crise não, mudança!

Outubro 18, 2013 § 1 Comentário

blog_or_not

O Roberto Takata já está na quinta postagem de sua série “Há uma crise nos blogs brazucas de ciências?”. A pergunta foi lançada há 15 dias (veja aqui um resumão dos capítulos prévios) e, se de fato crise havia, como ele procura indicar numericamente na última postagem, claro ficou que ninguém estava desconectado. A reação foi imediata: com debates no Facebook (fechados para muitos, mas parcialmente reproduzidos aqui), posts em blogs (como este do Atila Iamarino – que inclui essa figura fantástica, este do Roberto Berlinck e outros tantos listados aqui), debates bem interessantes no Twitter com uma nova hashtag criada especialmente para este fim (#blogciencia), uma listagem de blogs de ciência em português que estão fora do Science Blogs Brasil e até um bolsão de blogs.

Ou seja, tô pegando o bonde andando, talvez quase novamente estacionado, mas queria discordar: não vejo essa crise. Tá, os números garimpados pelo Takata mostram um padrão mais geral de redução no ritmo de postagens nos blogues de ciência brasileiros (desde 2008, mas principalmente desde 2012). o Luiz Bento lembrou dos números relacionados aos blogs de ciências que estão vinculados ao Research Blogging publicados nesse nosso artigo, que mostram que a tal queda de produtividade não é exclusividade brasileira. Também levantou-se a talvez redução no ritmo de surgimento de novos blogs. E como culpados da crise foram apontados principalmente a mudança de atividade de muitos blogueiros, que teriam mais tempo quando da criação de seus blogs por estarem em início de pós graduação, e/ou uma possível migração da “atividade” de divulgação científica para o Twitter e Facebook, dada sua maior agilidade de comunicação/ integração com outros internautas.

Separo abaixo aquilo que concordo dentre o que consegui acompanhar até agora:

  • o Kentaro Mori levantou muito bem que “são raríssimos os autores que conseguem manter uma produção estável por longos períodos sem uma motivação financeira, em qualquer meio”;
  • o Carlos Hotta ponderou que “o Facebook induz a engajamentos diferentes e a postagens diferentes [que o possível num blog]. Principalmente, as coisas somem depois de algumas horas/dias e nunca mais aparecem. É um conteúdo efêmero que nem sempre é interessante. Ainda sobre divulgação científica via Facebook, o Roberto Takata lembrou que “uma grande desvantagem do conteúdo do FB é que fica oculto sob signwall. E o mecanismo interno de busca é uma lástima.”;
  • também sobre essa oposição, diz a Maria Guimarães: “não concordo com a oposição facebook/blogs, são coisas distintas. O facebook, vê-se aqui, é a mesa de bar do blog. precisa ver em conjunto. Na Pesquisa Fapesp a página do facebook é um bom complemento ao site.” [...] “Talvez o facebook e o twitter bastem para aqueles que abriam blogues pra reproduzir conteúdo ou dar uns palpites. sobrou quem quer mesmo escrever.”;
  • e uma espécie de síntese disto tudo, dita pelo Roberto Takata: “eu aposto mais em um ecossistema de blogues/mídias sociais. Cada qual com suas peculiaridades e objetivos.”

Tenho dificuldade em traduzir esse panorama como crise. Talvez esteja sendo muito simplista ou muito ingênua (ou ambos…), mas vejo tudo rolando muito dentro do normal. Acho normal as pessoas experimentarem ferramentas quando elas surgem e haver um pico de uso seguido de uma redução. Assim, me parece normal tanto que muitos blogs sejam interrompidos quanto que novos blogs deixem de ser criados. Também acho normal a redução do ritmo de postagens entre aqueles que mantêm os blogs por reconhecer valor na ferramenta: conforme a ferramenta se torna mais familiar ao usuário, mais específico é o uso que dela se faz. Assim, o blog passa a se destinar a postagens mais elaboradas, mais reflexivas, mais referenciadas. As quais, naturalmente, demandam mais tempo e ocorrem com menor frequência. O surgimento de ferramentas complementares, como o Twitter e o Facebook, permite livrar o blog das referências rápidas, das meras citações e/ou indicações. Se é só pra dizer “que bacana esse link”, “que interessante esse vídeo”, “que intrigante esse artigo”, “veja esse infográfico” ou “adorei essa foto” basta um link. E, portanto, basta o Twitter, não precisa do blog.

Por exemplo: em 2009, postei isso no blog. Hoje, eu colocaria esse tipo de coisa dessa mesma forma no Twitter, ou colocaria no blog dessa outra forma. Então não acho que os blogs estejam morrendo por conta dessas novas ferramentas. Assim como não acho que os blogs estejam morrendo. Só acho que estejam mudando de cara, como me parece ser natural acontecer com qualquer mídia. E isso vale para qualquer tipo de blog, os de ciências inclusos.

