e esse papo todo de gripe suína, heim?

Junho 3, 2009 § 2 comentários

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O vírus H1N1. Fonte: Centre for Disease and Prevention via The New York Times.

Nos dois últimos meses fomos bombardeados por notícias sobre a gripe suína nos mais diversos meios de comunicação de massa. Vimos o nível de alerta da Organização Mundial de Saúde (OMS) subir algumas vezes, soubemos do contigenciamento em aeroportos e cia com a finalidade de impedir que o vírus causador se espalhasse pelos quatro cantos da Terra, aprendemos que o nome correto da enfermidade é influenza A (H1N1), ouvimos discussões sobre o uso ou não de máscaras, soubemos que o Ministério da Saúde está preparado para combater a epidemia, monitoramos diariamente a evolução da cura dos brasileiros acometidos pelo vírus, soubemos que alimentar-se de carne de porco não é uma das formas de contágio da doença, tomamos conhecimento da chegada dos kits que permitem a identificação do vírus etc.

Mas pouco aprendemos sobre o que é o vírus, qual a sua relação com os porcos, porque tanta preocupação com esse tipo de gripe em especial, como funcionam os exames que identificam o vírus, como a OMS monitora as diversas enfermidades do globo, qual a real taxa de letalidade desse vírus e sua comparação com a do vírus que provoca a gripe comum, como é o processo de desenvolvimento da vacina etc etc etc.

E de repente… um quase silêncio na mídia antes que a população, inicialmente super alertada sobre o eminente risco de uma pandemia, pudesse tomar conhecimento de alguma informação mais robusta sobre essa gripe e o vírus causador. O resultado imediato é o que se vê agora: uns acham que foi exagero de cientistas e administradores de saúde, outros não descartam a recorrente teoria da conspiração de que tudo isso não passou de uma forma de ajudar a indústria farmacêutica a se recuperar da crise econômica mundial, outros ainda acham que os governos estão escondendo alguma informação e o pior ainda está por vir e há os que já fazem circular as frequentes piadinhas nos “e-mails da firma” (outro dia recebi uma assim: quem morre de gripe suína vira espírito de porco?).

Ou seja, mais um deserviço da mídia, nada preparada para abordar assuntos de ciência. Até quando os grandes veículos de comunicação vão negligenciar esse importante serviço? Retiro da crítica o Jornal New York Times, sempre excelente na divulgação científica (links para alguns artigos selecionados sobre o tema: 10 genes, furiously evolving, Worry? Relax? Buy face mask? Answers on flu, Clearing up flu confusion, A long search for universal flu vaccine).

Aqui no Brasil, por sorte temos uma moçada blogueira a fim de cobrir essa lacuna, coisa que vem fazendo com excelência. Um exemplo é o pessoal do Science Blogs Brasil, um condomínio de blogs que aborda a ciência sob seus mais diversos enfoques. No blog Rainha Vermelha, que integra esse condomínio, o biólogo Átila Iamarino explicou a gripe suína como os mais experientes e respeitados veículos de comunicação não chegaram nem perto de fazê-lo. Quem duvidar, pode visitar esses três posts aqui e depois duvido que não passe a visitar o blog com frequência: O que você precisa saber sobre a gripe suína, O que torna um vírus da gripe mais letal do que outros, A origem do influenza A H1N1 ou gripe suína.

É presenciando mais um péssimo desempenho da mídia em seu papel mínimo que fico me perguntando porque raios existe essa reserva de mercado para que apenas aqueles diplomados em jornalismo atuem nos grandes jornais e afins. Vejo muita gente formada em ciência se saindo muito melhor; foi-se o tempo em que cientistas não tinham o “dom da comunicação”, se é que isso foi verdade algum dia. E já que os ditos comunicadores não têm se esforçado minimante em estudar um tiquinho que seja antes de apertarem o send de suas matérias, talvez devessem deixar esse espaço para quem está interessado em usá-lo bem. A população agradece.

Ainda sobre a gripe suína, outras excelentes fontes de informação são:

Página especial do Ministério da Saúde;

FAQ da World Heath Organization/ OMS (em inglês);

Especial da ScienceDevNet (em inglês);

Síntese de Doença sobre a Influenza organizada pela divisão de Assistência Médica e Ciências da Thomson Reuters (em inglês).

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§ 2 Responses to e esse papo todo de gripe suína, heim?

