professores: sofredores e educadores?

Outubro 15, 2011 § 4 comentários

Estava pensando em tirar a poeira do blog e escrever um pouco sobre educação motivada pela celebração do dia do professor quando recebo de um querido professor a reflexão que reproduzo abaixo (com a devida autorização).

O texto é do professor José Roberto Castilho Piqueira, atual vice-diretor da Poli-USP, diretor-presidente da Sociedade Brasileira de Automática e de quem já falei um pouco por aqui. Espero que gostem e aproveito para deixar meu carinhoso abraço a todos os magníficos professores com quem tive a oportunidade de aprender muito e querer aprender sempre mais.

Professores: sofredores e educadores? – por José Roberto Castilho Piqueira

Abro meu correio eletrônico e encontro a gentil mensagem de um velho amigo: parabéns professores, sofridos educadores, pelo seu dia. Fico feliz, mas como todo professor começo refletir sobre o escrito. Será que minha profissão é sofrida? Depois de quarenta anos de sala de aula, giz e lousa, sou educador?

Desde pequeno, ver minha mãe ensinar me fascina. Do alto de seus 93 anos, Dona Elisa ainda mostra seus fortes traços de liderança e capacidade de aprender o novo, de maneira positiva e crítica, sem qualquer traço de sofrimento originário de sua profissão. Vê-la preparar suas aulas e seus antigos flanelógrafos era quase uma magia. Até hoje, quando escrevo na lousa ou faço uma apresentação eletrônica, lembro de seu capricho e perfeccionismo.

Talvez venha daí minha constante ansiedade por dar uma boa aula. A primeira vez que fiz isso a sério foi quando estava no terceiro ano de engenharia. Um colega que tinha um curso pré-vestibular me convidou e lá fui eu, dar aulas de Física.

De lá para cá, nunca mais parei. Trabalhei na indústria, em projetos e serviços de engenharia, mas o ensino sempre foi meu maior prazer. Não sou capaz de lembrar um momento de sofrimento, originário desse trabalho. Lembro dos cursos que lecionei, das disciplinas que aprendi e, principalmente, dos amigos que fiz nessa faina.

Sou capaz de entender que, ao longo do tempo, fui um privilegiado, vivendo sempre em instituições que respeitaram meu trabalho e de meus colegas, recebendo, sempre, remuneração compatível com o esforço. Talvez esteja aí a solução para eliminar os professores sofredores: bom ambiente de trabalho, respeito e remuneração digna. Estado e mantenedores de escolas particulares poderiam retomar essa receita. Ela é simples e custa muito menos do que parece.

Falando agora de educação, não gosto de receber o qualificativo de educador, pois não tenho preparo adequado para isso. Acredito que a tarefa de educar é muito pesada para ser deixada para o professor, exclusivamente. O professor é parte do processo, mas há a família, os pais, o Estado e a sociedade civil, responsáveis por exemplos de conduta, essenciais para uma educação que privilegie o ser humano e a vida no planeta.

Não dá para um simples professor, com algumas horas divididas entre certo número de alunos, competir com a televisão ou com a internet na tentativa de transmissão de valores sociais. Será que é possível, sem ajuda da família ou do Estado, mostrar quão vazios de valores reais são os reality-shows? Ou como as profissões que requerem estudo e trabalho são tão ou mais prazerosas e rentáveis que às relacionadas ao glamour?

Por essas e por outras, querido amigo, não sou sofrido e não quero ser educador. Sou só um professor de engenharia, que espera um futuro melhor para o país, com ensino público de qualidade, com alunos e professores felizes.

Enquanto esse dia não chega, sigo meu trabalho.

Atualização em 26/10/2011: O texto do Prof. Piqueira saiu aqui e, em seguida, o Globo o colocou no lugar da coluna do Veríssimo em 23/10/11 com o título Será que é possível?

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§ 4 Responses to professores: sofredores e educadores?

  • Anónimo diz:

    Muito legal o depoimento desse colega. Leciono na escola pública no Ensino Fundamental e faço parte desses que dizem sofredores. Claro, devido aos problemas que todos conhecem. Mas concordo com o colega, pois realmente temos prazer no que fazemos, a despeito de todas as dificuldades pelas quais passamos. E é por isso que ainda persistimos no caminho.

  • Bem interessante. Mas eu nunca consegui separar as tarefas de professor e educador… acho que por isso nunca busquei meu diploma do magistério!!
    PARABÉNS.

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  • João Leonidas diz:

    Conheci o Professor Piqueira quando ainda meninos, frequentávamos o mesmo “Grupo Escolar” e depois o mesmo “Ginásio”, em Sorocaba. É mesmo um modelo de professor e de educador, embora ele mesmo não se trate como educador… Brilhante como sempre nas exposições, no raciocínio e no trato que tem com o nosso idioma. Um velho amigo, como ele se referiu no início do texto. Um grande amigo…

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