pré-sal para comemorar a independência do Brasil?

Setembro 7, 2009 § 7 Comentários

Lula diz que pré-sal é a nova independência do Brasil – O Globo, 06/07/09

Pré-sal: patrimômio da União, riqueza do povo e futuro do Brasil – Blog do Planalto, 30/08/09

Fonte: Folha de São Paulo

Fonte: Folha de São Paulo

Como todos já devem ter percebido, o pré-sal é o novo vinagre de maçã (aqui tem um exemplo, dentre zilhões, que apresentam o vinagre de maçã como um “bálsamo dos deuses” capaz de curar e/ou prevenir todos os males).

Aliás, essa é a única coisa que falta dizer na nova propaganda da Petrobrás que tá rodando na TV. O pré-sal é a solução de todos os males. Agora que descobrimos o pré-sal, nossa, agora tudo será lindo! Afinal, a exploração da camada pré-sal pode colocar o Brasil entre as 10 maiores reservas de petróleo do mundo, u-lá-lá!!!

Isso posto, vamos então discutir a partilha dos bens. Quem tem o direito de lucrar com o pré-sal? A quem pertencem os royalties? Como dividí-los entre os estados e municípios? O pré-sal pode ser usado pra financiar a virada na educação e cultura nesse país? A verba do pré-sal deve ser investida prioritariamente em infra-estrutura?

É só o que estamos ouvindo agora. E ainda virá muito mais. Mas sempre nessa linha: partindo do pressuposto de que – agora sim! – temos uma verdadeira riqueza em mãos e só falta definir como explorar esse recurso, como ficarmos ricos e fortes, como nos prepararmos para um futuro lindo que se aproxima.

Não, gente!!! Encontramos um montão de petróleo na camada pré-sal. A pergunta que deveríamos fazer é: por quê? Ora, só encontramos porque estávamos procurando, certo? Mas porque estávamos procurando esse tipo de coisa a essa altura do campeonato? Será que não deveríamos estar investindo mais esforços humanos, econômicos e tecnológicos em outra direção?

Ontem senti uma espécie de alento ao assistir à reprise do último Globo News Painel, programa de debates comandado por William Waack todo sábado às 23h. Finalmente encontrei ideia-irmã nas palavras do economista e ambientalista Sérgio Besserman Vianna, da PUC-RJ e ex diretor do IBGE. Além dele, estavam participando do debate o economista Luiz Gonzaga Beluzzo, da Unicamp, e o cientista político Carlos Mello, professor do Insper. Recomendo muito que todos interessados em política científica, em sustentabilidade ambiental e/ou nos debates sobre o pré-sal assistam ao vídeo do programa exibido em 05/09/09 (acesse aqui). Lá estão ideias sobre a epopéia do pré-sal que não vemos circulando por aí.

Vejam, não quero ir só pro lado “ecológico” não. Ok, a relação direta entre a exploração e queima de combustíveis fósseis com a emissão de gases intensificadores do efeito estufa já foi mais do que estabelecida. Com base nisso, ambientalistas vêm bradando aos quatro ventos que petróleo polui e que com a exploração do pré-sal vamos sujar o ambiente, o país, a atmosfera etc, em lugar de procurarmos investir em energia limpas e energias renováveis, como biocombustíveis, energia hidroelétrica, solar, eólica e cia. Mas não acho que seja uma simples questão de pensarmos que a exploração do pré-sal poderia “sujar” nossa matriz energética. Em primeiro lugar porque ninguém sujaria a matriz energética se essa não se mostrasse uma alternativa economicamente mais viável.

Ocorre que, por uma coincidência muito feliz, o mundo todo está se movimentando em uma direção: a da busca das chamadas “fontes alternativas”. Isso vem ocorrendo por razões econômicas e ambientais (mais o primeiro fator que o segundo, sejamos realistas. Aliás, veja aqui um bom exemplo disso). Ocorre que, por uma coincidência mais feliz ainda, essa é justamente a direção que tormamos há um par de anos e da qual agora estamos começando a sentir seus muitos benefícios. Ambientais e econômicos. Ou seja, tudo de muito bom.

E aí, que fazemos? Mil passos pra trás… O pré-sal não é o futuro porcaria nenhuma. Há poucas coisas tão retrô quanto explorar petróleo. Só que a gente encontrou esse recurso hoje, que fazer: ignorar?, desprezar?, doar?, jogar fora? N.D.A., vamos explorá-lo, claro. Obviamente é fundamental considerar a necessidade de reinjetar o gás carbônico que é liberado no processo de extração etc etc. Mas o ponto principal é: não vamos fazer do pré–sal o nosso vinagre de maçã. Deixa ele aí de plano B. Apenas! Os esforços científicos e tecnológicos, no que diz respeito ao setor energético, têm que estar centradas em outro lado! Isso se quisermos falar em futuro, claro. Se não vamos ficar com o passado mesmo, simples questão de escolha. Qual é a sua?