Agora, um ponto que eu acho importante de considerar nessa reflexão é que, embora os blogs sejam uma ótima alternativa para atividade de divulgação científica de qualidade, especialmente para aquela que pode ser feita de forma não necessariamente vinculada a uma instituição (seja ela científica ou jornalística), ainda há muito preconceito com relação aos blogs. Editoras de livros didáticos, por exemplo, raramente aceitam que você indique um texto de um blog. Pode ser texto de livro, de jornal, cordel, revista, HQ, o escambau, desde que não esteja publicado no local que ainda muitos consideram como sendo de “diários de menininhas”. Com raras exceções para textos de “sumidades” da área. Por exemplo, um texto da Mayana Zatz no blog dela é considerado ok (ainda assim é capaz de você ouvir, como eu já ouvi, de um editor: “mas ela publicou um livro recentemente, não dá pra usar um texto de lá em vez de ser esse do blog?”). Se você insistir, explicando o que tem de especial nesse texto que você gostaria de usar em uma atividade didática, como eu já insisti, até consegue o aceite nesse caso. Mas porque o blog da Mayana não é um blog assim “solto por aí”, é um blog que está hospedado em revista do grupo Abril.

Só que muitos outros blogs são preciosas fontes de informações atuais e acuradas. Alguns exemplos de posts que tenho usado em minhas aulas no ensino médio como ótimos facilitadores do trabalho:

  • Vida sem luz – este texto do Luiz Bento aborda de forma simples e direta o processo de quimiossíntese, tema que geralmente merece apenas uma nota de rodapé nos livros didáticos de biologia, mas que pode ser tão interessante para a compreensão da biodiversidade também em termos da diversidade metabólica;
  • O Karl fez uma série fantástica – Design inconsequente – que uso numa atividade para comparar o sistema respiratório de aves e de mamíferos, em especial humanos. Quero que alguém me indique um livro do ensino médio que faz esta análise comparativa, mostrando a eficiência de um sistema respiratório em relação ao outro e ainda com um olhar médico sobre o nosso caso (o nosso ensino é todo segmentado, inclusive dentro de uma mesma disciplina, e depois a gente reclama que os alunos não montam o quebra-cabeça!), tudo isso em linguagem simples e em abordagem divertida;
  • A calvária e o dodô – este texto do Carlos Hotta é uma preciosidade para qualquer aula/ atividade sobre o método científico;
  • Falando em preciosidade, veja este fantástico post do Roberto Berlinck – Geração espontânea: uma questão científica, política ou religiosa? (a propósito, este é um exemplo de post que indiquei para uma editora de livros didáticos como texto de atualização para o professor no capítulo correspondente a esse tema em um livro de biologia e… bem, é de blog, então… necas!);
  • A trilogia Superorganismo: acredite, você é! do Samir Elian é ótima para apresentar o Projeto Microbioma Humano e mostrar aos alunos que somos um ecossistema;
  • Outra trilogia, nova participação do Karl em minhas aulas: se quiser aprender e ensinar coagulação e defesa, recomendo muito!;
  • Em uma aula sobre evolução humana, este texto do Roberto Takata é ótimo para discutir a construção de narrativas a partir de registros fósseis: Neandersapiens?

Enfim, essa lista poderia ficar gigante. E, na minha opinião, com o exatíssimo mesmo peso de uma outra lista que eu poderia fazer com textos e vídeos e cia que extraio de jornais (as colunas do Fernando Reinach e as da Suzano Herculano-Houzel são ótimas!), de revistas de divulgação científica (Ciência Hoje, Pesquisa Fapesp e Scientific American Brasil são minhas preferidas em língua portuguesa), de TED-Talks e TED-Eds etc etc etc para preparar aulas, para oferecer como referência para os alunos, para abrir questões de debate e/ou questões dissertativas. Mas os blogs são menos valorizados por muitos professores, por muitos pesquisadores, por muitos editores e, certamente, menos valorizados pelas possíveis fontes pagadoras. O que cria um ciclo vicioso que retoma o primeiro ponto de discussão levantado com o qual disse concordar.

E isso é mais um dos motivos porque me parece natural que um blogueiro brazuca de ciências não poste tanto. Se ele é um cara da divulgação científica – por profissão, por hobby ou por ambos -, vai dividir seu tempo entre atividade de divulgação remunerada e atividade de divulgação não remunerada (e talvez alguma outra atividade mais, como pesquisa científica e/ou aulas e/ou estudo etc). Soma-se a isso o fato de que – que bom! – há muitas fontes possíveis atualmente. Então a “concorrência” é grande e, de novo, me parece natural que não haja um ou dois blogs como sucesso absoluto de público.

