eu odeio palestra lida!

Setembro 2, 2009 § 8 comentários

Vou estampar uma camiseta com esses dizeres para usar na próxima reunião científica de que participar. Eu odeio palestra lida! Nunca presenciei nenhum bom exemplo da modalidade.

Como o palestrante não se toca que só ele consegue acompanhar aquele troço?!? Fica a platéia com cara de paisagem esperando a chatice acabar e o cara lá, lendo, lendo, lendo… Dá para ver que há pessoas que até se esforçam para acompanhar o raciocínio, mas a cadência do texto lido é bem diferente da do texto falado e é inevitável perder o fio da meada em algum momento. Mas o cara não está nem aí, continua lendo, lendo, lendo…

Eu sempre fico me perguntando porque cargas d’água o fulano não enviou o texto por e-mail. Sou mil vezes ler no sossego do meu lar, com pezões descalços e Miles Davis ao fundo. Ou alguém aí prefere assistir palestra lida?

E recentemente ainda tive a oportunidade de presenciar um derivado bizarro dessa modalidade. Uma espécie de inovação tecnológica da palestra lida. Acreditem se quiserem, mas o cidadão teve a pachorra de levar seu texto em pdf e projetá-lo no data show. Para ficar lendo o pdf, claro, da mesmíssima forma que lia no papel. Só que, sei lá, deve ter se sentido na obrigação de usar os recursos visuais ultra pós-modernos e se saiu com essa alternativa completamente sem noção. Não dava pra enxergar nada daquelas letrinhas. Mas o cara continuou lendo, lendo, lendo… Tenha dó!

Já que o trimestre setembro-outubro-novembro é a temporada de congressos, eu tenho uma proposta pra acabar com essa chatice que assola as reuniões científicas: quando alguém começar a ler a palestra, as pessoas levantam e vão embora. O infeliz do paletrante vai demorar para perceber. Afinal, está com a cara enfiada naquele papel e nem tem noção do que está acontecendo com a platéia. Não está nem aí para ela. E seguirá lendo, lendo, lendo… Até que algum membro da comissão de organização vai cutucá-lo para indicar o auditório vazio. É um dos sonhos que tenho!

Educação pela experiência! Não é isso que está em moda agora? Então vamos começar educando os educadores, os acadêmicos e quetais. Abaixo a palestra lida já!!!

interdisciplinaridade, intersetorialidade e outras mentiras

Julho 30, 2009 § 3 comentários

Ontem eu estava escrevendo uma matéria sobre o movimento Cidades Saudáveis e fiquei intrigada. A ideia central desse movimento está na relação com o conceito mais amplo de saúde defendido pela OMS, que a entende como “estado de completo bem-estar físico, mental e social e não simplesmente a ausência de doença ou enfermidade”. A partir disso, diversas estratégias com ênfase na promoção da saúde (em oposição às simples prevenção e/ou medicalização) foram desenvolvidas no mundo, sendo as Cidades Saudáveis uma delas.

O Canadá foi dos primeiros países a abraçar a causa, nos anos 1980. A coisa depois se espalhou por diversos países da Europa e chegou en nuestra América Latina no início do anos 1990. Por aqui tivemos algumas experiências, como é o caso de São Paulo, grande parte delas temporárias, como também é o caso de São Paulo. Mas porque uma proposta tão interessante não tem conseguido firmar-se, mesmo depois de histórias de sucesso em diversos países?

A resposta é simples e triste. Ou simplesmente triste, como preferirem. O movimento envolve a concepção de que a saúde não se promove apenas nos serviços de saúde, já que o estado de bem-estar não é só físico/orgânico, mas também mental e social. Então, para que funcione, é preciso que haja intersetorialidade no planejamento e execução de políticas públicas. Isso quer dizer que todas as políticas públicas no âmbito da cidade – sejam elas de saúde, educação, moradia ou transporte, por exemplo – precisam ser planejadas em consonância e tendo como critério o objetivo de melhorar a qualidade de vida da população.

