégico vista um robô e recobre muitos movimentos (TED-talk sobre esse exoesqueleto). Ou essa prótese, desenvolvida na Escola Politécnica Federal de Lausanne, na Suíça, que oferece ao paciente a sensação de tato ao ser ligada aos nervos do braço. Ou essa outra técnica, desenvolvida na Unifesp, que usa um neromodulador implantado no corpo do paciente para estimular os nervos responsáveis pelos movimentos das pernas e pelo controle da bexiga e do reto. Ou essa perna biônica controlada pelo cérebro.

Minha predileta, porém, é a pesquisa encabeçada por Hugh Herr, do MIT. A TED-talk abaixo é emocionante. Nela, Herr apresenta resultados incríveis do desenvolvimento de membros robóticos cada vez mais funcionais e expõe a premissa que guia seu trabalho: “não consigo aceitar o fato de que o homem pode quebrar”. Parece claro que Nicolelis também tem isso em mente, só que acaba colocando muito de seu foco na quebra de recordes, em estar na ponta, em fazer o impossível. Penso que Herr mostra que tudo isso pode ser conseguido de forma mais bela. Porque competir é humano, mas melhorar as condições de vida das pessoas com beleza e serenidade é mais. Estou com os gregos e com Vinícius: beleza é fundamental!

Atualização em 16/06/2014 – Leia também o texto do biólogo Roberto Takata, com algumas interessantes ponderações a respeito das críticas feitas ao Nicolelis, e esse post-irmão do meu, escrito um pouco depois pelo jornalista Pedro Burgos.

Atualização em 18/06/2014 –  entrevista com Juliano Pinto, o paraplégico que vestiu o exoesqueleto do projeto Walk Again e protagonizou o episódio da abertura da Copa.

Atualização em 30/06/2014 –  pouco depois da exibição robótica de Nicolelis, cientistas do projeto Neurobridge conseguiram que um voluntário tetraplégico movimentasse o braço a partir de comando cerebral. A principal diferença: o eletrodos que captam os sinais dos neurônios foram implantados diretamente no córtex motor do paciente. trata-se do método mais preciso de registro de sinais neuronais em relação ao EEG, como explicado acima. Leia sobre essa pesquisa em matéria do Washington Post, da revista Slate (com vídeo) e da Folha de SP.

com a palavra, o cientista

Setembro 25, 2011 § 6 comentários

Como disse, tenho o grande prazer de iniciar esta primavera como colunista da Revista Quanta.

Transcrevo a seguir a íntegra do texto publicado e ao final há uma reprodução do original como saiu na revista (clique na imagem para vê-la em tamanho maior).

Foi um grande desafio tentar discutir uma ideia no espaço da coluna e ainda vou precisar de mais algumas edições pra pegar melhor o jeitão do texto. Até lá – e sempre – conto com os comentários, sugestões e até puxões de orelha de vocês!

Com a palavra, o cientista – histórias da ciência narradas por seus protagonistas

A criação das primeiras revistas científicas nos idos dos anos 1660 – a inglesa Philosophical Transactions of the Royal Society e a francesa Journal des savants – substituiu a tradição oral da comunicação da ciência pelo registro escrito. Não eliminou, porém, a estrutura de contação de histórias para cientistas e outros leitores interessados sobre os últimos achados científicos. Esta mudança ocorreu no final do século 19, com a profissionalização da atividade científica.

Artigos revisados por pares segue sendo a principal forma de comunicação da ciência por cientistas. O que se deixou de lado foi parte do público-alvo original. Não seria bom se o cientista voltasse a contar suas histórias para todos os interessados? É o que defende um documento da American Academy of Arts and Sciences (AAAS).

A publicação da AAAS constatou que a postura do cientista tem sido de reforçar o coro que clama pela necessidade de letramento científico da população. O ponto de partida foi a observação de uma pesquisa de percepção pública de ciência de que a população tem uma visão positiva sobre a comunidade científica, mas esta tende a considerar o público ignorante e a mídia irresponsável.

Como a premissa que orienta as ações de políticas públicas vem sendo a do analfabetismo científico, estas têm se centrado no ensino da ciência na escola básica e na divulgação desta pela grande mídia. Ao se dirigir também aos cientistas, a pesquisa identificou outra frente de trabalho. O documento da AAAS, então, orienta o cientista para um papel mais ativo nesse processo, alertando-o sobre a importância de se reaproximar da população.

Tal postura encontra eco em outros chamados. Um exemplo é o editorial da britânica Nature instigando os cientistas a usarem blogs como ferramenta para divulgação de seu trabalho e interação com o público leigo .