Somos todos editores do mundo; ao menos do mundo que escolhemos para ler, interagir etc. Ninguém é uma coisa só: eu não sou só o que está no meu blog, nem só o que está no meu twitter, nem só o que está no meu facebook, nem só o que está no meu Linked in, nem a soma de todos esses. E é natural, portanto, que as pessoas queiram montar seu quebra-cabeça de fontes. Não vou ler só um blog, ou mesmo só um condomínio de blogs. Assim como não vou ler só um jornal ou assistir só a um telejornal. Vou montar todo dia um mosaico. E vou tentar ensinar meus alunos a fazerem o mesmo.

Mas, pra finalmente encerrar, até agora nada supera os blogs no quesito liberdade de opinião, misturada com portifólio e rede de contatos. Agora se você quer remuneração e/ou amplo número de seguidores necessariamente acoplados a esses outros benefícios, talvez precise de outra ferramenta. Que ainda não achei qual seria (alguém achou?), mas certamente vou experimentar quando descobrir. E só então talvez abandone meu blog. Ou talvez o integre a ela.

ciência na web 2.0: divulgar, registrar e indexar

Dezembro 15, 2012 § Deixe o seu comentário

altmetrics

Há pouco mais de um ano, a Sibele Fausto contou por aqui de um painel apresentado no 13th International Society for Scientometrics and Informetrics Conference. Mais que isso, ela fez uma breve caracterização das áreas de Cientometria e Informetria. Pouco depois, o grupo original contou com mais dois fundamentais colaboradores para elaborar o artigo correlato que é tema desse post: Dave Munger, co-fundador do Research Blogging, e Fábio Machado, que orquestrou a análise e interpretação dos dados. Assim nasceu o trabalho Research Blogging: Indexing and Registering the Change in Science 2.0, publicado na revista Plos One, integrando sua Altmetrics Collection essa semana.

O trabalho visa contribuir para uma área recente da comunicação científica, sobre a qual tão bem já escreveu o Atila Iamarino, outro autor do trabalho, nesses dois posts de seu blog: Um bom artigo precisa ser citado? Métricas e Altimetrics; Redes sociais, artigos científicos e novas métricas (esse último com a íntegra da palestra que proferiu para o SciELO, bem como respectivos slides e referências).

Finalizando a auto-propaganda, fica o convite para adentrar não só no novo e em expansão universo das altmetrics, como também para abraçar a já não tão nova política de acesso aberto, de que a Plos One é uma referência obrigatória (exemplos disso no próprio artigo: repare que é possível não só baixá-lo gratuitamente, como também comentar, checar os acessos diretos e via redes sociais e acessar os dados brutos para futuras análises).

Mais sobre o tema, além dos textos do Atila:

===

Fonte da imagem: http://www.flickr.com/photos/ajc1/6795008004/

and the Oscar goes to…

Fevereiro 27, 2010 § 4 Comentários

… ainda não sabemos, mas na semana que se inicia o suspense acaba! Estou falando do Research Blogging Awards.

Temos 7 blogs em língua portuguesa dentre os finalistas (ordem alfabética):

  1. Bala Mágica (página no RB)
  2. Brontossauros em meu Jardim (página no RB)
  3. Ecce Medicus (página no RB)
  4. Evolucionismo (página no RB)
  5. Psiquiatria e Sociedade (página no RB)
  6. Psiquiatria e Toxicodependencia (página no RB)
  7. Química Viva (página no RB)

[Se o seu blog foi um dos indicados, você pode colocar o selo de "Finalista" em sua barra lateral. O código do selo pode ser encontrado neste link.]

No processo de seleção, todo o público da blogosfera científica pôde indicar os blogs para participarem da premiação. Em seguida, um grupo de jurados avaliou os indicados e selecionou a lista final para votação. No caso das nomeações de blogs em língua portuguesa, o júri foi composto pelo convidado Roberto Takata e pelos 3 administradores da versão em português do Research Blogging (Atila Iamarino, Luiz Bento e eu).

No dia 04/03/10, os blogueiros inscritos no Research Blogging receberão um convite para votarem no blog mais-mais dessa lista. Se você estiver registrado no nosso site, confira se o seu endereço de email está correto no cadastro. Se você não está registrado (e tem um blog sobre pesquisa revisada por pares), ainda tem tempo para se registrar e poder votar. Visite esta página para mais informações.

O blog mais votado receberá o prêmio de US$50,00 e o título de melhor blog em língua portuguesa dentro do Research Blogging. O vencedor será anunciado em 23/03/2010.

Para mais informações sobre a premiação, clique aqui. E aqui para conhecer as demais categorias concorrentes e respectivos finalistas.

peer review, peer reviewed

Janeiro 19, 2010 § 4 Comentários

Adorei a tagline da premiação! A peer review (revisão por pares) em questão são os blogs e posts agregados pelo site Research Blogging, que também tem versão em língua portuguesa.

