ciência em versos

Janeiro 8, 2010 § 2 comentários

Hoje, folheando a última edição impressa da revista E (online ainda não está completa) me dei conta de uma falha. Aqui no blog a ciência já apareceu em livros, revistas, jornais, filmes, sites, músicas etc, mas nunca em versos.

Para corrigir esse grave esquecimento, transcrevo abaixo o poema de Ferreira Gullar que li na revista e que me despertou para essa falha. Aproveito o ensejo para ilustrar com astroimagens do belo ensaio A Guide to Cosmos.

Universo

O que vi do universo

Galáxia NGC 4921

até hoje foi pouco

mas, se penso em quanto meço,

posso dizer que foi muito.

Sei, de ler, que o universo

é de tais dimensões

que a própria luz só o atravessa

depois de bilhões e bilhões

de anos, e que nele há

multidões de galáxias e sóis

que talvez já morreram, antes

de chegar sua luz até nós.

Deste modo, é correto dizer

que o céu que ora espio é passado

e que até pode ser que

o universo que vejo já se tenha acabado.

Mas, de fato, não vejo

a não ser nas revistas

Galáxia Andrômeda

de astronomia: o lampejo

espantoso de infinitas

constelações a brilhar

num abismo espectral e difuso

de gases e poeira estelar

que me deixa confuso.

E assim, assustado e mudo,

bem menor que um ínfimo

grão de poeira, contudo,

sou capaz de apreender, no meu íntimo,

essas incontáveis galáxias,

esses espaços sem fim,

essa treva e explosões de lava.

Como tudo isso cabe em mim?

O fato é que qualquer vasta nuvem

prenhe de sóis já mortos ou futuros

não possui consciência, esse obscuro

fenômeno surgido aqui na Via Láctea,

Nebulosa Pata de Gato

ou melhor, na Terra, e talvez

somente nela, não se sabe por que,

mas que permite ao cosmos perceber-se

a si mesmo, e ter olhos pra se ver.

Olhos que são nossos,

lentes minúsculas mas sensíveis

que captam a luz das nebulosas

vinda de espaço e tempo inconcebíveis.

É o que dizem, pois tudo

o que vejo é, à noite, apenas o brilhar

de distantes luzes no escuro.

São estrelas? planetas do sistema solar?

Somos algo recente e raro

no universo, como rara

é também a própria luz

dos sóis deste sol que nos aclara.

Todo o universo é treva.

Inalcansável vastidão escura

Nebulosa Caranguejo

dentro da qual os sóis, as explosões

de gás e luz são exceções.

O universo na sua vastidão vazia

é espaço e treva, é matéria fria

em que não há o mínimo sinal

de vida ou consciência; o que é mental

nele, ao que se sabe, está em nós,

no mínimo do mínimo existente

e o que também na treva luze é a nossa voz

inaudível no espantoso vão silente.

Vi pouco do universo: afora a asa

de luz e pó da Via Láctea, o que conheço

são as manhãs que invadem minha casa.

[Para quem não sabe, Ferreira Gullar é um espetacular poeta ludovicense (acabei de aprender no Tio Google que esse é o gentílico para os nascidos em São Luiz do Maranhão!). Bastante conhecido por seu Poema Sujo, foi um dos criadores do Neoconcretismo, ao lado de nomes como Amílcar de Castro e Lygia Clark.]

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