Esta tarefa que se propõe ao cientista não é excludente da mais ampla. Sobretudo nos países em que a necessidade de alfabetização científica (e geral) ainda é premente. O que se defende é uma mudança de postura do cientista: mais que esperar por uma população letrada capaz de apoiar a ciência, tornar-se um narrador de si mesmo, contando o que faz.

Na final disto esta a possibilidade de ampliar a confiança e a parceria entre dois grupos interdependentes. Não lhe parece que o uso da cátedra de professor-doutor também como cadeira de contador de histórias traz, de fato, a ciência para o cotidiano de todos?

cientometria e informetria em três atos – parte III

Julho 8, 2011 § Deixe um comentário

Ato 3: E o Research-Blogging PT foi parar na ISSI 2011!
[por Sibele Fausto*]

Foi apresentado ontem na ISSI 2011 o poster Peer-reviewed science in blogs: an option to the Brazilian growing interest for science?, de autoria de Sibele Fausto, Atila Iamarino, Luiz Bento e Tatiana Nahas.

Aproveitando a diversificação das temáticas da ISSI, que além dos estudos bibliométricos tradicionais baseados na literatura científica, começa a dar espaço para alternativas metodológicas, o trabalho abordou a importância da blogosfera científica e a relevância de agregadores de blogs como o Research Blogging e seu correspondente no idioma português Research Blogging PT como fontes úteis tanto para os leitores interessados ​em pesquisa de ponta como para aqueles que procuram comentários e explicações da ciência em primeira mão, por cientistas e especialistas em suas respectivas áreas, além de, dado que a estrutura intrínseca da web faz com que seja difícil fazer uma distinção clara entre o conteúdo científico e pseudocientífico, tais agregadores de blogs como o RB-PT atestam a pesquisa acadêmica e evitam a propagação de conteúdo pseudocientífico, num contexto de crescente interesse pela ciência pelo público brasileiro, revelado em 2010 em uma pesquisa do Ministério da Ciência e Tecnologia.

O trabalho apresentado na ISSI 2011, além de relatar um breve histórico do surgimento do Research Blogging, objetivou verificar a frequência de artigos científicos publicados em revistas indexadas postados e/ou comentados na blogosfera científica brasileira, e encaminhados para o agregador de blogs Research Blogging PT, com os links para as postagens disseminados e compartilhados automaticamente através do seu perfil @ResearchBlogsPT no Twitter.

A pesquisa foi realizada em janeiro de 2011 e incluiu todo o conteúdo tuitado pelo perfil disponível no Twitter, considerando-se os tuítes de 02/Junho/2009 a 31/Janeiro/2011, e apenas aqueles com links para postagens sobre trabalhos acadêmicos publicados em revistas indexadas. Retuítes (RT), tuítes repetidos , avisos ou tuítes para postagens sem links para artigos científicos foram excluídos, bem como postagens com referências somente de livros. Veja os dados coletados.

Os resultados mostraram que durante o período analisado, o perfil do @ResearchBlogsPT dispersou 571 tuítes de postagens de 52 blogs de ciência, que citaram e linkaram o total de 919 artigos científicos publicados em 404 periódicos diferentes. A área mais abordada foi das Ciências da Saúde, com 285 artigos, seguida pela área Multidisciplinar, com 266 artigos. As Ciências Biológicas teve 142 citações, enquanto as Ciências Sociais Aplicadas e as Ciências Exatas e da Terra apresentaram 113 referências cada.

Os periódicos mais citados foram, em geral, aqueles com alto fator de impacto, o que pode indicar que blogs que divulgam a ciência de revistas revisadas por pares favorecem as de maior prestígio.

Quanto à distribuição destas postagens ao longo do tempo, houve um aumento de tuítes nos mesmos meses do ano investigado, quando comparamos com ano anterior. O período mais ativo (fevereiro-abril de 2010) pode estar relacionado com o Prêmio Research Blogging 2010, com início em fevereiro daquele ano e anúncio dos vencedores em março de 2010, justamente o período com o ponto mais alto da curva da frequência de tuítes pelo perfil @ReserchBlogsPT.

