ciência traduzida: “virtual you”

Agosto 17, 2009 § Deixe o seu comentário

Conforme prometido, vou dar início a uma série de posts contendo traduções de alguns textos de divulgação científica interessantes. Começo com uma livre tradução do post Virtual You, escrito em 07/08/09 por Steven Novella, neurologista da Universidade de Yale, em seu blog NeuroLogica.

Ao pedir sua autorização para a tradução desse post, acabei me envolvendo no projeto de tradução de parte do conteúdo de seu blog para diveresas línguas. Aproveito então para pedir que, se houver algum interessado em contribuir para a elaboração dessa versão em português (sem compromisso de quantidade, periodicidade etc), que por favor entre em contato.

Bom, intróito feito, vamos ao texto. As minhas inserções estão marcadas em negrito e entre colchetes. Espero que gostem do tema tanto quanto eu!

Você Virtual

Uma nova pesquisa aumenta o crescente corpo de investigações sobre como nosso cérebro nos provê o sentido de que estamos dentro de nossos corpos. Essa é uma das funções cerebrais que nós menosprezamos – e nem mesmo percebemos que se trata de uma função cerebral ou que é necessária – até que não funcione adequadamente. Quando isso acontece, temos uma experiência extracorpórea (OBE) [do inglês out-of-body experience].

Antes do advento da neurociência moderna, as OBEs eram interpretadas como experiências místicas ou espirituais. Em muitas culturas, elas são provocadas pelo uso de drogas durante rituais espirituais. Também já foram reportadas durante determinados estágios do sono ou em situações de quase morte.

A menos que alguém seja um neurocientista ou tenha um interesse entusiástico sobre como o cérebro funciona, tendemos a pensar em nosso eu mental como um todo integrado e não como uma coleção de funções independentes – a última opção é a mais próxima da realidade. Nossos cérebros são mais parecidos com comitês com muitas partes distintas desempenhando funções específicas – algumas conscientes, algumas inconscientes. Mas uma vez que somos nosso cérebro, estamos conscientes apenas do efeito em rede daquela parte das nossas funções cerebrais que gera nosso estado consciente e de atenção. Nós não temos consciência dos “grupos de trabalho” que estão agindo por trás das cenas e, portanto, não estamos conscientes de todas as tarefas subconscientes em execução por componentes individuais do nosso cérebro.

Isto é, até que uma delas deixe de funcionar. Então experimentamos uma alteração bizarra em nossa consciência. Há muitos exemplos interessantes desse fenômeno. Podemos compreender facilmente que o braço esquerdo ficaria paralisado e não poderíamos movê-lo se a parte do cérebro que controla este movimento estivesse danificada. Mas o que acontece quando a porção do nosso cérebro que mapeia o lado esquerdo do mundo é danificada? Nesse caso, nós não apenas não podemos mover o lado esquerdo do corpo, como também não conseguimos pensar sobre o lado esquerdo de nós mesmos ou do mundo (uma síndrome chamada negligência). Pacientes com essa lesão, normalmente decorrente de um AVC [acidente vascular cerebral], não entendem seu braço esquerdo como fraco, [na verdade] eles não sabem que têm um braço esquerdo. Se você mostrar a eles a mão esquerda deles mesmos, eles dirão que ela é sua ou de alguma outra pessoa. Você não consegue convencê-los de que é deles. [veja ilustração abaixo]

Exemplos de desenhos e cópias dos mesmos feitas por pacientes com negligência. Esta imagem não constava do post original, foi inserida por mim para melhor ilustrar o fenômeno. Fonte: Stanford Encyclopedia of Philosophy (http://plato.stanford.edu).

Exemplos de desenhos e cópias dos mesmos feitas por pacientes com negligência. Esta imagem não constava do post original, foi inserida por mim para melhor ilustrar o fenômeno. Fonte: Stanford Encyclopedia of Philosophy.

Há outra parte do cérebro que nos dá a sensação de proprietários sobre as diversas partes de nosso corpo (separada do mapeamento do mundo mencionada acima). Nos raros casos de danos, esse módulo de propriedade pode perder as aferências provenientes de um membro paralisado e criar a ilusão de propriedade sobre um membro imaginário (um membro fantasma “extra oficial”). As pessoas nessa condição se sentem como se possuíssem um membro adicional – eles podem vê-lo e sentí-lo, e até mesmo usarem-no para se coçar. Mas, claro, não podem manipular a realidade fora de seus corpos com este membro, já que este não existe exceto “na instalação elétrica” de seu cérebro.

E, é claro, há porções do cérebro que fazem com que nos sintamos como se estivéssemos dentro de nossos próprios corpos. Essa não é uma conseqüência automática de sermos nosso eu físico – nosso cérebro precisa criar especificamente a sensação de que existimos em nosso corpo – de que estamos situados em um espaço tridimensional atrás dos nossos olhos. Nosso cérebro nos dá uma experiência intracorpórea e, portanto, quando esta porção do cérebro é danificada temos uma OBE.

