a lebre, a tartaruga e a gripe suína

Agosto 19, 2009 § 2 comentários

Uma rapidinha aqui do intervalo (vejam post anterior para entender) só porque tô com coceira na mão desde domingo pra falar disso e agora ainda veio o reforço.

Explico: domingão li no Estadão a matéria (Gripe vira alvo de informação falsa) e achei ótima a análise sobre as mais diversas porcarias que vêm circulando na internet a respeito da gripe suína e correlatos (taxa de mortalidade absurda, “vacina assassina” e… até “estado de calamidade pública” nêgo mencionou. E muita gente enviou para tooooda sua lista de e-mails, o que é pior…). Hoje foi a vez do G1, com a matéria Especialistas desmentem mitos sobre a nova gripe disseminados pela internet. Muito boa também.

Não há dúvida de que este esta é uma excelente e necessária prestação de serviço à população (que, cá pra nós, era bem o que a imprensa deveria fazer mais vezes). Mas… que demora, não?

Estamos falando de ações ocorridas em 16 e 19/08/09, respectivamente. Só que isso já foi abordado em 24/07/09 – a circulação do H1N1, em 03/08/09  – Gripe suína e a conspiração, em 04/08/09 –  operação Pandemia, em 11/08/09 –  Mala Influenza – 11, em 14/08/09 –  Gripe suína, a morte vinda dos céus e Gripe suína, MSN e spam, só para citar alguns exemplos.

Então… que demora, não?

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E já que a gripe suína tem sido disparado o assunto mais consultado deste blog, vou reforçar a propaganda. Mais sobre a gripe suína aqui no Ciência na Mídia:

operação pandemia

Agosto 4, 2009 § Deixe um comentário

Adoro documentários polêmicos! Esse eu vi lá no Rainha Vermelha, num dos ótimos posts do Átila Iamarino.

Seria a pandemia da gripe suína uma farsa armada para que dois grandes laboratórios farmacêuticos lucrem com o pânico? É o que procura mostrar o documentário Operação Pandemia que, se parasse por aí, não teria nada de muito original. Mas e se eu disser que o personagem principal da suposta tramóia toda é o Donald Rumsfeld, que foi secretário de defesa do Bush, vocês ficariam mais curiosos? E mais: segundo o documentário, o pânico calculadamente incitado vem desde a época da gripe aviária, que teria sido outra “pandementira”.

Bora lá, cliquem no play para podermos falar sobre a Operação Pandemia!

Pelo menos o documentário não questiona a existência do vírus e nem afirma ter sido este fabricado propositadamente para infectar os seres humanos, seja para castigar os homens maus, seja para dar mais lucros para os vilões de plantão (ah, vá dizer que vocês nunca ouviram uma dessas afirmações sobre o HIV, por exemplo?). Então ao menos o ponto de partida confere, ou seja, assume que há um novo vírus que provoca gripe e que este pode ser letal. Meno male… Vamos então às afirmações que o documentário faz:

(1) A pandemia não é tudo isso que ouvimos na mídia; as notícias são exageradas com o fim explícito de provocar o pânico. Bom, é um ponto de vista, claro. Mas para isso é preciso que todos (no mundo todo e em todas as instâncias, sejam elas de governo, de atendimento médico-sanitário etc) estejam mentido e com o rabo preso de alguma forma. Pessoalmente acho bem difícil que a OMS + os governos de todos os países do mundo + a mídia de todos os países do mundo + os médicos de todos os países do mundo etc etc estejam mancomunados e o único ser pensante e verdadeiro que sobrou na face da Terra é o cara que fez o documentário…

(2) A indústria farmacêutica está lucrando com a pandemia. É fato. Mas também é fato que: (a) indústria farmacêutica (ou qualquer outra indústria) não é ONG, organização humanitária sem fins lucrativos ou qualquer coisa que o valha. Se é ou não linda, pura e casta isso já é outra história; (b) os fabricantes dos inocentes vidrinhos de álcool em gel e os de máscaras faciais também estão enchendo as burras de dinheiro com a gripe suína (ou vocês não estão enjoados de ver entrevistas com balconistas de farmácias dizendo que nunca venderam tanto álcool em gel em toda a história da humanidade?). Isso os faz tão malvadões quanto à indústria farmacêutica?

(3) Donald Rumsfeld, a Gilead, a Roche, o governo estado-unidense e outros monstros fizeram tudo por baixo do pano na calada da noite para nos sacanear. É, o documentário apresenta as ligações entre um e outro ser maligno como se essas fossem descobertas incríveis  de informações ultra secretas. O fato é que qualquer um que quisesse saber de onde saiu o Tamiflu, quantas unidades vende, a quantas andam as ações da Roche etc poderia fazer isso. Está tudo, por exemplo, nessa reportagem que foi publicada no Estadão de domingo na página A25 (não achei  o texto no site do próprio Estadão, eu li no impresso, então o link acima é para um clipping do site do nosso Ministério de Relações Exteriores que transcreveu na íntegra a matéria sobre o químico austríaco que criou o Tamiflu).