O estudo conclui que o Research Blogging funciona como um importante filtro para postagens de blogs de ciência, que de outro modo diluiriam-se entre milhares de outras postagens normalmente marcadas como “ciência”. A ferramenta de mídia social Twitter revelou-se útil para a dispersão e compartilhamento das postagens, contribuindo para sua divulgação, além de servir como um repositório de links dessas postagens, indicando que o uso de sites como o Research Blogging PT , num contexto de crescente interesse pela ciência revelado pela sociedade brasileira e ao maior acesso à tecnologia, aliado a poderosas ferramentas de mídia social como o Twitter, pode impactar significativamente a divulgação da ciência no Brasil.

 Referências do trabalho:

Jef Akst (2010). Publish or post? The Scientist

Bonetta, L. (2007). Scientists Enter the Blogosphere Cell, 129 (3), 443-445 DOI: 10.1016/j.cell.2007.04.032

Kouper, I. (2010). Science blogs and public engagement with science: practices, challenges, and opportunities Journal of Science Communication, 9 (1)

Mandavilli A (2011). Peer review: Trial by Twitter. Nature, 469 (7330), 286-7 PMID: 21248816

Editorial (2009). It’s good to blog. Nature, 457 (7233) PMID: 19242426

Nivakoski, O., & Larsen, B. & Leta, J. (Eds.) (2009). The meaning of links in blogs. Proceedings of the 12th International Conference on Scientometrics and Informetrics , 2, 242-253

Brazil. Ministério da Ciência e Tecnologia (2010). Percepção pública da Ciência e Tecnologia no Brasil. Brasília, MCT.

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* Como dito, este texto foi escrito por Sibele Fausto, bibliotecária pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo e curiosa sobre a Cientometria.

cientometria e informetria em três atos – parte II

Julho 7, 2011 § 5 comentários

Ato II: a cientometria e a informetria [por Sibele Fausto*]

A Cientometria e a Informetria (incluindo a novíssima Webometria) são as vertentes mais recentes no cenário de expressiva expansão dos estudos métricos da informação, iniciados no século XIX e sistematizados a partir do século XX, com o uso de métodos estatísticos e matemáticos no mapeamento de informações em registros bibliográficos de documentos (livros, periódicos, artigos), para fins de gestão de bibliotecas e bases de dados, sob a denominação Bibliometria [1].

Tais métodos bibliométricos [2], baseados majoritariamente no número de publicações e na contagem de citações, ainda são alvo de intensos questionamentos na área, criticando principalmente as fontes restritas (leia-se: bases de dados como a Web of Knowledge – novo nome da antiga ISI após sua compra pela Thomson-Reuters) onde são coligidos os dados que subsidiam essas metrias, que não consideram a produção científica mundial de uma forma ampliada e compreensiva, além de desconsiderar as especificidades dos diversos contextos de pesquisa nos diferentes países, e mesmo as distinções próprias da pesquisa em básica e aplicada.

Aliás, a origem do próprio termo Bibliometria é alvo de questionamentos, com alguns pesquisadores atribuindo-a à Allan Pritchard e outros, a Paul Otlet, deixando entrever o viés linguístico fortemente ancorado no idioma inglês [3], e mesmo a origem da Cientometria, a “ciência da ciência”, gera controvérsias, com autores atribuindo sua origem na antiga URSS, nos anos 60, com o nome de “naukometrija”, sendo Nalimov e Mulchenko os primeiros autores a trabalhar com essa disciplina, seguidos de Dobrov e Karennoi (numa publicação do All-Union Institut for Scientific and Technical Information, em 1969), outros atribuindo sua origem a J.D. Bernal (com a obra The Social Function of Science, de 1935) e havendo certo consenso sobre o pioneirismo de Derek John de Solla Price, com a obra Little Science, Big Science, de 1963, como um dos fundadores da nova disciplina, ao sistematizar idéias já existentes sobre análises estatísticas da bibliografia científica. Inclusive, o próprio termo Cientometria também não é consenso, observando-se o emprego frequente de Cienciometria [4].

O crescimento da área deve-se em boa parte ao surgimento de tecnologias facilitadoras de extração, modelagem, tratamento e análise de grandes quantidades de dados de naturezas diversas, tanto numéricos/estatísticos como linguísticos, expandindo os estudos da ciência para além da bibliometria e fazendo surgir novas metodologias de pesquisa, e mesmo novos termos, como a Informetria (Informetrics), num modelo mais recente que apreende os aspectos cognitivos da informação.