Adivinharam? O movimento não pegou aqui no Brasil porque os órgãos governamentais não conseguiram trabalhar uma intersetorialidade verdadeira. Enquanto a coisa estava no nível do discurso e da idealização, tudo certo, tudo lindo. Mas na hora de compartilhar orçamentos e cia… [O município de Curitiba é um dos poucos exemplos felizes porque sua estrutura administrativa foi alterada: diferentes órgãos de gestão municipal (as várias secretarias e subsecretarias, por exemplo) foram agregados em coordenações funcionais,  a Lei de Diretrizes Orçamentárias foi modificada para articular orçamentos etc.]

Aí eu fiquei pensando que essa dificuldade que temos em superar a atomização do conhecimento é bem forte mesmo onde deveria ser seu centro, ou seja, a academia. Lembrei que no início deste ano, por ocasião da comemoração dos 75 anos de USP, muito do velho papo sobre interdisciplinadidade esteve em voga. Mil planos, mil projetos de interligação de tudo com tudo, discursos lindos.

Na prática, o que vemos é que aqueles que são formados em uma concepção interdisciplinar são os que mais sofrem. Por exemplo, acompanho de perto o caso de uma amiga querida com formação acadêmica em neurociências. Nos conhecemos quando eu também estava iniciando minha formação nessa área; eu mudei de rumo um tempo depois e ela seguiu adiante tendo chegado até o pós-doc. Hoje engrossa as estatísticas dos brasileiros desempregados. Ela vem prestando alguns concursos públicos para docência em universidades federais e estaduais. Mas a maior dificuldade que encontra não é nem a aprovação em um deles, mas sim conseguir inscrever-se em alguns deles.

Por que? Ora, aquele que é formado em neurociências, se bem formado, tem um quê de psicólogo, de médico, de biólogo, de terapeuta ocupacional, de  cientista da computação, de estatístico… tem que ser interdisciplinar para compreender e atuar nas ciências cognitivas! Mas aí, como faz para se inscrever em um concurso? Para uma vaga em um departamento de psicologia não dá porque ela possui graduação em biologia. Para um departamento de biologia é difícil, porque o restante de sua formação foi para uma “outra linha” e por aí vai. Irônico não? Ou simplesmente triste, como preferirem.

Nossas instituições estão com modelos super fechados, ultrapassados! E será então que o “mundo corporativo” valoriza mais esse tipo de formação? Já ouvi muito essa afirmação por aí, mas hoje penso que é uma falácia. Exemplifico com mais uma historinha. Há dois anos atrás, quando eu estava concorrendo para uma vaga em pesquisa clínica, ouvi a seguinte resposta da entrevistadora: “seu currículo é ótimo, você tem bastante experiência em pesquisa clínica e boa formação, fala os idiomas que precisamos, é articulada para se expressar etc. Mas estamos precisando de alguém com experiência em pesquisa clínica na área de neuro, porque queremos um monitor para atuar em estudos de esquizofrenia”. Fiquei radiante! Depois de 7 anos na pesquisa acadêmica entre as iniciações científicas e o mestrado em neurociências e 5 anos na pesquisa clínica em estudos de diversas áreas terapêuticas em multinacionais de grande porte, tudo o que eu queria era poder integrar as duas áreas.

Mas a entrevistadora não concordou que era possível fazer essa integração, nem que minha formação prévia em neurociências ajudaria de algo na compreensão dos mecanismos farmacológicos de medicamentos em estudo para tratamento de esquizofrenia (!!!). Uma coisa era aquela formação lá, outra coisa era a formação em pesquisa clínica. São caixinhas separadas, entende? Eu não. E acho bem triste que alguns entendam.

Vou parar com as historinhas por aqui, já que o post tá bem grandinho. Porque se fosse entrar na questão do blá-blá-blá interdisciplinar e/ou de integração dos saberes que vemos nos manuais do professor em livros didáticos de ciências, em textos sobre gestão educacional e outros quetais, a coisa iria longe. E continuaria triste.

a ciência e a veiculação da ciência

Julho 18, 2009 § 2 comentários

Uma questão que vira e mexe vem à baila é sobre a neutralidade da ciência, muitas vezes reduzida mais para a busca por identificar de quem é  a culpa sobre resultados negativos da aplicação de algumas descobertas científicas.