O Research Blogging é um site que reúne pesquisas revisadas por pares sobre os mais diversos temas da ciência e tecnologia. Funciona assim: um blogueiro de ciências publica em seu blog algum post que constitui uma peer review, cria uma citação para o site e o post aparece também lá. O blogueiro ganha um espaço de visibilidade para sua produção e os leitores têm a facilidade de encontrar num só local as publicações de pesquisas científicas comentadas por blogueiros especialistas no assunto.

O site, uma iniciativa de @davemunger e integrante da Seed Media Group, vem crescendo rapidamente e atualmente já comporta as versões em alemão, espanhol, português e chinês, além da original em inglês (@oatila, @luizbento e eu administramos a versão em português do site). A última novidade é a premiação Research Blogging Awards 2010.

Transcrevo abaixo as informações sobre o prêmio, traduzidas a partir do anúncio oficial. E se você quiser mais informações sobre como cadastrar seu blog ao Research Blogging, consulte essa página (em português).

Research Blogging Awards 2010

A premiação do Research Blogging do Seed Media Group homenageia os excelentes blogueiros que praticam a pesquisa revisada por pares. Com cerca de 1,000 blogs registrados no ResearchBlogging.org e 8,500 posts sobre pesquisa revisada por pares já publicados, é hora de reconhecer os melhores dentre os melhores.

Qualquer blog que pratique pesquisa revisada por pares é elegível para nomeação e os vencedores serão selecionados por votos de seus pares na comunidade do Research Blogging. Todos os finalistas serão destacados no ResearchBlogging.org e os vencedores receberão prêmios em dinheiro que totalizam US$2000.

Os vencedores serão selecionados da seguinte forma:

1. Nomeações: Todos podem nomear um blog (incluindo o seu próprio) para ser considerado para a premiação, mas apenas blogs que praticam revisão por pares de acordo com nossos requerimentos serão considerados para a premiação. As nomeações serão encerradas em 11 de fevereiro de 2010. Clique aqui para nomear seus favoritos.

2. Finalistas: Um juri composto por especialistas irá selecionar entre 5 e 10 finalistas em cada categoria. Os finalistas serão anunciados em 25 de fevereiro de 2010.

3. Votação: Apenas usuários registrados no ResearchBlogging.org poderão votar para selecionar os vencedores. Para ser um usuário registrado, é preciso atender nossos requerimentos de blogagem sobre revisão por pares (clique aqui para se registrar). A votação estará aberta de 25 de fevereiro a 11 de março de 2010.

4. Prêmios: Os prêmios serão anunciados em 23 de março de 2010. Os vencedores serão selecionados a partir das seguintes categorias:

  • Research Blog do Ano $US$1,000
  • Post do Ano Year $50
  • Research Tuiteiro do Ano $50
  • Melhor Novo Blog (iniciado em 2009) $50
  • Melhor Blog Especializado $50
  • Melhor Blog para Leigos $50
  • Blog mais engraçado $50
  • Melhor Blog — Espanhol $50
  • Melhor Blog — Alemão $50
  • Melhor Blog — Português $50
  • Melhor Blog — Chinês $50
  • Melhor Blog — Biologia $50
  • Melhor Blog – Química, Física ou Astronomia $50
  • Melhor Blog – Pesquisa Clínica $50
  • Melhor Blog – Ciência da Computação, Engenharia ou Matemática $50
  • Melhor Blog – Conservação ou Geociências $50
  • Melhor Blog — Saúde $50
  • Melhor Blog — Psicologia $50
  • Melhor Blog – Filosofia, Pesquisa ou Scholarship $50
  • Melhor Blog — Neurosciencias $50
  • Melhor Blog – Ciências Sociais ou Antropologia $50

Research.Blogging agora em português

Junho 17, 2009 § Deixe o seu comentário

Já está em atividade a versão em português do Research.Blogging.

Caro leitor: Você gosta de ler sobre novos avanços científicos e em outras áreas? Está cansado da “ciência por press releases”? Gostaria de poder encontrar em um só lugar as pesquisas revisadas por pares sobre seus tópicos preferidos e postadas em blogs diversos? Então o ResearchBlogging.org foi feito para você. Clique aqui para conhecer esse espaço para boa leitura sobre ciência e aqui para ter acesso à documentação em português.

Caro blogger: Você escreve sobre ciência e gostaria que os leitores pudessem diferenciar facilmente uma postagem mais elaborada de outras mais pessoais? Conheça o Research.Blogging e veja como você pode adicionar seus posts a esse site.

Where Am I?

You are currently browsing entries tagged with Research.Blogging.org at ciência na mídia.

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 71 outros seguidores

%d bloggers like this: