os cientistas incentivam uma cobertura enganosa na mídia?

Novembro 30, 2009 § 6 comentários

É coisa de final de campeonato mesmo: aos cinco minutos do segundo tempo, eis que finalmente consigo aprontar o “Ciência Traduzida” deste mês. E finalmente também mudando a fonte.

Dessa vez, o texto abaixo foi traduzido a partir do post Do scientists encourage misleading media coverage?, publicado mês passado no blog 2020 Science. O autor é Andrew Maynard, assessor para nanotecnologia e biologia sintética no Woodrow Wilson International Center for Scholars em Washington.

O post é um puxão de orelhas de cientista para cientista e gerou um bom debate no blog original. Vejamos o que vocês acham:

Os cientistas incentivam uma cobertura enganosa na mídia?

Como cientistas, gostamos de reclamar da incompetência da mídia. Como auto proclamados detentores da verdade, menosprezamos – geralmente em voz alta – a interpretação e o uso indevidos de nossos estudos preciosos. E como nós nos compadecemos unidos sobre as injustiças do mundo, é inevitável pensarmos que se os jornalistas pudessem ver o mundo como nós e registrassem isso por escrito (ou gravado), as coisas seriam muito melhores.

À exceção do fato de que nem sempre são os jornalistas os culpados pelo modo como a ciência é retratada nos meios de comunicação!

Pegue, por exemplo, este caso que chegou em meu escaninho metafórico esta manhã:

Ontem, a Universidade Texas A & M publicou uma notícia com o título “Technology may cool the laptop“. A notícia se inicia [assim]:

“O seu laptop às vezes fica tão quente que quase pode ser usado para fritar ovos? Uma nova tecnologia pode ajudar a esfriá-lo e dar à informação tecnológica uma reviravolta única”, diz Jairo Sinova, um professor de física da Texas A & M University.

Auxiliado por um pequeno vídeo, o professor Sinova, um co-autor da referida pesquisa, observa que:

Os laptops estão ficando cada vez mais potentes, mas como estão ficando mais reduzidos em tamanho, estão aquecendo muito; portanto, lidar com o aquecimento excessivo torna-se uma dor de cabeça … “Teoricamente, o calor excessivo pode derreter o laptop”, acrescenta. “Isso também desperdiça uma quantidade considerável de energia.”

Esta é uma questão importante, mas eu suspeito que a visão de laptops derretidos vai um pouco longe demais. Mas isso faz com que você fique se perguntando que incrível descoberta é esta que vai impedir os embaraçosos derretimentos de laptops […]. A resposta? O Spin Injection Hall Effect, ou SIHE – um fenômeno relativamente recém descoberto que resulta em elétrons com diferentes “spins” em um semicondutor levado a um campo magnético mensurável.

O artigo a que a notícia da Universidade Texas A & M se refere é “Spin-injection Hall effect in a planar photovoltaic cell”, [publicado] na revista Nature Physics. Ele aparece na edição de setembro da revista. É um artigo interessante e cientificamente preciso. Descreve [um] trabalho em que um dispositivo semicondutor experimental é utilizado para mostrar que o Spin Injection Hall Effect pode, em princípio, ser usado para codificar a informação no estado de spin dos elétrons e então “ler” as informações de volta.

É uma pesquisa que pode ser útil para novas formas de transmissão e armazenamento de informações no futuro.

Mas manter laptops refrigerados? Dificilmente! E certamente não é iminente.

Então o que está acontecendo aqui? Como passamos de uma bela pesquisa sobre spin de elétrons para prevenção de “queima de laptops”?

A explicação mais generosa é que, em um futuro possível, esta ciência pode apoiar tecnologias que levem a microprocessadores de baixa energia, e que isso é o que os pesquisadores ressaltaram em uma tentativa de tornar seu trabalho relevante para um público amplo. Mas isto é um salto incrivelmente enorme. É o equivalente científico de jogar na loteria – especulação ao extremo. Há uma pequena chance de que a ciência possa levar, por meio de uma longa cadeia de eventos, a microprocessadores de 12-50 anos abaixo da linha que sejam mais rápidos e mais eficientes. Mas fazer o seu MacBook Pro refrigerar? Me poupe!

Outra explicação é que a Texas A & M queria ressaltar a pesquisa – levantar seu perfil em detrimento da informação científica.

Ou talvez alguém apenas tenha segurado do lado errado do graveto – ou segurado o graveto totalmente errado.

Não tenho certeza de qual dessas possibilidades está mais perto da verdade. Mas o que está claro é que esse tipo de deturpação da ciência na fonte não é incomum, e é altamente prejudicial para a compreensão da ciência pela sociedade e para o engajamento desta para com a ciência.

Neste caso, as hipóteses e especulações por trás das reclamações sobre os laptops não foram esclarecidas, e pouco esforço foi feito para distinguir entre a ciência e as fantasias que inspirou. Como resultado, os meios de comunicação que se serviram da história simplesmente propagaram a desinformação – incluindo o Science Daily. E como muitos leitores não têm acesso ao artigo original, não têm os meios para avaliar as afirmações feitas.

Se as instituições de pesquisa deturpam a ciência em que estão envolvidas, que esperança existe para a cobertura informativa de ciência na mídia? E, mais importante, como as pessoas poderão desenvolver uma percepção bem informada da ciência e da tecnologia emergente e se engajarem em um diálogo significativo sobre o seu desenvolvimento e implementação?

Eu apóio a reflexão sobre os diferentes caminhos a que uma pesquisa pode levar. Mas fantasiar sobre suas futuras aplicações como se estivessem ali na esquina é ingenuidade, na melhor das hipóteses, e simplesmente cinismo, na pior. E o triste é que isto acaba desligando mais pessoas do processo de inovação, ciência e tecnologia – roubando-lhes a possibilidade de participar efetivamente de uma ciência e tecnologia orientadas à sociedade.

A cobertura efetiva da ciência na mídia está sob ameaça, e há muitos fatores em jogo aqui. Mas isso certamente faz com seja ainda mais importante que cientistas e instituições de pesquisa não aumentem o problema. Provavelmente estou sendo um pouco injusto ao mencionar a Texas A & M aqui – eles não são os únicos a alimentar a mídia com material questionável. Mas parece que se a comunidade científica leva a sério o bom reporte da ciência, precisa colocar sua própria casa em ordem antes de apontar muitos dedos a outros.

Afinal, jornalistas e divulgadores de ciência e tecnologia são tão bons quanto suas fontes. Lixo entra, lixo sai, não importa quão quente ou frio está funcionando o laptop!

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§ 6 Responses to os cientistas incentivam uma cobertura enganosa na mídia?

  • Para quem faz divulgação de estudos científicos (como eu, p. ex) que podem se tornar inovações tecnológicas, a leitura desse texto é essencial. Excelente escolha de tema.

  • (trecho extraído do último parágrafo) “A cobertura efetiva da ciência na mídia está sob ameaça” (Se você precisar de proteção Tati, posso chamar uns amigos…hehe!)

    Brincadeiras de lado, realmente esse é um problema dos mais antigos em relação a cientistas que divulgam seu trabalho e, muitas vezes, passam uma impressão errada do que realmente está se alcançando com o conhecimento obtido.

    Entretanto, pergunto-me se esse é um problema do próprio criador-coruja, que se força a acreditar e passar uma falsa impressão da pesquisa desenvolvida, por puro narcisismo, ou um problema advindo de agências financiadoras, que cada vez mais pendem para o lado de “ciências aplicadas e desenvolvimento de tecnologia”. Uma terceira opção seria uma combinação linear das duas anteriores, hehe!

    Para os que lêem esse tipo de notícia, sobra o censo crítico para salvá-los e alertar os que possuem um conhecimento inferior do tópico. E vamo que vamo!

    Inté!

    PS: excelente tradução/adaptação do texto, fiquei embasbacado!

  • cordovil diz:

    Muito interessante este post, Tatiana. Você colocou no blog um exemplo prático do que vimos discutindo em conversas por email e através de nossos blogs co-irmãos rs rs.
    Parabéns pela argúcia! E obrigado pela sintonia!

  • trnahas diz:

    Fer,
    tbém gostei da discussão que o Andrew colocou. Há um mês já que tinha lido e estava pra traduzir, mas…

    Joey,
    é, o negócio da ameça foi meio over… acho que para equilibrar com a combustão espontânea de laptops :) Gostei das suas reflexões sobre a origem do comportamento de autopropaganda enganosa. Narcisismo é algo quase indissociável da academia. Já sobre a pressão das agências de fomento, não sei dizer se estão de fato privilegiando dessa forma a pesquisa aplicada… será? Já ouvi muito isso, em especial no período em que estava no mestrado, mais mergulhada na academia. Mas às vezes me pergunto se não é uma espécie de lenda urbana que foi se espalhando ou a opinião de alguém que, “repetida muitas vezes, tornou-se verdade”… Eu conheço muita gente trabalhando firme e forte na pesquisa básica, com bom financiamento e sem botar fogo em laptops.

    Cordovil,
    de fato, é um exemplo do que discutíamos como, infelizmente, há diversos outros. Mas a argúcia é do Andrew, eu só traduzi :)

  • cordovil diz:

    Argúcia no localizar a notícia e publicá-la. Bem entendido. ;)

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