Li ontem o texto A confusão dos cientistas em uma das colunas da BBC Brasil. Vou transcrever só a abertura para mostrar o tom:

A ciência e os cientistas têm um objetivo único: desnortear-nos a todos. A ciência continua sem conseguir explicar o que é e como funciona a aspirina. Soltem um cientista num laboratório bem provido e ele conseguirá seu objetivo. Que é aparecer com uma novidade todos os dias nas primeiras páginas dos jornais. […]

Partindo dessa(s) pemissa(s), o autor desenvolve seu raciocínio no sentido de defender que a ciência e seus sacerdotes, os cientistas, deixam os cidadãos muito desorientados ao fornecerem informações contraditórias e/ou inúteis sobre “o que faz bem e o que faz mal”. Assim, recorre aos exemplos do ovo, da manteiga, da exposição ao Sol, da bomba atômica etc para mostrar o quanto a malvada ciência está aí mais para confundir que para explicar.

E esse é um texto no meio de outros na mesma linha. Ainda não entendo de onde saiu essa idéia de que a ciência é isso, de que o que se faz em pesquisa científica é isso, de que o método de produção do conhecimento científico é esse e de que os cientistas são seres formatados para isso. Mas é essa a ciência que normalmente é veiculada nos MCMs e, muitas vezes, também nos livros didáticos de ciências.

Já disse aqui que a coisa mais difícil hoje em dia é achar jornalismo científico na chamada “grande mídia”. O que impera são repetições de press releases, veiculação de pseudociência ou ciência má explicada e até deturpação de resultados de pesquisas científicas a partir de um recorte “cienciacionalista” (um exemplo recente está muito bem avaliado no post  Disappearing the science news de Carl Zimmer – leia comentário anterior aqui). E aí eu pergunto: a confusão na cabeça dos leitores, telespectadores e ouvintes é provocada pela ciência e seus sacerdotes, os cientistas ou pelo tipo de jornalismo científico que temos?

Não  sou da opinião de que os cientistas devam ficar à margem da discussão sobre política científica.  Também não estou querendo dizer que o cientista é o ser mais imaculado desse planeta e que a ciência é absolutamente neutra e imune às vaidades e ambições de seus atores. Seria essa uma visão bastante ingênua e aqui mesmo no blog já cutuquei algumas das falhas do modus operandi da ciência (por exemplo, nos posts cadê o debate? e picaretagem científica). Mas daí a dizer que a culpa sobre as celeumas margarina x manteiga é dos cientistas me parece, no mínimo, exagero.

Parênteses: o mesmíssimo texto foi reproduzido nO Globo e no Último Segundo. Lembremos que uma infinidade de outras coisas poderia ser publicada no lugar e optaram pela propagação dessas ideias; sintomático, não?

E já que lembrei de Kubrick esses dias, vou invocá-lo aqui de novo: o filme Dr. Fantástico (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, Inglaterra, 1964) é um ótimo ponto de partida para a discussão sobre a ciência versus a aplicação da ciência. Quem ainda não tiver visto o filme, não perca essa diversão!

uma visita espontânea à Estação Ciência – moral da história

Julho 4, 2009 § 1 Comentário

Se você teve a paciência de acompanhar, ao menos parcialmente, os 4 posts anteriores em que relatei um pouco da minha experiência como visitante espontânea à Estação Ciência, pode estar se perguntando se eu então recomendo abandonar a idéia de visitar esse museu.

A resposta é não, de forma alguma! Ainda acho que vale a pena ir à Estação Ciência, mas aconselho que aqueles que assim decidam o façam considerando o seguinte:

  • nem perca seu tempo em procurar informação no site, no blog etc. Como relatado nas partes 1 e 2, estes estão desatualizados e/ou trazem informações incompletas sobre as atrações, seus horários de funcionamento etc;
  • não vincule sua ida à expectativa de visitar uma atração em especial. Como relatado nas partes 1 e 2, pode ser bem difícil atender sua expectativa (e isso que eu nem falei das atrações que raramente estão em funcionamento, como é, e foi ontem, o caso do planetário);
  • evite ser um visitante espontâneo. Como relatado nas partes 1, 3 e 4, o visitante espontêneo sofre muitas frustrações. Parece que a melhor solução, para quem não é estudante cuja escola agenda uma visita ao museu, é juntar um grupo de amigos entre 11 e 20 pessoas para um programa coletivo.
foto

Clique na imagem para vê-la em seu contexto original.

Por fim, se você, como eu, tem intenções de conhecer o diacho do novo laboratório (ver parte 1), então terá que organizar um grupo de 11 a 20 pessoas, com idade superior a 11 anos, para atender a seção das 10 ou das 14hs e rezar para não aparecer alguma nova regra na hora.

Tô começando aqui uma campanha:

QUEM QUER COMBINAR UM DIA PRA VISITAR O NOVO LABORATÓRIO DA ESTAÇÃO CIÊNCIA PÕE O DEDO AQUI, QUE JÁ VAI FE-FE-FE-CHAAAAR!!!

Atualização 13/07/09: quem tiver interesse, pode dar uma olhada no comentário abaixo em que incluí o resultado de uma troca de e-mails com o analista de comunicação da Estação Ciência (Miguel Sitnik). Ele entrou em contato comigo em 06/07 após as postagens, mostrou-se aberto à discussão para uma melhora no atendimento ao público por parte da Estação Ciência e pediu algumas sugestões. Seguem, então, as respostas dele às minhas sugestões, em e-mail enviado em 07/07, mostrando qual o andamento das mudanças que vêm sendo aplicadas por lá.

uma visita espontânea à Estação Ciência – parte 4

Julho 4, 2009 § Deixe um comentário

Como disse no post anterior, agora conto um pouco da experiência de um visitante espontâneo que se junta a um grupo escolar com visita previamente agendada à Estação Ciência como forma de conseguir ouvir explicação de algum monitor sobre alguma das exposições.

[ou salte direto pro resumão no outro post]

Cena 1 – Ciências da Terra – Terremoto

Perguntamos a um dos monitores do setor de Ciências da Terra se poderíamos visitar o terremoto. A essa altura já tínhamos incorporado à nossa “equipe” mais uma mãe espontânea com sua filha espontânea. Éramos seis, portanto. O monitor avisou que um grupo chegaria às 12h30 e que poderíamos nos juntar a eles. Assim fizemos.

Sim, pudemos ouvir a explicação. Sim, pudemos entrar na sala que provoca a sensação de terremoto. Sim, nós e as crianças curtimos. Mas antes de qualquer coisa o monitor dirigiu-se à professora do grupo, perguntou o que desejaria que ele explicasse ao grupo, quanto tempo poderia/deveria durar a explicação etc. Os visitantes espontâneos, bicões-de-festa que eram, não pertenciam ao grupo e tinham mais era que se contentar com o enorme favor que se lhes fazia…

Cena 2 – Estação Natureza

A Estação Natureza é composta por uma sequência de seis vagões de trem instalados na área externa da Estação Ciência. No interior da instalação, o visitante obtém informações sobre os biomas brasileiros por meio de vídeos, reproduções sonoras de animais, maquetes, moldes de pegadas etc. A idéia é bem bacana e bem executada dentro do que se propõe.

Mas lembre-se que éramos visitantes espontâneas e para conseguirmos lá entrar tivemos que nos juntar a um grupo. No caso era um grupo de 28 adolescentes acompanhados de sua professora. Some a isso mais uma monitora do museu e seis visitantes espontâneas dentro do mesmo vagão com as traquitanas dos biomas. Qual o resultado?

Esse: um calor desgraçado e uma voz longííííííínqua da monitora vinda lá do fundo, fazendo referência a montagens e vídeos que só a meia dúzia de visitantes mais próximos a ela podiam enxergar.

Minha amiga e eu, uma para a outra: “Não era nessa exposição que deveria ter limite de pessoas por seção?”

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