  • Excelente o seu artigo. Parabéns. Voltarei novas vezes para agregar conteúdo.
    Mas segue um texto para reflexão. Aí vai:
    INFLUENZA, NECESSÁRIA REFLEXÃO
    Seria surpreendente, caso fosse possível, tratar aqui, nessas poucas linhas, das diretrizes políticas e econômicas adotadas por cada um dos países após o estouro da última crise econômica mundial. Mas, diferentemente do tamanho da crise, o espaço aqui é pouco, e por isso parte desse texto será dedicado a questões diretamente relacionadas à forma com que alguns órgãos e a sociedade estão encarando determinadas questões provenientes do vírus influenza A (H1N1), popularmente conhecido como gripe suína.

    Então, vamos lá. Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), a pandemia de gripe de 2009 – inicialmente designada como gripe suína e em abril de 2009 como gripe A – é um surto global de uma variante de gripe suína cujos primeiros casos ocorreram no México em meados do mês de março de 2009 e começou a se espalhar por vários países. Com isso, tornou-se comum entre os povos chamar a doença de gripe suína, sendo que os especialistas preferem denominá-la de influenza A (H1N1).

    Em decorrência disso, aqui no Brasil, nasceu uma grande controvérsia sobre as ações e postura do Ministério da Saúde e da grande maioria dos veículos de comunicação no trato do assunto. Tudo porque, em meados do mês de abril, o Ministro da Saúde, José Gomes Temporão, divulgou nota informando que o Brasil havia intensificado o monitoramento nos aeroportos para evitar a entrada de pessoas infectadas pelo vírus da gripe suína, nos vôos procedentes do México e dos Estados Unidos.

    Foi a partir dessa nota que a situação se complicou. Haja vista que enquanto parte da imprensa e da população viu na nota uma excessiva precaução, uma outra, também composta por integrantes do chamado quinto poder e por uma outra parte do povo brasileiro, ficou surpreendentemente preocupada com a possibilidade de possíveis consequências mais graves.

    Agora, passados três meses do primeiro pronunciamento do Temporão, a polêmica permanece, só que com traços diferentes, pois os números oficiais indicam a existência de centenas de brasileiros contaminados, alguns óbitos e a indicação de que o vírus H1N1 já circula livremente pelas bandas tupiniquins.

    A cada dia que passa a polêmica cresce, mas mantém seu contorno inicial. Principalmente porque a grande maioria dos “nossos” jornais, revistas e redes de TV´s continuam apenas divulgando as ações, linha e números apresentados pelo Ministério da Saúde brasileiro, sem nenhuma demonstração de aprovação, repúdio, contestação ou crítica à tal postura. Desta forma, cresce ainda mais as insatisfações dos que condenam a passividade evasiva dos considerados “formadores de opinião”.

    Assim sendo – por falta de informações mais concretas e abrangentes, além de orientações práticas e objetivas -, é que o povo brasileiro de uma forma geral, não está conseguindo debater o assunto com a calma e a profundidade que ele aparentemente requer e necessita. Apenas a “sociedade virtual”, composta em sua grande maioria por “blogueiros”, é que desde o início provoca a chama do debate que mantém acesa a luz da necessária reflexão sobre tão importante assunto.

    Em decorrência dos inúmeros e diários posicionamentos via internet, mesmo sendo alguns a favor e outros contra, sobre a postura e métodos do governo brasileiro e dos famosos veículos de comunicação, é que a “sociedade virtual” vem conseguindo tirar suas conclusões sobre como o povo deve se relacionar, conviver e se precaver dos possíveis males oriundos do H1N1.

    Enquanto isso acontece na virtualidade, os concretos jornais e TV´s continuam apenas divulgando frios números, sem nenhuma possibilidade de uma reflexão mais profunda ou formação de opinião que auxilie a grande massa de brasileiros na escolha da conduta correta frente a pandemia ou epidemia, seja lá a denominação que queiram dar, causada pela gripe suína. Resultado: parte da sociedade brasileira não está nem aí para a questão e outra vem apresentando perplexidade e medo.

    Tendo como base todos esses fatos e hábitos, é impossível alguém se furtar das seguintes interrogações: será tudo isso uma questão cultural, excesso de precaução ou falta de responsabilidade?

    EDILSON DINIZ – http://www.epmcomunicacao.blogspot.com

    • trnahas diz:

      Olá, Edilson.
      Obrigada pela visita ao blog e pela interessante contribuição.
      Estou justamente preparando um post mais atual sobre a cobertura da gripe suína, já que estamos vivendo agora uma segunda etapa nas ações de políticas públicas de saúde com relação à expansão do vírus, e seu texto está diretamente relacionado.
      Volte mais vezes, será um prazer compartilhar esse espaço para o debate sobre a veiculação da ciência na mídia. Peço apenas que no próximo encontro você inclua o link para o texto em lugar de agregar o texto completo, assim conseguimos um visual mais fluido nos comentários, ok?
      Abração e até breve!

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