quem é “do mal”: biocombustível ou jornal?

Brinque comigo! Faz de conta que você resolveu ler algumas das principais notícias das seções de ciências/tecnologia/saúde/vida/ambiente ou qualquer combinação entre essas (tanto faz, essas divisões não funcionam muito bem mesmo). Isso nos principais jornais do país.

Faz de conta que você começou com O Estado de São Paulo e se deparou com essa manchete: Cientistas alertam para perigo do uso de biocombustíveis. Daí você resolve ver do que se trata, afinal estamos às vésperas da COP-15;  mergulhados no hip-hip-hurra do pré-sal; recém recuperados da celeuma gasolina x álcool; imersos em propagandas, produtos e campanhas “verdes” etc.

E logo na primeira frase lê que:

Uma nova geração de biocombustíveis, que deveria representar uma alternativa de baixa emissão de carbono, irá, na média, emitir mais dióxido de carbono do que a queima da gasolina ao longo das próximas décadas, diz estudo publicado na revista Science.

Termina de ler o curto e não muito esclarecedor artigo um tanto preocupado e vai atrás de mais informações. NO Globo encontra a seguinte manchete: Cientistas alertam para emissões na produção de biocombustíveis. Aqui você já começa a achar que biocombustível é “do mal” mesmo, afinal um estudo que “mostra isso” saiu na Science e foi divulgado em dois dos maiores jornais do país.

Mas faz de conta que você não tem mais nada o que fazer da vida e resolveu brincar de rastrear essa notícia por aí. Já que o artigo dO Globo cita como referência a BBC Brasil, essa é a sua próxima parada no jogo. Lá você encontra o artigo Cientistas alertam para emissões na produção de biocombustíveis e constata que é, como esperado, igualzinho ao anterior, que começa da seguinte forma:

Cientistas americanos dizem ter identificado uma “falha” nos cálculos de emissões de gases que provocam o efeito estufa que poderia ameaçar a tentativa de reduzir as emissões e incentivar o desmatamento: os acordos internacionais sobre o tema não incluem os gases emitidos na produção e uso de biocombustíveis, apesar de o processo ser grande fonte de emissões.

Nessa rodada você ganha uma interrogação: o problema está no biocombustível, na produção deste, na queima deste, no desmatamento… no quê? Salte duas casas para descobrir.

Faz de conta que você chega no jornal Folha de São Paulo, mais especificamente na matéria que tem a seguinte manchete: Biocombustível será bom para o clima, indica simulação. Heim? Mas emissões de gases intensificadores do efeito estufa não podem ser maléficas? E aquele papo todo de aquecimento global? O jeito é continuar lendo:

O medo de que uma economia mundial baseada em biocombustíveis seja um tiro pela culatra no combate ao aquecimento global não tem muito fundamento, indica um novo estudo. Simulando um futuro em que os combustíveis fósseis seriam substituídos, pesquisadores concluíram que o cenário mais provável é um em que álcool e biodiesel possam mesmo ajudar a evitar emissões de gases do efeito estufa.

Você está na rodada decisiva. Pode decifrar o enigma e ganhar o jogo ou perder tudo. Decide tirar seu inglês do baú e ir às fontes. Afinal, se todos estão falando do mesmo estudo, como você pode ter chegado a uma leitura tão esquizofrênica? O jeito é ler o artigo diretamente na Science.

A Science não é open access, volte cinco casas. E agora? Você chegou em um ponto do jogo em que não há regras. E a bola está com você: quem é “do mal”, biocombustível ou a forma como a divulgação científica é feita na nossa “grande” imprensa?

Atualização em 01/11/09: Em tempo, aqui temos uma análise mais esclarecedora sobre o referido estudo: Biofuels Come With Their Own Emission Costs.

12 Comentários »

  1. [...] quem é “do mal”: biocombustível ou jornal? « ciência na mídia ciencianamidia.wordpress.com/2009/10/23/quem-e-do-mal-biocombustivel-ou-jornal; From the page [...]

  2. Claudia Chow disse

    É… depois eu q me acho muito exigente e cheia de critérios. Por ai vejo q ninguem tem nenhum critério, sai falando o que lhe convém. E chamam isso de informação…
    Excelente post!

  3. *MUITO* bom!

    []s,

    Roberto Takata

  4. Diogo Nahas disse

    Excelente post.

    Na minha opinião o problema do efeito estufa é devido a ocorrência das queimadas, pois os biocombustíveis reduzem ou mantem o efeito estufa.

    Já as queimadas aumentam o mesmo e essas ocorrem para diversos tipos de plantações, ou simplesmente para devastar regiões de florestas.

    Diogo

  5. trnahas disse

    Olá, Clau, Roberto e Diogo!
    Obrigada pelos comentários!!!
    E Diogo, seja muito bem vindo à blogosfera científica! Que tal incluir algum post sobre esse estudo da Science lá no REATOR QUÍMICO? Assim ao menos a gente vai ter algum lugar pra ler o que de fato o raio da pesquisa mostrou…
    Beijos!

    • Diogo disse

      Olá,
      Aproveitei a sua idéia e fiz um texto sobre as reportagens que você mencionou no post.
      O texto já se encontra no blog Reator Químico: http://reatorquimico.wordpress.com/2009/10/26/biocombustiveis-verdades-e-mitos/

      • trnahas disse

        Oi, Di,
        passei por lá e deixei um comentário também. Quer dizer, uma dúvida que tenho :)
        E vc viu esse press release que saiu hoje no Futurity: http://futurity.org/earth-environment/fixable-error-undercuts-climate-laws/ ?
        Bjo

        • diogonahas disse

          Oi Tati,

          O estudo mais uma vez diz sobre as emissões de Co2 causadas pelas queimadas na produção de biocombustíveis.
          Então o grande problema não é diminuir o uso de biocombustíveis e sim fiscalizar e impedir as queimadas.
          Os biocombustíveis se comparados com os derivados de petróleo, causam impactos ambientais menores, mas não são 100% renováveis.
          Energias 100% renováveis que existem são: eólica,solar,das marés,geofísica e o hidrogênio.

  6. Bê neviani disse

    Excelente!!!

  7. Desiree disse

    Muito bom, Tatiana! É exatamente assim que me sinto quando leio as matérias! Sabe o que é pior? Como as pessoas nem sempre têm tempo para ler ou acesso a outros veículos para contrastar o que é dito sobre o assunto, acabam comprando a primeira versão logo de cara…

    Abraços

    • trnahas disse

      Pois é, quem vai ficar lendo a mesma notícia em vários lugares tentando entender o que de fato está sendo noticiado?
      E o duro é que nem os “malucos” que fazem isso conseguem de fato saber o que o estudo fala sobre o biocombustível (e tantas outras coisas mais) :)
      Abração!

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