Nessa edição 2011 da ISSI, o programa deixa perceber a expansão das temáticas abordadas, ultrapassando os estudos bibliométricos tradicionais baseados em revistas e em citações:

  • Análise de periódicos (Journal Analysis);
  • Campos Emergentes (Emerging Fields);
  • Carreira Acadêmica (Academic Careers);
  • Ciência & Tecnologia & Inovação (Science & Technology & Innovation);
  • Colaboração (Collaboration);
  • Estudos Disciplinares (Disciplinary Studies);
  • Estudos de Gênero (Gender Studies);
  • Estudos Nacionais (National Studies);
  • Financiamento de Pesquisas (Funding Studies);
  • Fontes de Dados (Data Sources);
  • Mapeamento/Agrupamento (Mapping/Clustering);
  • Metodologia (Methodology);
  • Novos Desenvolvimentos (New Developments);
  • Redes e Visualização (Networks and Visualization);
  • Revisão por Pares (Peer-Review);
  • Webometria (Webometrics).

Esse cenário de crescimento expressivo dos estudos de Bibliometria, Cientometria e Informetria cria novas oportunidades e desafios fascinantes, para todas as áreas. A sua, inclusive!

Em tempo:  Para acompanhar a ISSI 2011, acesse o blog Cadernos de Tecnologia Social, do doutorando em CI na ECA-USP Dalton Martins – ele está reportando tudo!

Referências:

[1] SANTOS, R.N.M., & KOBASHI, N.Y. (20101). Bibliometria, cientometria, infometria: conceitos e aplicações Tendências da Pesquisa Brasileira em Ciência da Informação, 2 (1), 155-172 Other: 1983-5116

[2] VANZ, S. A. S., & STUMPF, I. R.C. (2010). Procedimentos e ferramentas aplicados aos estudos bibliométricos Informação & Sociedade: estudos, 20 (2), 65-75 Other: 1809-4783

[3] FONSECA, E.N. (1973). Bibliografia Estatística e Bibliometria: uma reivindicação de prioridades. Ciência da Informação, 2 (1), 5-7 Other: 1518-8353

[4] STUMPF, I. R. C.; CAREGNATO, S.; VANTI, N.; VANZ, S.A.; CORRÊA, C.; CRESPO, I.M.; GALDINO, K.; GOMES, J. Uso dos termos Cienciometria e Cientometria pela comunidade científica brasileira. In: PLOBACIÓN, D. A.; WITTER, G.P.; MODESTO DA SILVA, J.F. (Org.). Comunicação & Produção Científica: contexto, indicadores e avaliação. São Paulo: Angellara, 2006, p. 343-369.

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* Como dito, este texto foi escrito por Sibele Fausto, bibliotecária pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo e curiosa sobre Cientometria.

Adicionei os diagramas acima para ilustrar as discussões que vêm sendo travadas sobre a abrangência destas áreas. Fontes dos originais: 1, 2 e 3.

cientometria e informetria em três atos

Julho 6, 2011 § Deixe um comentário

Ato I: introito

Termina amanhã a 13th International Society for Scientometrics and Informetrics Conference (ISSI 2011), em Durban, África do Sul. O evento reúne os mais destacados nomes dos estudos métricos da ciência para discussões conceituais, terminológicas e metodológicas relacionadas a esse campo interdisciplinar de pesquisa. A organização do ISSI está a cargo da International Society for Scientometrics and Informetrics, associação sediada na Holanda e fundada em 1993 que reúne pesquisadores e profissionais de mais de 30 países, muitos integrantes do corpo editorial da revista Scientometrics, uma das mais importantes da área.

Neste evento, Sibele Fausto, Atila Iamarino, Luiz Bento e eu apresentamos um poster que aborda o papel na divulgação científica da blogagem que envolve revisão por pares e o compartilhamento destas postagens via Twitter. Nosso objeto de estudo foi o Research Blogging, site que reúne pesquisas revisadas por pares sobre os mais diversos temas da ciência e tecnologia. Iniciativa de Dave Munger e integrante da Seed Media Group, o site vem crescendo rapidamente e atualmente já comporta as versões em alemão, espanhol, português, chinês, polonês e italiano além da original em inglês. Atila, Luiz e administramos a versão em português.

A ideia partiu da Sibele, bibliotecária pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo e uma diletante (ela que disse!) em Cientometria, que se prontificou a ficar com o trabalho pesado de data mining e reger o grupo. Assim, mais que apresentar o poster, decidi convidá-la para escrever um pouco sobre essa área de pesquisa, tão pouco abordada em veículos de divulgação científica, e também para melhor descrever este trabalho que fizemos. É o que vocês poderão acompanhar nos próximos capítulos!

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A feíssima paisagem acima é o que provavelmente avistaria da janela do hotel se tivesse podido comparer pessoalmente ao congresso…

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