mudanças climáticas na mídia

Outubro 21, 2009 § 3 comentários

“Toda unanimidade é burra”. O jornalista Richard Jakubaszko repetiu a frase célebre  de Nelson Rodrigues em artigo no Observatório da Imprensa em que analisa o que chama de divulgação massiva e dogmática da mídia sobre o CO2 ser a principal causa do chamado aquecimento planetário.

Bem, concordo com o Nelsão. Já com Jakubaszko concordo parcialmente. A concordância está na opinião sobre o tão aclamado filme de Al Gore, Uma verdade Inconveniente – ô filme chato, heim! – e na observação de que o CO2 não é o único “vilão” da história como normalmente se pinta.

Para a discordância passo a palavra a Roberto Takata, do Gene Repórter, que postou a íntegra do e-mail que enviou ao Observatório da Imprensa apontando alguns equívocos no texto do jornalista. E também a Reinaldo José Lopes, no blog da Folha de São Paulo, em post-resposta ao comentário do colunista da revista Veja Diogo Mainardi (O planeta que se dane).

iconeAo ler o conjunto, lembrei de imediato de uma das mesas redondas do X Congresso Brasileiro de Jornalismo Científico, que ocorreu em Belo Horizonte semana passada.

Achei excelente a iniciativa da ABJC de dar a palavra, especialmente em um congresso de jornalismo científico que tinha como tema principal o desenvolvimento sustentável, a um dos chamados “céticos do clima”. Mas muito mais produtivo para todos seria se a mesa redonda em que o convidado palestrou integrasse também um representante científico do “outro lado”. Isso sim atenderia ao que me pareceu ser a intenção da organização do evento: possibilitar um debate genuíno sobre o tema.

Mas vamos ao que foi dito. Luiz Carlos Molion, do Instituto de Ciências Atmosféricas da Universidade Federal de Alagoas e dono de um currículo invejável na área, não só protestou contra a tese de ação antrópica nas mudanças climáticas, como também contestou a relação entre gases intensificadores do efeito estufa e clima global. Mais que isso, procurou demonstrar que nos próximos 20-25 anos haverá, na verdade, um resfriamento global decorrente do ciclo natural de atividade solar. Segundo o pesquisador, a cada 90 anos o Sol entra num mínimo de atividade, evento que está prestes a se repetir.

Não entendo patavina de climatologia e estou sempre interessada em conhecer os diversos argumentos científicos sobre cada tema justamente por saber que o debate, a contra argumentação e a tentativa de refutar hipóteses estão na essência da prática científica. Mas, apesar de gostar de acompanhar teorias da conspiração por diversão pessoal, tenho claro que “uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa”.

Assim, fiquei bem inquieta com alguns “detalhes” da apresentação, como gráficos sem desvio padrão, referências a artigos científicos sempre da mesma fonte, um trocadilho óbvio que fez com o filme de Al Gore (um doce para quem adivinhar qual foi) e uma visão mais que antropocêntrica sobre a conservação ambiental. “A conservação ambiental é uma necessidade para sobrevivência da raça humana”, disse Molion explicando porque considera importante a conservação ambiental mesmo sem a tal “ameaça” do aquecimento global.

Preparava-me para colocar alguma pergunta quando o ecólogo Thomas Lewinsohn, remanescente na platéia após palestra anterior que proferiu  no evento (detalhes em breve no próximo post sobre o congresso), perguntou a que Molion atribuía o sucesso das ideias defendidas pelo IPCC: ignorância dos cientistas que compõem o painel ou teoria da conspiração? Na mosca.

A resposta? O palestrante disse que tem certeza que tudo não passa de uma conspiração do G7 para interferir no desenvolvimento de países emergentes, como é o caso do Brasil.

Depois dessa guardei meu bloquinho e comecei a planejar onde iria almoçar. Discutir o que com quem vem com uma crença e não argumentos? Como colocou Takata em resposta ao meu comentário em seu blog, “Conspiração do G7 é ótima. Os EUA conspiraram tão bem que se *recusavam* (e ainda se recusam, mesmo com Obama) a seguir Quioto.”

Enfim, acho saudável mais discussão sobre o assunto, mas Molion não conseguiu me convencer. E logicamente você, caro leitor, tem todo direito de tirar suas próprias conclusões. Se quiser conhecer alguns dos argumentos de Molion, pode assistir em vídeo  a um trecho do debate travado no programa Conversas Cruzadas, da gaúcha TV COM, postado no You Tube (Molion e a Histeria do Aquecimento Global).

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§ 3 Responses to mudanças climáticas na mídia

  • Tatiana,
    apareça no meu blog, tem muito mais sobre ciência, sempre com bom humor… e não foi a primeira vez que escrevi sobre essa estória do CO2. Gostaria apenas de saber onde vc discorda da tese, que não é só minha, mas também do Odo Primavesi, e de outros, até do Molion, com a diferença de que nós apontamos quais seriam as outras causas do aquecimento, se é que vai ter esse “trem” aí… Primavesi escreveu comigo o tal artigo “CO2: a unanimidade da mídia é burra”: http://richardjakubaszko.blogspot.com no arqujivo do blog vc encontra um bando de artigos, desmistificando o CO2, outros sobre a floresta Amazônica, e o problema maior do planeta, que ninguém debate, que é o crescimento populacional.

    • trnahas diz:

      Olá, Richard,
      obrigada pela visita ao blog!
      Estive também lá no seu qdo li o artigo no OI. Sua netinha é linda!
      Sobre o artigo, concordo que a ênfase da cobertura jornalística a que temos assistido sobre a temática do aquecimento global está no CO2. Nesse sentido vocês trouxeram uma grande contribuição ao mencionar outros elementos, coisa que pouca gente vem fazendo.
      Mas tenho cá minhas dúvidas sobre algumas afirmações, como a de que “o CO2 não esquenta nada, mas alguns cientistas insistem em afirmar a necessidade de reduzir suas emissões.”
      De qualquer forma, como disse no post, não sou nenhuma especialista em climatologia; fico com alguns poucos consensos (eternos enquanto durem, como tudo em ciência, é claro) entre os achados dos estudos científicos. Assim, o CO2 não é o vilão, mas também não parece que possa ser “inocentado” totalmente e, então, a preocupação com a redução das emissões procede.
      Um abraço!

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