(4) Os governos compram medicamentos sem necessidade. No caso do documentário, os números referem-se à compra de antivirais que o governo dos EUA fez para combater a gripe aviária. Mas se fôssemos transpor isso para o nosso caso atual, fomos informados que o Ministério da Saúde comprou e estocou 800 mil 9 milhões de antivirais para combater a gripe suína.  Que precisa de medicamento precisa, ué! Que os medicamentos são feitos para curar e/ou amenizar enfermidades são, ué! Que constatada uma pandemia ações médico-sanitárias precisam ser tomadas precisam, ué! Realmente não entendo qual é a dúvida aí. Isso não significa, contudo, engolir sem entender todas as ações que são tomadas. Por exemplo, essa compra foi exagerada, insuficiente ou o número está adequado às condições de temperatura e pressão a que estamos submetidos? Sendo a quantidade adequada, era melhor ter comprado ou estimulado a produção nacional, como a recém anunciada pela Farmanguinhos? As secretarias de saúde de alguns municípios estão reclamando que os medicamentos comprados pelo governo federal não estão disponíveis em suas unidades – está o governo sentando em cima do ovo ou está agindo corretamente de forma a evitar a medicação exagerada e desnecessária que poderia levar ao desenvolvimento de uma cepa mais resistente do vírus? Essas sim são questões para ficarmos atentos, para debatermos.

Em ciência é frequente ouvirmos que muito mais importante que as respostas que buscamos, são as perguntas que fazemos. Meu sonho de um mundo melhor: que essa “máxima” seja aplicada no cotidiano do ser humano.

curtas

Julho 27, 2009 § Deixe um comentário

Segunda-feira às vezes é um dia difícil para o Ciência na Mídia. Domingo diversos jornais trazem especiais, há as compilações que me inscrevi para receber, há os rascunhos de posts que fui fazendo ao longo da semana e que acabaram ficando pra depois por falta de tempo ou porque outros temas pareceram mais relevantes… resumindo, geralmente há coisa a beça pra ocupar esse espaço na segundona e acabo um tanto embananada para fazer a seleção.

Para ajudar, hoje é um daqueles dias em que acordei indecisa e já demorei até para escolher se tomava café ou mate. Assim, fiquei com a opção preguiçosa para o blog: ao invés de escolher um ou outro tema e desenvolver mais, vou apresentar uma seleção dos melhores textos  com os quais esbarrei nos últimos dias e deixar o trabalho pesado para o leitor… Então lá vai:

  • H1N1 e o que estamos aprendendo: o biólogo Átila Iamarino faz um ótimo balanço das informações já assimiladas sobre o H1N1 desde sua detecção e aponta as principias dúvidas e problemas que ainda estamos enfrentando;
  • Exames de neuroimagens são confiáveis?: reportagem da revista Mente e Cérebro motivada por artigo de pesquisadores do MIT e da Universidade da Califórnia em San Diego que sugere que muitos estudos neurocientíficos que utilizam ressonância magnética funcional podem estar comprometidos por análises estatísticas inadequadas que alteram seus resultados;
  • Aids and the virtues of slow-cooked science: post espetacular de Carl Zimmer sobre a evolução do HIV e, até mais que isso, sobre “tipos de ciência” (em inglês).


a circulação do H1N1

Julho 24, 2009 § 2 comentários

Há uns dias atrás, coloquei minha avaliação sobre a quantas anda a circulação da gripe suína na mídia (a gripe suína volta à mídia). Hoje li uma avaliação publicada no Observatório da Imprensa. É um panorama bem abrangente, vale a pena dar uma olhada (acesse aqui). Eu não concordo muito com algumas coisas, acho que a primeira etapa das notícias sobre a gripe suína que circularam  na mídia  deixaram muito a desejar, como já discuti aqui.

Mas, enfim, enquanto circula o vírus, circulam também as informações sobre ele. Nesse sentido, infelizmente, a eficácia do vírus tem sido maior, já que muitas das informações que circulam são desencontradas e/ou incorretas.

Por exemplo, alguém aí já recebeu um e-mail com 43 perguntas e respostas sobre a gripe suína atribuídas a um certo “Dr. Elio Rolim, pneumologista e cardiologista”? Se não recebeu, em breve deverá receber, o troço está se espalhando quase tão rápido quanto o vírus que supostamente pretende combater. Por que supostamente? Bem, além de um português um tanto sofrível, a mensagem apresenta diversas informações erradas e algumas que parecem plantadas para incitar o pânico. E provavelmente o tal Dr. Elio não existe ou, se existe, ficará de cabelo em pé ao ver o que soltaram por aí em seu nome.

Como resolver o problema da circulação dessas porcarias na internet é questão antiga e ainda sem solução, se é que solução há. Mas um jeito bem ao alcance de todos para ajudar é fazer exatamente o mesmo que se procura fazer para combater a gripe suína: tomar cuidado para não passar adiante.

