álcool, gasolina ou coluna do meio?

Setembro 19, 2009 § 15 comentários

Fonte: Associated Press Images

Fonte: Associated Press Images

O Ministério do Meio Ambiente disponibilizou essa semana duas ferramentas para que os consumidores possam avaliar os níveis de emissão de poluentes antes de decidir que carro comprar. Tratam-se da Nota Verde e do Indicador de CO2 (gás carbônico).

A Nota Verde varia numa escala de 0 a 10 e quanto maior for a nota apresentada por um veículo, menor será seu índice de emissão de poluentes (monóxido de carbono, hidrocarbonetos e óxidos de nitrogênio). O Indicador de CO2 mostra a emissão de gás carbônico por quilômetro rodado.

Os dados referem-se a modelos produzidos em 2008 e, em breve, o governo deverá disponibilizar também informações sobre emissões dos carros fabricados em 2009. A consulta pode ser feita no site do Ibama.

Com base na Nota Verde, o governo divulgou um ranking de carros  menos poluidores. A conclusão geral extraída desses dados é que o álcool pode poluir tanto quanto a gasolina e que os motores com menor potência chegam a poluir mais do que os equipamentos com maior capacidade. Esse ranking causou grande alvoroço entre os especialistas, sendo que muitos deles inclusive questionaram a metodologia utilizada para construir a base de dados.

Mas afinal, o álcool é melhor ou pior que a gasolina? Existem combustíveis realmente limpos? Qual seria um bom combustível substituto para a gasolina e o diesel em termos de sustentabilidade ambiental? Será que o destaque súbito que a gasolina recebeu frente ao álcool após a divulgação desse ranking tem alguma relação com a historinha do pré-sal? As respostas para essas indagações resolvem a questão da poluição atmosférica?

A TV Estadão organizou em 18/09/2009 um debate que contou com a participação de Alfred Szwarc (União dos Plantadores de Cana de Açúcar), André Ferreira (Instituto de Energia e Meio Ambiente) e Francisco Nigro (Escola Politécnica – USP). Me pareceu uma boa fonte de informação para começar a buscar as respostas para essas perguntas. Assista nos links a seguir: parte 1 (9min); parte 2 (12 min); parte 3 (8 min).

Atualização em 30/09/09: E depois de toda a polêmica criada, o Ministério do Meio Ambiente vai rever a Nota Verde. Leia mais aqui.

Atualização em 01/10/09: Ainda sobre a Nota Verde, aqui um interessante artigo que aponta alguns dos pontos falhos da proposta.

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§ 15 Responses to álcool, gasolina ou coluna do meio?

  • Luiz Bento diz:

    Acho essas ferramentas interessantes, mas muito incompletas. É impossível analisar o quanto é emitido por veículos pensando apenas na eficiência de consumo. Temos que pensar em todo o ciclo do combustível, quando falamos de biocombustíveis. Já é público e notório desde sempre que os carros a álcool emitem uma quantidade muito próxima aos carros a gasolina. O processo de combustão é muito parecido. O que temos que pensar é no ciclo de produção do álcool e da gasolina, o quando de CO2 e de outros gases estufa foram emitidos em cada etapa da produção. Além disso também temos que refletir sobre outros impactos como perda de biodiversidade, trabalho escravo, eutrofização do corpos aquáticos, etc.

    Por isso acho que esse tema merece uma análise mais profunda. Essa semana o Minc retrucou esses levantamentos que falavam que carros a álcool emitem tanto quanto carros a gasolina, dizendo que os as plantas incorporam todo o CO2 emitido na combustão de um carro a álcool e por isso no total os carros a álcool emitiriam mesmos co2. Isso é uma leviandade. É um chute astronômico. Os inventários são muito incompletos para afirmar isso. E outros impactos nunca serão incorporados a esta conta.

    • trnahas diz:

      Obrigada pela excelente contribuição, Luiz!!!
      De fato, pouco vemos por aí de análises sérias que considerem as emissões em todo o ciclo de produção dos combustíveis. Menos ainda a combinação disso com os demais impactos que vc bem mencionou.
      Eu acho engraçado nêgo ficar com tanto blá-blá-blá de sustentabilidade, mas nunca considerar de fato o be-a-bá dos 3 eixos.
      E concordo contigo sobre o Sr. Colete. Também acho que o ministério foi leviano demais, não só tirando da cartola esse ranking que me parece de pouca utilidade, como discutindo o assunto de forma bastante leviana, como vc apontou.

  • […] álcool, gasolina ou coluna do meio? « ciência na mídia ciencianamidia.wordpress.com/2009/09/19/alcool-gasolina-ou-coluna-do-meio; From the page […]

  • Uma questão importante também não foi levantada: a principal preocupação das está em gastar o mínimo possível para que os automóveis atinjam o limite autorizado de missão de poluentes.

    Uma vez que os modelos de motores a gasolina sao utilizados no mundo inteiro, e os limites na Uniãio Européia são mais apertados que os daqui, eles acabam sendo menos poluentes. Como carro aálcool não é exportado, o esforço deve ser apenas para que ele atenda os limites mínimos impostos pela regulamentação daqui.

    Ou seja, estamos trabalhando com marcos regulatórios, e não exatamente com a potencial sustentabilidade.

    • trnahas diz:

      Boa lembrança, Douglas!
      O fato é que os marcos regulatórios deveriam estar à serviço do “desenvolvimento sustentável”, como no exemplo europeu que vc citou, e não o contrário…

  • trnahas diz:

    Recomendo a leitura do artigo “Tiro no próprio álcool”, de Marcelo Leite, publicado na Folha de São Paulo em 20/09 e reproduzido no Jornal da Ciência em 21/09: http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=66151
    Embora o artigo também não considere as questões acima levantadas pelo Luiz Bento e pelo Douglas, já é um lampejo de reflexão racional sobre a guerrinha álcool x gasolina.

  • trnahas diz:

    Mais leituras recomendadas:

    Concorrência do pré-sal ameaça etanol: http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=66153

    Sobre o zoneamento da cana-de-açúcar e biocombustíveis: http://scienceblogs.com.br/discutindoecologia/2009/09/sobre_o_zoneamento_da_cana-de-.php

    Zoneamento agroecológico da cana: http://scienceblogs.com.br/ensaios/2009/09/zoneamento_agroecologico_a_can.php

    E também essa (22/09/09) => Ainda sobre o zoneamento “agroecológico” da cana: http://scienceblogs.com.br/discutindoecologia/2009/09/ainda_sobre_o_zoneamento_agroe.php

  • Luiz diz:

    Muito pertinente sua colocação Luiz, parabéns!
    Acho que o ranking, mesmo cheio de limitações e recheado de interesses extraambientais (será que tem hífen?) tem seu valor.
    Serve para comparar veículos – se o método tem problemas, os têm para qualquer veículo. Assim, um carro nota 7 é certamente “melhor” do que um carro nota 5.
    Mas serve sobretudo para sacudir as montadoras, já que elas sabem que o grosso da população não fará estas análises que estamos propondo. Sofrerão com os rótulos de “mais poluente”. Eu msm já ouvi de um aluno do curso de Ciências Biológicas que o pai tinha um dos carros mais poluentes (Citroen Picasso), que o convenceria a trocar por um mais eficiente (Honda Fit).

    No Fantástico deste domingo, uma irresponsável professora da USP (acho que do IAG) disse que o CO2 produzido pelos carros movidos à álcool é TOTALMENTE consumida pelos canaviais, gerando um saldo zero! Se descobrir o nome dela, prometo que vou pedir as referências…

    Luiz

  • Luiz diz:

    Achei a citação dela:

    “Esse CO2 é consumido no crescimento da planta, a cana de açúcar, então tem um balanço ali que é praticamente nulo”, ensina a professora de Ciências Atmosféricas do IAG da USP Maria de Fátima Andrade.

    Video em:

    http://fantastico.globo.com/Jornalismo/FANT/0,,MUL1311509-15605,00-CARROS+COM+MOTOR+FLEX+POLUEM+MAIS+O+MEIO+AMBIENTE.html

    Luiz

    • trnahas diz:

      O comentário foi de Luiz pra Luiz, mas vou me meter no meio :)

      Só pra dizer que os links indicados acima (sobre o zoneamento agroecológico da cana) são do excelente blog que o Luiz escreve com outro ecólogo e esses posts são dele. Vale a visita lá, esses posts estão preciosos!

    • Luiz Bento diz:

      Realmente essa colocação é uma piada Luiz, ainda maias vinda de uma Professora da USP. Esse argumento foi o mesmo usado pelo Minc, mas eu esperava algo mais profundo vindo dela.

      O ciclo da cana é muito complexo e as saídas de gases estufa ainda mais. Pensemos na heterogeneidade dos canaviais. Boa parte do brasil ainda queima a cana para facilitar a colheita, o que altera o ciclo de emissões de gases estufa pela cana de 2 maneiras. A primeira é a emissão direta de CO2 pela combustão da cana e a segunda, ainda mais importante, é a emissão de N2O. Esse gás tem um potencial estufa 310 vezes maior do que o CO2. Isso sem contar a lixiviação de nutrientes para corpos aquáticos que pode contribuir não só com aquecimento global, mas com a perda de biodiversidade dentre outros fatores.

      Claro que tem termos de qualidade do ar a queima de álcool apresenta vantagens em relação a queima da gasolina (isso depende muito do composto em questão, mas em geral é fato). Mas não podemos só levar isso em consideração. Não podemos transformar nem a qualidade do ar, nem o aquecimento global como o nosso único problema. Diminuir a concentração de gases estufa a qualquer custo, sem investimento em pesquisa básica, pode fazer com que a situação piore.

  • Luiz diz:

    A profa.do IAG respondeu minha solicitação de artigos que falem sobre este tal balanço nulo. Ela me mandou dois textos em pdf que poderia disponibilizar para continuarmos a discussão. Alguma sugestão? Tati, há alguma forma de vc colocar isto no blog sei lá…?

    • trnahas diz:

      Oi, Luiz.
      Ôpa, legal que ela mandou material, vamos ver do que se trata! São pdfs que não estão na web, é isso?
      Se tiver na rede, vamos colocar o link aqui, lemos e seguimos no debate/cpmpreensão do tema!
      Se não, manda pra mim por e-mail, eu leio por esses dias e de repente posto alguma coisa sobre isso por aqui.
      Tô curiosa agora pra ver como ela justifica a ideia!
      Beijão!

  • Andre diz:

    Achei muito interessantes este post.

    Parabéns pelo site

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