interdisciplinaridade, intersetorialidade e outras mentiras

Julho 30, 2009 § 3 comentários

Ontem eu estava escrevendo uma matéria sobre o movimento Cidades Saudáveis e fiquei intrigada. A ideia central desse movimento está na relação com o conceito mais amplo de saúde defendido pela OMS, que a entende como “estado de completo bem-estar físico, mental e social e não simplesmente a ausência de doença ou enfermidade”. A partir disso, diversas estratégias com ênfase na promoção da saúde (em oposição às simples prevenção e/ou medicalização) foram desenvolvidas no mundo, sendo as Cidades Saudáveis uma delas.

O Canadá foi dos primeiros países a abraçar a causa, nos anos 1980. A coisa depois se espalhou por diversos países da Europa e chegou en nuestra América Latina no início do anos 1990. Por aqui tivemos algumas experiências, como é o caso de São Paulo, grande parte delas temporárias, como também é o caso de São Paulo. Mas porque uma proposta tão interessante não tem conseguido firmar-se, mesmo depois de histórias de sucesso em diversos países?

A resposta é simples e triste. Ou simplesmente triste, como preferirem. O movimento envolve a concepção de que a saúde não se promove apenas nos serviços de saúde, já que o estado de bem-estar não é só físico/orgânico, mas também mental e social. Então, para que funcione, é preciso que haja intersetorialidade no planejamento e execução de políticas públicas. Isso quer dizer que todas as políticas públicas no âmbito da cidade – sejam elas de saúde, educação, moradia ou transporte, por exemplo – precisam ser planejadas em consonância e tendo como critério o objetivo de melhorar a qualidade de vida da população.

Adivinharam? O movimento não pegou aqui no Brasil porque os órgãos governamentais não conseguiram trabalhar uma intersetorialidade verdadeira. Enquanto a coisa estava no nível do discurso e da idealização, tudo certo, tudo lindo. Mas na hora de compartilhar orçamentos e cia… [O município de Curitiba é um dos poucos exemplos felizes porque sua estrutura administrativa foi alterada: diferentes órgãos de gestão municipal (as várias secretarias e subsecretarias, por exemplo) foram agregados em coordenações funcionais,  a Lei de Diretrizes Orçamentárias foi modificada para articular orçamentos etc.]

Aí eu fiquei pensando que essa dificuldade que temos em superar a atomização do conhecimento é bem forte mesmo onde deveria ser seu centro, ou seja, a academia. Lembrei que no início deste ano, por ocasião da comemoração dos 75 anos de USP, muito do velho papo sobre interdisciplinadidade esteve em voga. Mil planos, mil projetos de interligação de tudo com tudo, discursos lindos.

Na prática, o que vemos é que aqueles que são formados em uma concepção interdisciplinar são os que mais sofrem. Por exemplo, acompanho de perto o caso de uma amiga querida com formação acadêmica em neurociências. Nos conhecemos quando eu também estava iniciando minha formação nessa área; eu mudei de rumo um tempo depois e ela seguiu adiante tendo chegado até o pós-doc. Hoje engrossa as estatísticas dos brasileiros desempregados. Ela vem prestando alguns concursos públicos para docência em universidades federais e estaduais. Mas a maior dificuldade que encontra não é nem a aprovação em um deles, mas sim conseguir inscrever-se em alguns deles.

Por que? Ora, aquele que é formado em neurociências, se bem formado, tem um quê de psicólogo, de médico, de biólogo, de terapeuta ocupacional, de  cientista da computação, de estatístico… tem que ser interdisciplinar para compreender e atuar nas ciências cognitivas! Mas aí, como faz para se inscrever em um concurso? Para uma vaga em um departamento de psicologia não dá porque ela possui graduação em biologia. Para um departamento de biologia é difícil, porque o restante de sua formação foi para uma “outra linha” e por aí vai. Irônico não? Ou simplesmente triste, como preferirem.

Nossas instituições estão com modelos super fechados, ultrapassados! E será então que o “mundo corporativo” valoriza mais esse tipo de formação? Já ouvi muito essa afirmação por aí, mas hoje penso que é uma falácia. Exemplifico com mais uma historinha. Há dois anos atrás, quando eu estava concorrendo para uma vaga em pesquisa clínica, ouvi a seguinte resposta da entrevistadora: “seu currículo é ótimo, você tem bastante experiência em pesquisa clínica e boa formação, fala os idiomas que precisamos, é articulada para se expressar etc. Mas estamos precisando de alguém com experiência em pesquisa clínica na área de neuro, porque queremos um monitor para atuar em estudos de esquizofrenia”. Fiquei radiante! Depois de 7 anos na pesquisa acadêmica entre as iniciações científicas e o mestrado em neurociências e 5 anos na pesquisa clínica em estudos de diversas áreas terapêuticas em multinacionais de grande porte, tudo o que eu queria era poder integrar as duas áreas.

Mas a entrevistadora não concordou que era possível fazer essa integração, nem que minha formação prévia em neurociências ajudaria de algo na compreensão dos mecanismos farmacológicos de medicamentos em estudo para tratamento de esquizofrenia (!!!). Uma coisa era aquela formação lá, outra coisa era a formação em pesquisa clínica. São caixinhas separadas, entende? Eu não. E acho bem triste que alguns entendam.

Vou parar com as historinhas por aqui, já que o post tá bem grandinho. Porque se fosse entrar na questão do blá-blá-blá interdisciplinar e/ou de integração dos saberes que vemos nos manuais do professor em livros didáticos de ciências, em textos sobre gestão educacional e outros quetais, a coisa iria longe. E continuaria triste.

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§ 3 Responses to interdisciplinaridade, intersetorialidade e outras mentiras

  • Fabio Carvalho diz:

    Muito interessante suas colocações, adorei.

    Fabio Carvalho, Mestrando em Saúde Pública e tentando entender a intersetorialdiade.

  • Christiane Souza diz:

    Adorei a forma didática que abordou o assunto. Certamente uma visão que ainda não tinha lendo outros textos.

  • Edna Kobori diz:

    A intersetorialidade pode não existir na prática ainda. Mas se a negarmos ela nunca existirá. A “culpa” não é da intersetorialidade, é das pessoas que têm mentes estreitas ou das que desistem dela…

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