cronologia de um desastre IV

Setembro 22, 2010 § 2 Comentários

E lá se vão 5 meses desde que a plataforma de petróleo “Deepwater Horizon”, da empresa British Petroleum (BP), localizada na costa da Lousiana (EUA), no golfo do México, explodiu e matou 11 funcionários, tendo naufragado 2 dias depois. Foi o início do maior desastre ambiental da história dos EUA e um dos maiores do mundo. Foi o início, também, de uma sequência de medidas desajeitadas que nos mostraram o quão despreparados ainda estamos para a exploração em profundidade de petróleo.

Atenção aos números. Foram contabilizados entre 4 e 5 milhões de barris de petróleo em quase três meses de vazamento contínuo. Ao todo, foram realizadas 15 intervenções técnicas, entre 25/04 a 21/09, até que finalmente a BP declarou ter conseguido estancar o vazamento em definitivo, cinco meses depois do início da trajédia. [O jornal New York Times organizou uma sequência cronológica de infográficos explicativos das intervenções técnicas realizadas; está muito bacana, veja aqui.]

Nos primeiros meses, muito alarde. Fotos de pelicanos encharcados de óleo circularam por todos os cantos e mídias. Aos poucos, mais ou menos na mesma proporção do espalhamento do petróleo no golfo, as notícias foram arrefecendo. Petróleo acumulado no fundo do oceano não dá o mesmo cartaz, infelizmente. Mas os ecossistemas atingidos poderão levar décadas para se recuperar totalmente. [Repare no seguinte: a imagem que abre este post, elaborada pelo jornal The New York Times, mostra como a mancha do petróleo vazado se dissipou até sumir no início de agosto. O petróleo, no entanto, não sumiu: está acumulado no fundo do oceano. Clique na imagem para vê-la ampliada em seu contexto original.]

Do “lado ambiental”, a natureza dá mais uma lição sobre o entrosamento dos elementos bióticos (seres vivos) e abióticos (fatores físicos e químicos) em um ecossistema. Vou exemplificar com alguns trechos da nota “Decomposição biológica”, publicada por David Biello na revista Scientific American Brasil deste mês (sem link):

[...] Foi surpreendente o fato de que microrganismos naturais sejam melhores que esforços humanos de limpeza, considerando que por décadas engenheiros genéticos tentaram criar um supermicróbio devorador de óleo – a primeira patente concedida para um organismo modificado geneticamente foi para um tipo de microrganismo que digere hidorcarbonetos. [...]

Microrganismos modificados geneticamente não são eficazes em parte porque um único organismo, não importa o quão aprimorado seja, não consegue superar a força de uma comunidade de organismos distintos, cada um com sua própria especialidade em consumir hidrocarbonetos. [...]

[...] Encorajar esses microrganismos a trabalhar mais é teoricamente possível por meio do uso de fertilizantes, como ferro, nitrogênio e fósforo. [...] Essa técnica, no entanto, não deve apresentar resultados no Golfo do México. [...] não se vê biorremediação em mar aberto. [...]

Dispersantes químicos, que desintegram a mancha de óleo, são talvez a única maneira de aumentar a atividade microbiana no Golfo do México. [...] O consumo do óleo pelos microrganismos, entretanto, funciona melhor próximo da água da superfície. [...] a degradação do petróleo em águas profundas vai ocorrer muito lentamente porque a temperatura é muito baixa.

É exatamente onde parte do petróleo bruto da Deepwater Horizon parece estar acumulando. Pesquisadores encontraram óleo de 800 a 1400 metros de profundidade [...]. A atividade microbiana é o único processo para dispersar óleo em profundidade. Na superfície, processos físicos como evaporação e ondas ajudam a eliminar o óleo da água.

Microrganismos devorando um vazamento do tamanho da catástrofe da Deepwater Horizon têm um lado negativo. Enquanto digerem o óleo, consomem o oxigênio da água, ameaçando asfixiar organismos aeróbicos. Medições da depleção de oxigênio semanas após o vazamento mostraram queda de até 30% na água do Golfo do México. Embora esse nível de depleção apresente pequeno impacto na vida marinha móvel, cientistas se preocupam com os efeitos anóxicos em águas profundas, onde a influência da ágau rica em oxigênio da superfície é mínima. Trata-se de uma má notícia para a degradação acelerada do petróleo, bem como para corais e outras formas de vida sésseis de águas profundas. [...]

Seja qual for o caso, o óleo vai permanecer no meio ambiente por longo tempo. Os microrganismos levam semanas, meses ou anos para degradar hidrocarbonetos [...].

Do lado político e econômico, o ser humano segue na mesma:

Veja os posts anteriores desta série aqui.

os seres mais antigos do mundo

Setembro 18, 2010 § 6 Comentários

Nesta última quinta feira ganhei de um aluno uma dessas perguntas que engasgam o professor ao mesmo tempo que o enchem de orgulho: por que as plantas podem viver milênios e os animais não?

E qual não foi minha surpresa ao encontrar essa ótima TED Talk num sábado de navegação pela web: The world’s oldest living things. A palestra é proferida por Rachel Sussman, que ao longo dos últimos 5 anos tem viajado ao redor do mundo com o intuito de registrar a resilência da vida identificando e fotografando seres vivos com mais de 2 mil anos de idade.

Achei a proposta fantástica! O trabalho, que como ela mesma classifica “é metade arte e metade ciência”, tem o dom de nos fazer refletir sobre o tempo, esse nosso eterno inimigo (será?).

E Ariel estava coberto de razão: dentre os matusaléns espalhados pelo mundo há muitas plantas, um fungo, uma super bactéria congelada em permafrost e apenas um animal (um coral de 2 mil anos de idade, um dos mais jovens da turma, localizado na costa de Tobago).

A beleza inusitada do trabalho de Sussman vem acompanhada de um alerta triste: muitos desses seres milenares agora estão sob ameaça. Por exemplo, a actinobactéria que já vive há 500 mil anos poderá ser eliminada por conta do aquecimento global se a camada de permafrost siberiano derreter!

Aprecie e reflita:

E a resposta para a dúvida, como fica? Bem, eu só sei sobre os meristemas (aqui em imagens), as “células-tronco das plantas”, e gostaria muito de receber ajuda para uma resposta mais completa. Quem se habilita?

cronologia de um desastre III

Agosto 24, 2010 § 1 Comentário

[parte I e parte II]

apareceu o debate!

Julho 31, 2010 § 2 Comentários

Quem esteve acompanhando as últimas notícias sobre ciências, especialmente na mídia impressa e internet, certamente aproveitou diversos relatos interessantes sobre a 62a. Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, que terminou ontem em Natal.

De todas as informações bacanas que li e vi por aí, o que mais gostei foi de tomar conhecimento de um novo formato de discussão que foi testado pela primeira vez nesta reunião da SBPC.

Eu já esbravejei por aqui sobre a ausência de debate em reuniões científicas mesmo nos fóruns programados para tal, como mesas redondas. É algo que, a meu ver, vai contra a essência da ciência.

Fiquei, portanto, bem contente ao ver meu desejo se tornando realidade (embora, infelizmente, não ao vivo): no “Ciência em Ebulição”, dois expositores confrontam ideias de modo similar aos debates políticos, com tempo de fala, réplica etc. E para garantir alguma ebulição, os organizadores colocaram frente a frente cientistas com ideias e resultados sabidamente contrastantes. Ou seja, os pesquisadores foram se encontrar preparados para um confronto.

Vale a pena ler os links abaixo, sobre os primeiros  “Ciência em Ebulição”:

Li nesses ótimos relatos na Ciência Hoje que os debates foram interessantes e o formato idem, embora a necessidade de alguns ajustes tenha sido verificada. Mas já parece ser um bom passo para que se possa voltar a falar em “contendas da ciência”!

Parênteses: o texto do Bernardo questionou bem “até que ponto [o debate] jogou luz sobre os aspectos da ciência do clima que dividem alguns cientistas”. Sobre esse tema, vale a leitura do último post de Marcelo Leite: Três vezes clima.

cronologia de um desastre II

Julho 23, 2010 § 1 Comentário

Veja a parte I dessa cronologia aqui.

Fonte: IG.

Fonte: IG.

Mais sobre o desastre:

Para os que curtem um pouco de humor negro, há um vídeo ironizando a sequência de trapalhadas da British Petroleum mostrando o que acontece na sede da empresa quando é derramado café na mesa de reuniões.

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