operação pandemia

Agosto 4, 2009 § Deixe o seu comentário

Adoro documentários polêmicos! Esse eu vi lá no Rainha Vermelha, num dos ótimos posts do Átila Iamarino.

Seria a pandemia da gripe suína uma farsa armada para que dois grandes laboratórios farmacêuticos lucrem com o pânico? É o que procura mostrar o documentário Operação Pandemia que, se parasse por aí, não teria nada de muito original. Mas e se eu disser que o personagem principal da suposta tramóia toda é o Donald Rumsfeld, que foi secretário de defesa do Bush, vocês ficariam mais curiosos? E mais: segundo o documentário, o pânico calculadamente incitado vem desde a época da gripe aviária, que teria sido outra “pandementira”.

Bora lá, cliquem no play para podermos falar sobre a Operação Pandemia!

Pelo menos o documentário não questiona a existência do vírus e nem afirma ter sido este fabricado propositadamente para infectar os seres humanos, seja para castigar os homens maus, seja para dar mais lucros para os vilões de plantão (ah, vá dizer que vocês nunca ouviram uma dessas afirmações sobre o HIV, por exemplo?). Então ao menos o ponto de partida confere, ou seja, assume que há um novo vírus que provoca gripe e que este pode ser letal. Meno male… Vamos então às afirmações que o documentário faz:

(1) A pandemia não é tudo isso que ouvimos na mídia; as notícias são exageradas com o fim explícito de provocar o pânico. Bom, é um ponto de vista, claro. Mas para isso é preciso que todos (no mundo todo e em todas as instâncias, sejam elas de governo, de atendimento médico-sanitário etc) estejam mentido e com o rabo preso de alguma forma. Pessoalmente acho bem difícil que a OMS + os governos de todos os países do mundo + a mídia de todos os países do mundo + os médicos de todos os países do mundo etc etc estejam mancomunados e o único ser pensante e verdadeiro que sobrou na face da Terra é o cara que fez o documentário…

(2) A indústria farmacêutica está lucrando com a pandemia. É fato. Mas também é fato que: (a) indústria farmacêutica (ou qualquer outra indústria) não é ONG, organização humanitária sem fins lucrativos ou qualquer coisa que o valha. Se é ou não linda, pura e casta isso já é outra história; (b) os fabricantes dos inocentes vidrinhos de álcool em gel e os de máscaras faciais também estão enchendo as burras de dinheiro com a gripe suína (ou vocês não estão enjoados de ver entrevistas com balconistas de farmácias dizendo que nunca venderam tanto álcool em gel em toda a história da humanidade?). Isso os faz tão malvadões quanto à indústria farmacêutica?

(3) Donald Rumsfeld, a Gilead, a Roche, o governo estado-unidense e outros monstros fizeram tudo por baixo do pano na calada da noite para nos sacanear. É, o documentário apresenta as ligações entre um e outro ser maligno como se essas fossem descobertas incríveis  de informações ultra secretas. O fato é que qualquer um que quisesse saber de onde saiu o Tamiflu, quantas unidades vende, a quantas andam as ações da Roche etc poderia fazer isso. Está tudo, por exemplo, nessa reportagem que foi publicada no Estadão de domingo na página A25 (não achei  o texto no site do próprio Estadão, eu li no impresso, então o link acima é para um clipping do site do nosso Ministério de Relações Exteriores que transcreveu na íntegra a matéria sobre o químico austríaco que criou o Tamiflu).

(4) Os governos compram medicamentos sem necessidade. No caso do documentário, os números referem-se à compra de antivirais que o governo dos EUA fez para combater a gripe aviária. Mas se fôssemos transpor isso para o nosso caso atual, fomos informados que o Ministério da Saúde comprou e estocou 800 mil 9 milhões de antivirais para combater a gripe suína.  Que precisa de medicamento precisa, ué! Que os medicamentos são feitos para curar e/ou amenizar enfermidades são, ué! Que constatada uma pandemia ações médico-sanitárias precisam ser tomadas precisam, ué! Realmente não entendo qual é a dúvida aí. Isso não significa, contudo, engolir sem entender todas as ações que são tomadas. Por exemplo, essa compra foi exagerada, insuficiente ou o número está adequado às condições de temperatura e pressão a que estamos submetidos? Sendo a quantidade adequada, era melhor ter comprado ou estimulado a produção nacional, como a recém anunciada pela Farmanguinhos? As secretarias de saúde de alguns municípios estão reclamando que os medicamentos comprados pelo governo federal não estão disponíveis em suas unidades – está o governo sentando em cima do ovo ou está agindo corretamente de forma a evitar a medicação exagerada e desnecessária que poderia levar ao desenvolvimento de uma cepa mais resistente do vírus? Essas sim são questões para ficarmos atentos, para debatermos.

Em ciência é frequente ouvirmos que muito mais importante que as respostas que buscamos, são as perguntas que fazemos. Meu sonho de um mundo melhor: que essa “máxima” seja aplicada no cotidiano do ser humano.

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