O que os cientistas têm procurado identificar são maneiras de criar artificialmente, e volitivamente, uma OBE. O que aprenderam foi que a criação de uma experiência intracorpórea está parcialmente fundamentada na integração de aferências sensoriais – sensação táctil, sensação vestibular (aferência proveniente do ouvido interno sobre orientação para gravidade e aceleração), propriocepção (sensação sobre onde o corpo está no espaço tridimensional) e aferência visual. Essa integração ocorre na junção temporoparietal, especialmente no lado direito (não dominante).

Incidentalmente, essa estrutura está localizada próxima da região cerebral que nos faz sentir como se estivéssemos conectados à realidade externa; então sentimos que estamos em nosso corpo e que nosso corpo está no mundo. Um prejuízo dessa função resulta na chamada “desrrealização”.

O que os pesquisadores aprenderam é que o cérebro pode ser enganado por meio do embaralhamento das aferências táteis e visuais para localizar o sentido de si em outro local que não onde o corpo de fato está. Eles fizeram uma série de experimentos nos quais o sujeito experimental usa um visor de realidade virtual, de forma que só vê uma imagem gerada por computador. Essa imagem inclui um vídeo para suas próprias costas; então há uma imagem dele mesmo em pé a poucos centímetros de si. Quando suas costas são tocadas ou estimuladas de outra forma, o sujeito vê seu eu virtual à sua frente sendo tocado ao mesmo tempo em que sente esse toque. Seu cérebro tenta integrar essas duas informações – aquele corpo à minha frente está sendo tocado e eu sinto isso, portanto eu devo estar dentro daquele corpo. Isso é suficiente para provocar uma sensação extracorpórea em alguns sujeitos (embora não uma OBE completa). [veja no final do post o vídeo da New Scientist "Virtual out-of-body experience" que mostra o experimento sendo conduzido ao vivo]

O último experimento é uma variação do mesmo arranjo. Desta feita os sujeitos estão usando um dispositivo em suas costas que pode tanto se iluminar quanto provocar a sensação de vibração. Os sujeitos podem, portanto, ver os flashes de luz enquanto sentem a vibração. Algumas vezes as luzes estão em um local distinto daquele da vibração, e os sujeitos podem relatar terem sentido a vibração onde viram as luzes em vez de onde a vibração de fato está acontecendo. Essencialmente, seus cérebros estão sendo alimentados com informação contraditória e isso pode ser integrado de diferentes formas. Uma vez que uma “escolha” é feita, é esta a sensação que o sujeito experimenta.

Essa situação é similar à integração visual de informação contraditória ou ambígua – também conhecida por ilusões visuais. Da mesma forma que na representação em 2-D de objetos 3-D, seu cérebro consegue vê-las ou de um jeito ou de outro, e frequentemente fica alternando entre um e outro (como na ilusão da bailarina). [mais sobre ilusões visuais aqui]

Nesse experimento, os sujeitos que sentem a vibração onde vêem as luzes parecem colocar a si mesmos fisicamente mais próximos de onde seus eus virtuais estavam, ao invés de onde seus corpos estavam. Quando os sujeitos foram movidos para trás alguns centímetros e solicitados a caminharem até o lugar onde estavam antes, aqueles com sensação extracorpórea caminharam um pouco mais, em direção ao local onde seu eu virtual estava situado.

Esta pesquisa está razoavelmente adiantada em termos da compreensão do que diferentes regiões do cérebro estão fazendo para criar a sensação intracorpórea e de intra realidade. Contudo, ainda está na sua infância em termos da manipulação dessa função cerebral. Ela está indicando, porém, que essas intervenções grosseiras podem criar tais efeitos interessantes.

E, é claro, temos que especular sobre as aplicações dessa tecnologia quando estiver madura. A mesma lista aparece subitamente em grande parte dos noticiários e já os discuti aqui [no blog NeuroLógica] também. Se pudéssemos manipular completamente nossa integração cerebral da informação sensorial para criar a sensação de que estamos dentro de nossos corpos, nós poderíamos enganar o cérebro para criar a sensação completa de que estamos dentro de uma representação virtual de nós mesmos, ou num avatar. Isso significa que poderíamos sentir como se estivéssemos dentro de um mundo virtual de jogo, como se nós realmente fôssemos nossos avatares e não apenas estivéssemos assistindo-os em uma tela. Tenho que dizer: eu realmente espero eventualmente ver essa aplicação.

Há ainda aplicações mais práticas. Esse tipo de manipulação pode ser usada para fazer com que operadores de robôs sintam-se como se eles fossem de fato o robô, e não que estejam apenas operando-o, o que deve aumentar significativamente o controle. Isso seria muito importante para próteses de membros; então poderíamos dar a alguém um braço biônico e a pessoa sentir que esse é de fato seu braço, não apenas uma peça de hardware bizarramente acoplada a seu corpo.

Isso tudo irá, é claro, inevitavelmente levar à Matrix em que as pessoas estejam vivendo vidas virtuais dentro de um mundo virtual. Esses cientistas podem estar involuntariamente conduzindo a investigação em ciência básica que posteriormente será usada por nossos robot overlords para nos escravizar dentro da Matrix. Mas eu acredito que esse é um risco que devemos correr.

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