a ciência e a veiculação da ciência

Julho 18, 2009 § 2 Comentários

Uma questão que vira e mexe vem à baila é sobre a neutralidade da ciência, muitas vezes reduzida mais para a busca por identificar de quem é  a culpa sobre resultados negativos da aplicação de algumas descobertas científicas.

Li ontem o texto A confusão dos cientistas em uma das colunas da BBC Brasil. Vou transcrever só a abertura para mostrar o tom:

A ciência e os cientistas têm um objetivo único: desnortear-nos a todos. A ciência continua sem conseguir explicar o que é e como funciona a aspirina. Soltem um cientista num laboratório bem provido e ele conseguirá seu objetivo. Que é aparecer com uma novidade todos os dias nas primeiras páginas dos jornais. [...]

Partindo dessa(s) pemissa(s), o autor desenvolve seu raciocínio no sentido de defender que a ciência e seus sacerdotes, os cientistas, deixam os cidadãos muito desorientados ao fornecerem informações contraditórias e/ou inúteis sobre “o que faz bem e o que faz mal”. Assim, recorre aos exemplos do ovo, da manteiga, da exposição ao Sol, da bomba atômica etc para mostrar o quanto a malvada ciência está aí mais para confundir que para explicar.

E esse é um texto no meio de outros na mesma linha. Ainda não entendo de onde saiu essa idéia de que a ciência é isso, de que o que se faz em pesquisa científica é isso, de que o método de produção do conhecimento científico é esse e de que os cientistas são seres formatados para isso. Mas é essa a ciência que normalmente é veiculada nos MCMs e, muitas vezes, também nos livros didáticos de ciências.

Já disse aqui que a coisa mais difícil hoje em dia é achar jornalismo científico na chamada “grande mídia”. O que impera são repetições de press releases, veiculação de pseudociência ou ciência má explicada e até deturpação de resultados de pesquisas científicas a partir de um recorte “cienciacionalista” (um exemplo recente está muito bem avaliado no post  Disappearing the science news de Carl Zimmer – leia comentário anterior aqui). E aí eu pergunto: a confusão na cabeça dos leitores, telespectadores e ouvintes é provocada pela ciência e seus sacerdotes, os cientistas ou pelo tipo de jornalismo científico que temos?

Não  sou da opinião de que os cientistas devam ficar à margem da discussão sobre política científica.  Também não estou querendo dizer que o cientista é o ser mais imaculado desse planeta e que a ciência é absolutamente neutra e imune às vaidades e ambições de seus atores. Seria essa uma visão bastante ingênua e aqui mesmo no blog já cutuquei algumas das falhas do modus operandi da ciência (por exemplo, nos posts cadê o debate? e picaretagem científica). Mas daí a dizer que a culpa sobre as celeumas margarina x manteiga é dos cientistas me parece, no mínimo, exagero.

Parênteses: o mesmíssimo texto foi reproduzido nO Globo e no Último Segundo. Lembremos que uma infinidade de outras coisas poderia ser publicada no lugar e optaram pela propagação dessas ideias; sintomático, não?

E já que lembrei de Kubrick esses dias, vou invocá-lo aqui de novo: o filme Dr. Fantástico (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, Inglaterra, 1964) é um ótimo ponto de partida para a discussão sobre a ciência versus a aplicação da ciência. Quem ainda não tiver visto o filme, não perca essa diversão!

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