Outra forma, claro, é fazer circular as informações bem colocadas. Assim, vamos a uma seleção delas:

Médico repassa os grupos de risco nas infecções pela nova gripe: Luis Fernando Correia esclarece quais os grupos considerados de risco para a gripe suína;

Sobre a letalidade da gripe suína no Brasil: ponderações, como sempre muito esclarecedoras, de Karl do Ecce Medicus;

A gripe A H1N1 atinge até a alma: crítica excelente e bem humorada de Rafael Soares do RNAm.

Boa leitura!

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Atualização em 11/08/09: O Roberto Takata, do Gene Repórter, teve a enorme paciência de checar em fontes mais confiáveis o que está certo e o que está errado em cada uma das perguntas e respostas do e-mail atribuído ao Dr. Elio Rolim mencionado acima. Vale a pena conferir! Acesse aqui.

a gripe suína volta à mídia

Julho 22, 2009 § Deixe um comentário

Desde que o alerta da OMS sobre a gripe suína subiu mais um nível, tendo sido decretada a pandemia de fato, os sistemas de saúde em diversos países do mundo alteraram sua estratégia de combate ao H1N1. Não foi diferente aqui, até porque agora foi identificada a transmissão sustentada e elevação no número de mortes. Assim, passamos do foco na conteção para o de combate à letalidade. Somando isso à preocupação com a lotação em hospitais, o governo começou atacar mais enfaticamente a frente de disseminação de informações.

O Ministério da Saúde, na figura do ministro Temporão, está no movimento de evitar o pânico, de informar sobre as formas de prevenção, os sintomas e encaminhamentos necessários. Na última semana, usou tudo que pôde a mídia (um exemplo aqui) para apresentar orientações desde como lavar as mãos até solicitação para que as pessoas evitem os hospitais como primeira procura de tratamento.

Longo parênteses – parte 1: já começou também aquela coisa de empurrar para o outro: ouvi o ministro, em entrevista à Globo News e ao Jornal da Record, dizer que o combate à enfermidade e possíveis equívocos nos procedimentos tratam-se de responsabilidade das secretarias municipais de saúde. Tá certo que essa é mesmo a estrutura do SUS, mais focada no município. Mas até agora, pra dizer que tava tudo controlado, falava-se em uníssono. Agora que começam a pipocar mortes e tensão, começou-se a apontar pro lado…

Longo parênteses – parte 2: com toda a parafernália instalada em alguns municípios para o combate à gripe suína e a ação nacional coordenada pelo ministério, alguns absurdos continuam colocando tudo a perder. Há, por exemplo, o caso relatado por um conhecido de uma amiga (sei que parece começo de fofoca, mas a informação está documentada aqui): no Centro de Atendimento à Saúde (CASA) de Santa Cruz do Sul (RS) foi avistado um copo para uso comum no bebedouro público de um lugar por onde passam centenas de pessoas. Palavras indignadas do denunciante:

o fato agravante e irônico é que a 20 passos do bebedouro e do tal copo está um desses cartazes sobre a prevenção da gripe Influenza A (H1N1), a conhecida gripe suína (que tanto tem assustado a população), e nele consta em letras garrafais (com direito a ilustração e tudo) o aviso: “Não compartilhar alimentos, copos, toalhas e objetos de uso pessoal”.

Fecha parênteses. O lado bom dessa história toda é que, finalmente, pudemos presenciar nas últimas semanas um pouco de bom trabalho jornalístico, embora ainda intercalado com matérias que colocam mais detaque em pessoas chorando e outros sensacionalismos chatos.

De tudo que li, vi e ouvi por aí até agora, super recomendo a edição especial do programa Em Cima da Hora sobre gripe suína que foi ao ar em 18/07  na Globo News (assista aqui). O programa apresentou um excelente trabalho jornalístico, tendo abordado as diverdas frentes relacionadas ao tema. No programa, o telespectador tem a chance de compreender o panorama geral da gripe suína, identificar as semelhanças e diferenças entre essa gripe e a chamada influenza sazonal e de receber informações sobre seus sintomas e formas de prevenção diretamente de renomados infectologistas que explicam tudo muito didaticamente.

Ainda, diferentemente das muitas abordagens rasas que vemos por aí, o programa explicou simplificadamente a estrutura antigênica do vírus (a diferença entre o “H” e o “N” que dão nome ao H1N1), a estratégia de mapeamento para acompanhamento de mutações que vem sendo empregada, a relação entre a passagem do H1N1 de humanos para suínos (como já foi identificado) e a possibilidade de criação de uma cepa mais resistente do vírus, a avaliação do custo-benefício do início precoce do tratamento, as questões relacionadas à produção da vacina (a missão de descobrir a vacina é mais fácil, o problema está na produção em larga escala. Daí a possibilidade de usar outras substâncias em adjuvância – onde é que vemos essa explicação acompanhada da análise de seus prós e contras???) etc. Vejam lá, relamente vale a pena!

Um pouco mais antigo, mas também muito bom, está o artigo de David Uip,  diretor do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, no Estadão de 12/07 (leia aqui), em que analisa as ações do Ministério da Saúde e discute a questão melhor o vírus circular menos ou deixar que as pessoas criem anticorpos?

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