o discreto charme das partículas elementares

Dezembro 9, 2008 § Deixe um comentário

particulas

Já falei em post anterior que o livro “O discreto charme das partículas elementares”, de autoria de Maria Cristina Batoni Abdalla e publicado pela Editora Unesp em 2006, é uma interessante abordagem de divulgação científica da física de partículas que procura trazer para o público leigo um pouco de esclarecimento sobre o histórico das descobertas associadas a esse tema e sobre seu papel no conhecimento científico atual. O projeto reconhece que as partículas constituem um assunto abstrato e opta por representá-las com excelentes e divertidas ilustrações de Sérgio Kon, como a reproduzida acima, ao invés das tradicionais e chatíssimas bolinhas ou das complexas equações matemáticas que as descrevem. Ou seja, ponto positivo para o livro! Mas...

… em conjunto foi produzido um documentário que procura retratar fielmente o livro e esse é, a meu ver, o ponto negativo do projeto. O documentário foi exibido há um mês na TV Cultura e está disponível no site da emissora. Quem estiver em São Paulo, poderá ainda assistir ao documentário como parte da conferência que Maria Cristina irá proferir dia 13/12 às 15hs na exposição Einstein. Mais informações no site da exposição ou no site da Revista Pesquisa Fapesp que organiza o ciclo de palestras.

O documentário é divido em 5 blocos que totalizam quase 45 min, tem dois adolescentes como personagens principais que conduzem a narrativa do filme, entrevista com dois pesquisadores sobre o LSI, um momento musical e até participação de Marcelo Tas. Do que foi que não gostei? Bem… acho que é justamente isso: o filme procura retratar fielmente o livro, quase um livro na tela. Ou seja, fica chatíssimo!

O eixo condutor do filme são duas aulas de física. Aulas mesmo, com quadro de giz, professor detentor de todo o conhecimento explicando o funcionamento do mundo para os alunos… Até chamada oral tem! Meio disfarçada de programa de auditório apresentado por Marcelo Tas, revisa os conceitos apresentados no bloco anterior por meio de perguntas ao infeliz do adolescente que fica lá recapitulando: “os glúons são.. tá-tá-tá… os léptons são…”. Lembrei de uma estratégia comum agora dos livros didáticos de ciências: para disfarçar os exercícios de simples memorização de conteúdo (afinal a avaliação do PNLD tem pego no pé das editoras por isso), os autores colocam palavras cruzadas no final do capítulo. Ora, só pq não tem a pergunta decoreba bem direta do tipo “o que é um dêuteron?”, não quer dizer que não seja uma estratégia de simples memorização colocar “partícula subatômica constituída por um próton e um nêutron” e um espacinho de 8 letras para o aluno completar…

Enfim, achei este uma volta àqueles filmes didáticos chatos que torturaram (e ainda torturam) muitos jovens presos nos bancos escolares. Mas com o controle remoto na mão, duvido que algum fique lá na aulinha… Dá pra fazer um filme didático e/ou um filme de divulgação científica legal que ao mesmo tempo preze pelo rigor dos conceitos que se deseja trabalhar? Claro que dá e exemplos há muitos! Só pra falar de outro brasileiro: Ilha das Flores, dirigido e roteirizado por Jorge Furtado é ó-ti-mo! (assista aqui) Qual a diferença? Bem, basicamente ele usa os recursos da linguagem audiovisual para fazer um audiovisual e não trasncreve um livro na tela…

Enfim, dá para aprender alguma coisa sobre as partículas elementares nesse documentário? Sim, sem dúvida! O filme fala da importãncia das partículas, explica o Modelo Padrão, procura trazer o tema para o cotidiano do leigo e até faz algo infelizmente raríssimo em materiais de divulgação científica: mostra a ciẽncia como uma construção coletiva que lida com “verdades” provisórias. Mas para ver tudo isso, o espectador tem que realmente querer ver isto, tem que se obrigar a ficar lá, vencer o forte impulso de mudar de canal ou clicar outro site… A verdade é que nesse caso é muito melhor ler o livro, que é bom, e deixar a tela pra outras coisas construídas em “linguagem de tela”.

O que chateia é essa insistência em investir grana pública em coisas chatas que logo vão ficar mofando em alguma prateleira. Como já disse o Millôr: “ô país!”.

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