Atualização em 14/09/09:

Que o pré-sal não sirva de desculpa para não avançarmos no uso de biocombustíveis renováveis. Temos o maior potencial de energia eólica do mundo, mas ainda atuamos de forma tímida,

disse Carlos Nobre, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que participou, em 08/09/09, de audiência pública da Comissão Mista Permanente sobre Mudanças Climáticas como representante do Ministério da Ciência e Tecnologia. Leia mais aqui.

Atualização em 21/09/09:

Uma euforia exagerada em relação à descoberta de mais petróleo tem de ser evitada, a fim de não levar o país a abandonar recursos e tecnologias que sejam sustentáveis a longo prazo e que não se vão exaurir como o petróleo ou gás,

disse José Goldemberg (dispensa apresentações, não?),  em artigo publicado no Estado de São Paulo em 21/09/09. Leia a íntegra aqui.

Ainda bem que tem gente séria, tecnicamente competente e minimamente influente raciocinando devidamente (gostaram das rimas?) sobre o tema!

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§ 7 Responses to pré-sal para comemorar a independência do Brasil?

  • Luiz Bento diz:

    Tati,

    Não acho que demos mil passos para trás. Sem dinheiro fazer pesquisa de fontes mais limpas de energia não vai rolar. E aí? Podemos sim lutar para o melhor investimento do dinheiro gerado pelo petróleo do pré-sal, mas não vamos cair no conto de que tudo que vem do petróleo é ruim. Na primeira reunião sobre a exploração do pre-sal o Minc era um dos presentes e saiu bastante feliz do encontro.

    Vamos lutar sim, mas do lado certo.

    Abraços.

  • Luiz Bento diz:

    A Carta Capital dessa semana focou neste assunto. No link abaixo um trecho da entrevista do Luis Pinguelli Rosa:

    http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=8&i=4970

    • trnahas diz:

      Oi, Luiz.
      Mil passos pra trás talvez tenha sido exagero (um pouco de propósito até, pra reforçar a postura). Mas a depender da forma de exploração desse recurso, em especial em relação à forma e investimentos de exploração de outros, é bem possível que cheguemos perto disso.
      Não acho que tudo o que vem do petróleo é ruim, bem como não acho que está sendo tudo um blá-blá-blá eleitoreiro desse governo. Acho que qualquer outro governo no lugar, estando à vésperas de eleições ainda por cima, faria o mesmo alarde. Mas alarde é só alarde, depois passa; o problema é o direcionamento que está sendo dado para uma política energética que dá conta dos nossos próximos 10-20 anos.
      O que eu acho é que estamos indo na contramão do mercado. Então, em termos econômicos (vamos até esquecer as questões ambientais por ora), é prejudicial pro país investir tanto em algo que vai render tão pouco no mercado logo mais. E todos sabemos que será preciso investir muita grana pra desenvolver a tecnologia de exploração adequada do pré-sal…
      Acho que o Minc tem noção das questõs principais (muito melhor que eu, no mínimo, não há duvida :), eu li uma entrevista dele no Estadão, ele falava também da questão de ter que reinjetar o CO2 de volta nos poços etc. Mas… esse não é um projeto do Minc. Sinceramente, acho que os pitacos dele importarão bem pouco na condução desses processo…
      Sobre a entrevista na Carta Capital, li apenas o trecho disponível online no link que vc indicou, então não posso falar do resto. Mas nesse trecho tem… aquilo que estamos ouvindo de todos os lados e vamos ouvir ainda muito tempo: como fazer a partilha etc. Eu acho que o equívoco está em centrar toda a discussão nessa questão. Há uma questão bem anterior que precisa ser discutida e não está sendo…

      • Luiz Bento diz:

        Concordo plenamente que precisamos discutir mais a política energética do Brasil, mas não vamos nos juntar nem com o pessoal do alarde nem com o pessoal que é contra qualquer coisa ligada a petróleo. Acho que este é o ponto :)

        Abraços!

  • trnahas diz:

    Para uma avaliação de como a mídia vem abordando a questão do pré-sal:

    Observatório da Impensa: http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=554IMQ001

    Jornalismo B: http://jornalismob.wordpress.com/2009/09/02/e-impossivel-entender-o-pre-sal-lendo-jornal/

  • trnahas diz:

    Leitura interessante e bem humorada sobre o pré-sal. E, de quebra, ambientalistas mais exaltados descobrirão que petróleo salva as baleias :) Aqui: http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2009/09/08/petroleo-baleias-220943.asp

  • trnahas diz:

    Li ontem no Estadão a crônica que João Ubaldo Ribeiro publica aos domingos. Dessa vez foi “O pré sal num boteco do Leblon”.
    A versão online no jornal ainda está disponível apenas para assinantes, mas há uma reprodução do texto aqui: http://www.almacarioca.net/o-pre-sal-num-boteco-do-leblon-joao-ubaldo-ribeiro/
    Recomendo!

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